segunda-feira, 9 de agosto de 2010

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE INTERPRETAÇÃO

A história da interpretação mostra-nos que a adoção do método correto de interpretação não garante necessariamente conclusões corretas pe¬los usuários do método. O rabinismo, que usava o método literal, pro¬duziu várias opiniões e interpretações erradas pelo mau emprego des¬se método. Logo, é necessário definir alguns princípios de interpreta-ção, mesmo depois de estabelecer o método correto, para que o método não seja mal-aplicado e não produza conclusões infundadas.
I. A Interpretação das Palavras

Sabe-se sem dúvida que as palavras formam um meio de transmitir o pensamento. Toda exegese correta precisa, então, começar por uma inter¬pretação das próprias palavras. Horne, em sua preciosa obra Introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures [Introdução ao estudo crítico e ao conhecimento das Sagradas Escrituras], fez um excelente resumo dos princípios a ser empregados na interpretação das palavras.

1. Devemos verificar o usus loquendi, ou a noção vinculada a uma palavra pelas pessoas em geral, pelas quais a língua é falada agora ou o era anti¬gamente, e sobretudo na relação especial a que essa noção está vinculada.
2.O sentido aceito de uma palavra deve ser conservado a não ser que razões fortes e necessárias exijam que seja abandonado ou negligenciado.
3. Quando uma palavra tem vários significados de uso comum, de¬vemos selecionar o que melhor se encaixa na passagem em questão, o qual seja coerente com o caráter, com os sentimentos e com a situação conhecida do autor, de acordo também com as circunstâncias conhecidas sob as quais ele escreveu.
4. Embora a força do certas palavras só possa ser extraída da etimologia, não podemos atribuir, no entanto, muita confiança a essa ci¬ência freqüentemente incerta; isso porque o significado primeiro de uma palavra muitas vezes é bem diferente de seu significado comum.
5. Devemos examinar e analisar cuidadosamente as diferenças entre palavras aparentemente sinônimas.
6. Os epítetos introduzidos pelos escritores sagrados também de¬vem ser avaliados e examinados cuidadosamente, já que todos eles têm força declarativa ou explicativa, ou servem para distinguir uma coisa da outra, ou unem essas duas características.
7. Termos gerais às vezes são usados em toda a sua extensão, e às vezes em sentido restrito, e ser entendidos de uma maneira ou de outra depende da extensão, do assunto, do contexto e das passagens paralelas.
8. Com relação a qualquer passagem específica, o significado mais simples — ou o que se apresenta mais prontamente a um leitor atento e inteligente, que possua conhecimento aceitável — é com toda a probabili¬dade o sentido ou significado de fato.
9. Já que a característica da interpretação é proporcionar na nossa própria língua o mesmo discurso que os autores sagrados escreveram originariamente em hebraico ou em grego, é evidente que nossa interpre¬tação ou versão, para ser correta, não deve afirmar nem negar mais que os escritores do original afirmaram ou negaram ao escrever; conseqüen¬temente, devemos estar mais dispostos a extrair um significado da Bíblia do que acrescentar-lhe sentido.
10. Antes de chegar a conclusões sobre o sentido de um texto, para provar algo por meio dele, devemos ter certeza de que tal sentido não contraria o raciocínio natural. (Thomas Hartwell HORNE, Introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, 325-6)

Angus e Green suplementam Horne dizendo:

As palavras das Escrituras devem ser analisadas pelo seu significado co¬mum, a não ser que se demonstre que tal significado contrarie outras pa¬lavras da frase, o argumento ou contexto ou outras partes das Escrituras. Dos dois significados, o preferido é geralmente o mais evidente à com¬preensão dos ouvintes ou leitores originários da passagem inspirada, per¬mitindo que as formas de pensamento prevaleçam na sua própria época, assim como as expressões figuradas, tão comuns, que não constituíam exceção à regra.
O verdadeiro significado de qualquer passagem das Escrituras, en-tão, não é cada sentido que a palavra contém, nem cada sentido verdadei¬ro em si, mas o que é proposto pelos escritores do original, ou mesmo pelo Espírito Santo, apesar de entendido imperfeitamente pelos próprios escritores... (Joseph ANGUS & Samuel G. GREEN, The Bible handbook, p. 180.)

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