segunda-feira, 9 de agosto de 2010

INTEPRETAÇÃO DA LINGUAGEM FIGURADA

A Interpretação da Linguagem Figurada

Um grande problema que o intérprete enfrenta é a interpretação da linguagem figurada. Como as passagens proféticas freqüentemente usam a linguagem figurada, essa forma de comunicação deve ser estu¬dada com cuidado.

A. O uso da linguagem figurada. Sabe-se em geral que a linguagem figurada é usada tanto para embelezar uma língua quanto para transmitir idéias abstratas por meio de transferência.
É uma necessidade do intelecto humano que fatos ligados à mente ou à verdade espiritual se revistam de linguagem emprestada de coisas mate¬riais. A palavras exclusivamente espirituais ou abstratas, não podemos impor nenhuma concepção definida.
E Deus se digna a atender a nossa necessidade. Ele nos leva a um novo conhecimento por meio daquilo que já nos é conhecido. Ele Se reve-la de formas já conhecidas. (ANGUS $ GREEN, op., cit, p. 215)

B. Quando a linguagem é literal ou figurada? O primeiro problema que O intérprete enfrenta é saber se a linguagem é literal ou figurada. As implicações São expostas por Horne:

Então, para entender completamente a linguagem figurada das Escritu¬ras, é requisito, em primeiro lugar, procurar saber o que realmente é figu¬rado, para não considerar literal o que é figurado, o que faziam muitas vezes os discípulos do nosso Senhor e os judeus, e para não perverter o significado literal com uma interpretação figurada; e, em segundo lugar, quando apurarmos o que realmente é figurado, interpretar isso correta¬mente e apresentar seu sentido verdadeiro. (HORNE, op. cit, i, 356.)

Uma regra simples para distinguir o literal do figurado é dada por Lockhart, que diz:

Se o significado literal de alguma palavra ou expressão faz sentido em suas associações, é literal; mas, se o significado literal não faz sentido, é figurado. (Clinton LOCKHART, Principies of interpretation, p. 49)

Mais adiante o mesmo autor acrescenta:

Já que o literal é o significado mais comum de uma palavra e ocorre, por¬tanto, mais freqüentemente que o figurado, qualquer termo será conside-rado literal até que haja boa razão para uma compreensão diferente [...] O significado literal e mais comum da palavra, se coerente, deve ser preferido ao significado figurado ou menos comum. (Ibid., p. 156.)

Assim, o intérprete procederá com base na pressuposição de que a pa¬lavra é literal a menos que haja boa razão para concluir o contrário. Hamilton, que defende o uso da interpretação alegórica na profecia, confirma a mesma conjectura.

... uma boa regra para seguir é aquela em que a interpretação literal da profecia deve ser aceita, a não ser que a) as passagens contenham lingua¬gem obviamente figurada, ou b) o Novo Testamento autorize a interpre¬tação em outro sentido além do literal, ou c) uma interpretação literal contradiga verdades, princípios ou afirmações reais contidas em livros não-simbólicos do Novo Testamento. Outra regra clara é que as passa¬gens mais claras do Novo Testamento em livros não-simbólicos são a nor¬ma para a interpretação profética, em lugar de revelações obscuras e par¬ciais contidas no Antigo Testamento. Em outras palavras, devemos acei¬tar as partes claras e simples das Escrituras como base para extrair o sig¬nificado das mais difíceis. (Floyd HAMILTON, The basis of millennial faith, p. 53-4)

Geralmente será bastante inconfundível quando a linguagem for figu¬rada. Fairbairn diz:

... deve-se notar que, na grande maioria dos casos em que a linguagem é figurada, esse fato aparece na própria natureza da linguagem ou da rela¬ção na qual ela se encontra. Outro tipo de passagens em que a metáfora é também, em grande parte, fácil de detectar é quando predomina a cha¬mada sinédoque.( PATRICK FAIRBAIRN, Hermeneutical manual, p. 138)

O mesmo autor continua anunciando princípios pelos quais podemos saber se uma passagem é literal ou figurada. Ele diz:

O primeiro deles é que a linguagem é figurada quando se diz algo que, considerado ao pé da letra, muda a natureza essencial do assunto mencio¬nado. Um segundo princípio aplicável a tais casos é que, se a linguagem considerada literalmente contiver algo incongruente ou moralmente im¬próprio, o sentido figurado, e não o literal, deve ser o correto. Uma tercei¬ra direção pode ser acrescentada: quando ainda temos razão para duvi¬dar se a linguagem é literal ou figurada, devemos procurar solucionar a dúvida consultando passagens paralelas (se houver) que tratem do mes¬mo assunto em termos mais explícitos ou mais extensos.(Ibid)

Para solucionar esse problema, Cellerier escreve:

Essa investigação não pode ser alcançada com sucesso unicamente pela ciência intelectual. Sensatez e boa fé, percepção crítica e imparcialidade também são necessárias. Algumas indicações gerais são tudo o que pode ser dado em relação a isso. a) A priori. E grande a probabilidade de que a linguagem seja figurada nas passagens poéticas ou nos provérbios e tam¬bém nos discursos oratórios e populares. Em geral essa probabilidade aumenta quando se supõe justamente que o escritor tenha sido induzido pela situação, assunto ou objetivo a fazer uso de tal linguagem. Há uma probabilidade do mesmo tipo, mas muito mais forte, quando a passagem examinada é animada e parece fazer alusão a objetos de outra natureza, b) A posteriori. Há uma probabilidade ainda maior quando o sentido lite¬ral seria absurdo [...] Todas essas probabilidades, no entanto, ainda são insuficientes. E necessário examinar a passagem com muito cuidado, de modo crítico, exegético e fiel. O sentido figurado deve ser apoiado por todos esses processos antes de poder ser tomado como a verdadeira inter¬pretação. (ELLIOTT & HARSHA, op. cit., p. 144-5.)

Todo o problema de diferenciar a linguagem figurada da literal foi bem resumido por Terry, que comenta:

Raramente é necessário e, até mesmo, pouco praticável, estabelecer re¬gras específicas para saber quando a linguagem é usada de modo figura¬do ou literal. Um princípio hermenêutico antigo e muito repetido é que as palavras devem ser entendidas no seu sentido literal, a não ser que tal interpretação implique uma contradição manifesta ou um absurdo. De¬vemos observar, no entanto, que esse princípio, quando reduzido à práti¬ca, torna-se simplesmente recurso à razão de cada homem. E o que para um parece absurdo e improvável pode ser para outro muito simples e coerente [...] Deve haver referência ao caráter e ao estilo geral do livro em causa, ao plano e ao propósito do autor e ao contexto e à extensão da passagem em tela. Atenção especial deve ser dada ao uso dos escritores sagrados, como determinado pela comparação de todas as passagens pa¬ralelas. Os mesmos princípios gerais pelos quais apuramos o sentido histórico-gramatical aplicam-se também à interpretação da linguagem figu-rada, e jamais devemos esquecer que os trechos figurados da Bíblia são tão certos e verdadeiros quanto os capítulos mais comuns. Metáforas, ale¬gorias, parábolas e simbologias são formas divinamente escolhidas para expressar os oráculos de Deus, e não devemos achar que seus significa¬dos sejam tão vagos e incertos que não mereçam ser descobertos. Em ge¬ral, cremos que as partes figuradas das Escrituras não são tão difíceis de entender quanto muitos imaginam. Por meio de uma discriminação cui-dadosa e judiciosa, o intérprete deve procurar identificar o caráter e sig¬nificado de cada figura específica e explicá-la em harmonia com as leis comuns da linguagem e com os antecedentes, a extensão e o plano do autor. (TERRY, op. cit, p. 159-60)

Cooper formulou uma regra para sabermos quando interpretar li-teral ou figuradamente. Ele diz:

Quando o sentido normal das Escrituras faz sentido, não busque outro; assim, considere cada palavra em seu significado primário, normal, co¬mum e literal, a não ser que os fatos do contexto imediato, estudado à luz de passagens relacionadas e verdades estabelecidas e fundamentais, in¬diquem claramente o contrário. (David L. COOPER, The God of Israel, p. iii.)

Esse pode muito bem tornar-se o axioma do intérprete.

C. A interpretação da linguagem figurada. O segundo problema de¬corrente do uso da linguagem figurada é o método a ser usado para interpretar o figurado.
Devemos observar desde o princípio que o propósito da lingua¬gem figurada é oferecer alguma verdade literal, que pode ser transmi¬tida pelo uso de metáforas mais claramente que de qualquer outra maneira. O sentido literal é de maior importância que as palavras lite¬rais. Chafer afirma isso:

O sentido literal das palavras empregadas numa metáfora não deve ser entendido como o significado da metáfora, mas sim como o sentido pre¬tendido pelo uso do metáfora. Em todas essas ocorrências há, então, ape¬nas um significado. Em tais casos o literal não é o sentido. Em relação a isso Cellerier diz: "A revelação [...] está carregada de formas populares fortemente influenciadas por hábitos do Oriente, ou seja, de formas me¬tafóricas, poéticas e parabólicas que transmitem significado diferente do sentido literal das palavras. Mas mesmo assim não há dois significados, o literal e o metafórico. Apenas o metafórico é o significado real; o literal não existe como significado; ele somente é o veículo do anterior; não con¬tém em si nenhum resultado, nenhuma verdade. Há, portanto, apenas um significado verdadeiro [Ma. d'Hermen., p. 41]". (Rollin T. CHAFER, The science of biblical hermeneutics, p. 80-1)

Horne arrolou uma extensa lista de regras para apurar corretamente o significado implícito de qualquer metáfora:

1. O significado literal das palavras deve ser conservado, mais nos livros históricos das Escrituras que nos poéticos.
2. O significado literal das palavras deve ser desprezado, caso seja impróprio ou implique uma impossibilidade, ou quando palavras, toma¬das pelo sentido estrito, contenham algo contrário aos preceitos doutri¬nários ou morais transmitidos em outras partes das Escrituras.
3. Devemos inquirir em que sentido a coisa comparada e aquilo a que ela é comparada concordam respectivamente, e também em que sen¬tido elas têm alguma afinidade ou semelhança.
a) O significado de uma passagem figurada será conhecido se a se¬melhança entre as coisas ou os objetos comparados for tão clara que seja percebida imediatamente.
b) Já que, nas metáforas sagradas, certa proposição geralmente é a principal coisa exibida, o significado de uma metáfora será ilustrado pela análise do contexto de uma passagem na qual ela ocorre.
c) O significado de uma expressão figurada geralmente é conhecido com base em sua explicação pelo próprio escritor sagrado.
d) O significado de uma expressão figurada pode ser apurado pela consulta de passagens paralelas, nas quais a mesma coisa é expressa de forma correta e literal, ou na qual a mesma palavra ocorre, e assim o sig¬nificado pode ser prontamente extraído.
e) Analisar a história.
f) Analisar a conexão da doutrina, assim como o contexto da passa¬gem figurada.
g) Ao especificar o significado transmitido por uma metáfora, a com¬paração jamais pode ser estendida em demasia, ou a qualquer coisa que não possa ser aplicada corretamente à pessoa ou à coisa representada.
h) Na interpretação das expressões figuradas em geral, e naquelas que ocorrem particularmente nos trechos morais das Escrituras, o signifi¬cado de tais expressões deve ser regulado por aquelas que são simples e claras.
4. Por último, ao explicar a linguagem figurada das Escrituras, é pre¬ciso ter cuidado para não usar a aplicação de códigos modernos, pois os habitantes do Oriente muitas vezes associam a idéias certos atributos ex¬pressos de maneira totalmente diversa da que normalmente ocorre a nos¬sa mente. (HORNE, op. cit, i, 356-8.)
Observamos com base nessas regras que os mesmos princípios funda¬mentais aplicados a qualquer outra linguagem se aplicam também à interpretação da linguagem figurada. O uso da linguagem figurada não exige interpretação não-literal. A mesma sã exegese exigida em outros lugares se faz mister nessa área.

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