segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Formação do cânon do Novo Testamento

Formação do cânon do Novo Testamento

O ministério de Jesus pode ser datado entre os anos 26 e 30 de nossa era. O Salvador não deixou nada escrito, e o NT só começou a ser redigido, segundo a maioria dos estudiosos, uns 30 anos depois. Assim sendo, em termos de Bíblia, os primeiros cristãos dependiam do AT e de uma tradição oral acerca dos ensinamentos e da obra redentora de Jesus (que logo ou aos poucos foi sendo escrita), sem falar da palavra e pregação dos apóstolos.
Como os Evangelhos aparecem em primeiro plano no cânone do NT, alguém poderia até concluir que foram os primeiros livros a serem escritos. No entanto, embora possível, este não é necessariamente o caso. Os Evangelhos, segundo se pensa, foram escritos uns trinta anos depois da ressurreição de Cristo, provavelmente entre 60 e 70 depois de Cristo. Antes deles foram escritas quase com certeza todas as epístolas de Paulo. Quanto ao livro mais antigo do NT, há três candidatos: Tiago, que muitos eruditos, por questões de estilo , colocam bem no final do período do NT, Gálatas e 1Tessalonicenses. Segundo a maioria dos eruditos, o último a ser escrito foi o Apocalipse .
À medida que novas igrejas iam sendo fundadas, crescia a necessidade de se copiar os livros do NT, para leitura em culto público. Assim, as igrejas foram aos poucos reunindo os livros e formando a coleção. O próprio NT fornece pistas sobre como se deu esse processo. Para isso, basta conferir Cl 4.16 e 2Pe 3.15,16.
Estima-se que por volta do ano 200 d.C. a maioria das congregações cristãs tinha em sua coleção ou biblioteca a maioria dos 27 livros do NT. Em outras palavras, a estrutura básica do NT estava formada. A mais antiga lista que contém todos (e apenas) os 27 livros do NT é uma carta pascal de Eusébio, escrita em 367 d.C. Nessa carta, ele, como bispo, informava, entre outras coisas, a data da Páscoa naquele ano e os livros que tinham status canónico na Igreja.
Livros contraditados
É bom acrescentar que alguns livros que estão no NT nunca foram aceitos em algumas regiões da Igreja Antiga, a saber. Hebreus, Tiago, 2Pedro, Judas e Apocalipse. Hebreus, por exemplo, foi questionada na Igreja ocidental ou latina, ao passo que o Apocalipse foi visto com restrições na Igreja oriental, de fala grega . São livros que receberam um parecer desfavorável por parte de muitos e tiveram dificuldade de se firmar no cânone. Eusébio, no quarto século, deu-lhes o nome de antilegómena, isto é, "disputados" ou "contraditados".
Este é um fato histórico que não pode ser negado nem apagado por decretos ou dogmas eclesiásticos: certos livros foram questionados pela Igreja Antiga, que teve a tarefa de "definir" o cânone. Será que, ao fazerem esse questionamento, agiram com leviandade
ou ceticismo exagerado? Não. A preocupação era impedir que entrasse algum livro que não fosse palavra de Deus.
Um dos problemas ligados a alguns dos livros era o fato de não mencionarem o nome do autor. Este é o caso de Hebreus, por exemplo. Autoria apostólica, ao que parece, foi um critério importante para se aceitar um livro no cânone do NT. Além disso, certas afirmações (Hb 6, por exemplo) levaram a certas resistências e objeções. No caso do Apocalipse, um dos problemas era a diferença de estilo entre este livro e os demais escritos de João, ou seja, o Evangelho e epístolas de João, o que parece apontar para um autor diferente do apóstolo João.
Também é verdade que, se alguns dos atuais livros canônicos tiveram dificuldade de entrar, houve livros que em certos lugares desfrutaram de status canônico por algum tempo, mas que depois foram excluídos. É o caso de documentos como o Didaquê, a Epístola de Barnabé, e Clemente Romano. Daí se pode concluir que o cânone foi formado por um processo de adição e de subtração, com ênfase maior na subtração, pois havia mais candidatos do que vagas .
Providência divina
Somos levados a crer que Deus, em sua providência, guiou a Igreja Antiga em sua avaliação de vários livros e na definição dos livros que fariam parte do cânone. O processo de seleção levou algum tempo, e surgiram diferenças de opinião. Porém, somos gratos àquela Igreja pelo fato de só ter aceito alguns dos livros depois de criteriosa avaliação, e, em alguns casos, caloroso debate. A maioria dos leitores que compara os livros canônicos com escritos pós-apostólicos (Clemente, Didaquê, etc.) e livros apócrifos do NT (Evangelho de Tomé, Evangelhos da Infância, etc.) endossa o julgamento crítico dos cristãos da Igreja Antiga.
A ordem dos livros do Novo Testamento
Os livros do NT não aparecem, em edições modernas da Bíblia, na ordem em que foram escritos. A ordem é mais lógica do que cronológica. Na Igreja Antiga, nem todas as igrejas tinham os livros na mesma seqüência. E, a rigor, uma ordem fixa só se estabeleceu a partir do momento em que se adotou o formato de códice, ou seja, quando os livros passaram a formar um volume encadernado.
Sobre a ordem dos livros do NT, pode-se afirmar o que segue:
1) Não se sabe ao certo que arranjo se dava ao cânone antes do terceiro século d.C.
2) Nos mais antigos arranjos que se conhece, a partir dos códices e das listas, os Evangelhos aparecem quase sempre no início, e o Apocalipse, no final.
3) Interessante é o que é feito no Códice Alexandrino, escrito no quinto século: as epístolas católicas (Tiago, 1Pedro, etc.) aparecem antes das paulinas. Talvez tenha sido influência de Gálatas 1.17, onde Paulo fala daqueles que eram apóstolos antes dele .
4) O livro de Atos é colocado, ou antes, ou depois das epístolas católicas. Trata-se do segundo volume da obra de Lucas, mas desde o início foi colecionado à parte, ou seja, separado do Evangelho de Lucas.
5) As cartas de Paulo aparecem em ordem decrescente de tamanho, e não em ordem cronológica. Por exemplo, 1 Coríntios com certeza foi escrita antes de Romanos, que é datada de 56 d.C. No entanto, é colocada depois de Romanos, porque Romanos é mais longa do que 1 Coríntios. O mesmo se aplica às demais cartas paulinas, sendo que em primeiro lugar aparecem as que foram escritas a igrejas, depois as que foram endereçadas a indivíduos (Timóteo, Tito e Filemon). Nesses dois blocos parece que se segue o princípio de começar com o documento mais longo e terminar com o mais curto. Uma contagem das linhas, nos manuscritos gregos, e das palavras, em edições modernas, tende a confirmar isso: Romanos tem 7.111 palavras; 2Tessalonicenses, 823. Daquelas escritas a indivíduos, 1Timóteo tem 1.591 palavras; Filemon, 335.
A preservação dos livros bíblicos
Muitos dos livros bíblicos com certeza foram originalmente escritos em rolos de papiro. O que é o papiro? É um material de escrita feito a partir de um junco que cresce principalmente no delta do rio Nilo. Esse junco era cortado em tiras, que eram justapostas em sentido horizontal e vertical. As folhas eram emendadas umas nas outras, formando um rolo. O papiro já era usado como material de escrita por volta do terceiro milênio antes de Cristo . Pode-se perceber que tal material tinha pouca durabilidade. Assim sendo, os originais ou autógrafos da Bíblia (quer escritos em papiro ou pergaminho) desapareceram. Tudo que se tem hoje são cópias dos originais .
A maioria das cópias dos textos bíblicos, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, são pergaminhos. O pergaminho, feito a partir de peles de animais, era usado como material de escrita desde o quinto século antes de Cristo . É possível que alguns livros do NT tenham sido escritos em pergaminho (conferir 2Tm 4.13). Nem é preciso dizer que os escritores bíblicos desconheciam o papel. Embora desenvolvido na China por volta de 600 a.C, o papel só chegou à Europa ao tempo das Cruzadas (a partir do ano 1000 d.C), trazido pelos árabes.
Quanto à forma, os "livros" eram, no início, rolos, isto é, folhas de papiro ou pergaminho emendadas ou costuradas umas nas outras. Isso formava uma tira de comprimento médio de dez metros, enrolada em dois carretéis. Na sinagoga de Nazaré (Lc 4.17,20), Jesus literalmente desenrolou e enrolou o livro ou rolo do profeta Isaías.
Por volta do segundo século depois de Cristo, surgiram os códices, em que as folhas não eram mais costuradas para formar um rolo, mas colocadas num maço e costuradas na borda, formando um caderno. Assim surgiu o que conhecemos por livro. O surgimento do códice é atribuído a cristãos. Ao que parece, uma das fortes razões para a adoção do códice (que tinha algo de iconoclasta, pois "quebrava" a forma normal de um livro sagrado) foi o fato de possibilitar que os quatro Evangelhos fossem incluídos num só volume, algo que o sistema do rolo não permitia.
Apesar de circunstâncias nem sempre favoráveis, especialmente a dificuldade de se fazer cópias manuscritas de livros longos, nenhum livro da antiguidade foi transmitido com tanta limpidez, com tanta certeza e precisão quanto a Bíblia. Deus não somente nos deu a Bíblia, dentro da história, mas também a preservou e a fez chegar até nós. Assim, mesmo vivendo quase dois milênios depois da composição do último livro da Bíblia, podemos estar confiantes de que temos em mãos todos os livros que Deus quis nos dar. A questão do cânone é, para todos os efeitos práticos, uma questão encerrada.

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