segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO



I. O Começo da Interpretação

É fato geralmente aceito por todos os estudiosos da história da hermenêutica que a interpretação começou por ocasião do retorno de Israel do exílio babilônico, sob a liderança de Esdras, conforme registrado em Neemias 8.1-8. Tal interpretação se fez necessária, primeira¬mente, por causa do longo período da história de Israel em que a lei mosaica foi esquecida e negligenciada. A descoberta do esquecido ''livro da lei" por Hilquias, durante o reinado de Josias, recolocou-a numa posição de destaque por breve período, apenas para ser novamente esquecida nos anos do exílio.( Cf F. W. FARRAR, History of interpretation, p. 47-8)
Fez-se necessária, também, porque du¬rante o exílio os judeus substituíram a língua nativa, o hebraico, pelo aramaico. Quando voltaram à sua terra, as Escrituras haviam-se tor¬nado ininteligíveis para eles.( Cf. Bernard KAMM, Protestant biblical interpretation, p. 27.)
Esdras teve de explicar ao povo as Es¬crituras, olvidadas e indecifráveis. Dificilmente poderíamos pôr em dúvida o fato de que a interpretação de Esdras do que estava escrito fosse literal.

II. A Interpretação Judaica do Antigo Testamento

Essa mesma interpretação literal foi característica marcante da in-terpretação do Antigo Testamento. Ao rejeitar o método estritamente literal de interpretação, Jerônimo "chama a interpretação literal de 'ju¬daica', dando a entender que facilmente pode tornar-se herética, e re¬petidas vezes afirma ser ela inferior à 'espiritual'".( FARRAR, op, cit, p 232) Aparentemente, na opinião de Jerônimo, método literal e interpretação judaica eram sinô¬nimos.
O rabinismo exerceu tamanho domínio sobre a nação judaica dada a união das autoridades sacerdotal e real numa única linhagem. O mé¬todo empregado pelo rabinismo dos escribas não era alegórico, mas um método literal, que, em seu literalismo, esvaziava a lei de todos os seus requisitos espirituais.(cf. ibid, 60-1) Embora levasse a conclusões falsas, isso não era culpa do método literal, mas da aplicação errada do método pela exclusão de qualquer outra coisa que não fosse a letra nua do que estava escrito. Briggs, depois de resumir as treze regras que governa¬vam a interpretação rabínica, diz:

Algumas das regras são excelentes e, tendo em vista a lógica prática da época, não podem ser questionadas. O defeito da exegese rabínica não estava tanto nas regras quanto em sua aplicação, embora não seja difícil descobrir falácias tácitas naquelas e embora não ofereçam proteção suficiente con¬tra deslizes de argumento [grifo do autor]. (Charles A. Briggs, General Introduction to the study of Holy Scripture, p, 431)

Devemos concluir, a despeito de todas as falácias do rabinismo judaico, que os judeus seguiam um método literal de interpretação.

III. O Literalismo da Época de Cristo

A. O literalismo entre os judeus. O método dominante de interpretação entre os judeus na época de Cristo certamente era o literal. Horne apresenta assim a questão:
A interpretação alegórica das Escrituras sagradas não pode ser historicamente provada como a que prevalecia entre os judeus a partir do cativei¬ro babilônico; tampouco se pode provar que tenha sido comum entre os judeus na época de Cristo e de Seus apóstolos.
Embora o Sinédrio e os ouvintes de Jesus muitas vezes recorressem no Antigo Testamento, jamais deram indício de adotar uma interpretação alegórica; mesmo Josefo jamais recorre a ela. Os judeus platônicos do Egito começaram, no primeiro século, em imitação aos gregos pagãos, a interpretar o Antigo Testamento alegoricamente. Filo de Alexandria destacou-se entre os judeus que praticavam esse método. Ele o defende como algo novo e até então desconhecido e, por essa razão, contestado por outros judeus. Jesus nunca esteve, portanto, numa situação em que fosse obriga¬do a adaptar-se a um costume dominante de interpretar alegoricamente as Escrituras. Tal método não era utilizado na época entre os judeus, certamente não entre os judeus da Palestina, onde Jesus viveu e ensinou. (Thomas Hartwell HORNE, An introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, 324)

Os amilenaristas de nossos dias estão essencialmente de acordo com essa posição. Case, defensor ardoroso do amilenarismo, reconhece:
(Cf. Floyd HAMILTON, The basis of millennial faith, p. 38-9; Oswald T. ALLIS, Prophecy and the church, p. 258)

Sem dúvida os antigos profetas hebreus anunciaram o advento de um dia terrível do Senhor, em que a velha ordem de coisas passaria subitamente. Profetas posteriores predisseram um dia de restauração para os exilados, em que toda a natureza seria milagrosamente modificada e um reino davídico ideal seria estabelecido. Os visionários de épocas seguintes re¬trataram a vinda de um reino divino verdadeiramente celestial, no qual os fiéis participariam das bênçãos milenares. Os primeiros cristãos espe¬ravam em breve contemplar a Cristo voltando entre as nuvens, assim como o tinham visto subir aos céus literalmente [...] No que diz respeito a esse tipo de imagem, o milenarismo pode de forma bem justa alegar ser bíblico. Inquestionavelmente certos escritores bíblicos esperavam um fim catas¬trófico para o mundo. Retrataram os dias angustiosos que viriam imediata¬mente antes da catástrofe final, proclamaram o retorno visível do Cristo celestial e aguardaram ansiosamente a revelação da Nova Jerusalém.
Qualquer tentativa de fugir a essas características literalistas do ideário bíblico é inútil. Desde os dias de Orígenes, certos intérpretes das Escrituras buscam refutar expectativas milenaristas afirmando que mes-mo as declarações mais dramáticas sobre a volta de Jesus deveriam ser entendidas figuradamente. Também se diz que Daniel e Apocalipse são livros altamente místicos e alegóricos, que não pretendiam referir-se a acontecimentos reais, quer passados, quer presentes, quer futuros, mas possuíam significado puramente espiritual, como o Paraíso perdido, de Mil¬ton, ou O peregrino, de John Bunyan. Tais recursos são meras evasivas, cujo propósito é tentar harmonizar as Escrituras às condições atuais, ao mesmo tempo que se despreza a vivida expectativa dos antigos. Os judeus afligidos no período dos macabeus exigiam não um fim figurado às suas angústias, mas um fim literal. Daniel não lhes prometeu nada menos que o estabelecimento literal de um novo regime celestial. De maneira igualmente realista, um escritor cristão primitivo escreveu: "... vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as nuvens do céu [Mc 14.62]" ou ainda "... dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus [Mc 9.1]". Imaginem o choque de Marcos se lhe fosse dito que tais expectativas já haviam sido concretizadas nas aparições de Jesus depois da ressurreição, ou nas experiências extáticas dos discípulos no dia de Pentecostes, ou na salvação de crentes por ocasião de sua morte. E quem pode imaginar a sensação de Marcos se lhe fosse dito, de maneira bem moderna, que sua predição da volta de Cristo seria cumprida na Reforma Luterana, na Revolução Francesa, no reavivamento wesleyano, na abolição da escravatura, na democratização da Rússia ou no resultado da guerra mundial? Os pré-milenaristas estão plenamente justificados por protestar contra os oponentes que alegorizam ou espiritualizam passagens bíblicas pertinentes, conservando a fraseologia bíblica, mas pervertendo profundamente seu significado original.( Shirley Jackson CASE, The millennial hope, p. 214-6.)

Ninguém sustentaria que o literalismo dos intérpretes judeus era idêntico à moderna interpretação histórico-gramatical. Naquela época o literalismo decadente esvaziava as Escrituras de todo e qualquer significado. Ramm observa corretamente:

... o resultado de um bom movimento começado por Esdras foi uma interpretação decadente e hiperliteralista, corrente entre os judeus nos dias de Jesus e de Paulo. A escola literalista judaica é o que de pior o literalismo produziu. É a exaltação da letra a ponto de se perder todo o sentido verdadeiro. Exagera de modo grosseiro o secundário e o fortuito, desprezando o essencial ou dele se desviando. (RAMM, op. cit, p. 28.)

No entanto, não podemos negar que o literalismo era o método aceito. O uso errado do método não milita contra o próprio método. O que estava errado não era o método, mas o seu emprego.

B. O literalismo entre os apóstolos. Esse era o método empregado pelos apóstolos. Farrar afirma:

A melhor teoria judaica, purificada no cristianismo, toma literalmente os ensinos da velha dispensação, mas vê neles, como Paulo, a sombra e o germe de desenvolvimentos futuros. A alegoria, embora usada uma vez por Paulo a título de ilustração passageira, é desconhecida de outros após¬tolos e jamais sancionada por Cristo. (FARRAR, op. cit., p. 217.)

O célebre estudioso Girdlestone escreveu em confirmação:

Somos levados a concluir que havia um método uniforme comumente aceito por todos os escritores do Novo Testamento na interpretação e na aplicação das Escrituras judaicas. É como se todos tivessem freqüentado a mesma escola e estudado com um único professor. Teriam freqüentado a escola rabínica? Seria para com Gamaliel, ou Hillel, ou qualquer outro líder rabínico que estavam em dívida? Todo conhecimento que se pode obter quanto ao modo de ensino vigente na época nega claramente essa hipótese. O Senhor Jesus Cristo, e nenhum outro, foi a fonte original do método. Nesse sentido, como em vários outros, Ele tinha vindo como luz para o mundo. (R. B. GIRDLESTONE, The grammar of prophecy, p. 86)

Briggs, por mais liberal que fosse, reconheceu que Jesus não usava os métodos dos de sua época, nem seguia as falácias de sua geração. Ele diz:

Os apóstolos e seus discípulos no Novo Testamento usam os métodos do Senhor Jesus, e não os dos homens de seu tempo. Os autores do Novo Testamento divergiam entre si nas tendências de seu pensamento [...] em todos eles, os métodos do Senhor Jesus predominavam sobre outros mé¬todos e os enobreciam. (BRIGGS, op. cit., p. 443.)

Não foi necessário aos apóstolos adotar outro método para entender corretamente o Antigo Testamento; precisaram, isto sim, purgar o mé¬todo existente de seus excessos nocivos.
Uma vez que a única citação alegórica do Antigo Testamento feita por autores do Novo Testamento é a explicação que Paulo faz da alegoria em Gálatas 4.24, e uma vez que já foi previamente demonstrado que há uma diferença entre explicar uma alegoria e utilizar o método alegó¬rico de interpretação, devemos concluir que os autores do Novo Testamento interpretaram o Antigo Testamento literalmente.

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