segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A INTERPRETAÇÃO DA PROFFECIA

A interpretação da profecia

I. Observações Gerais Referentes à Profecia

O problema de especial interesse para o estudioso de escatologia é a inter¬pretação das passagens proféticas das Escrituras. Antes de considerar as re¬gras específicas que governam a interpretação de profecias, seria bom traçar certas observações gerais a respeito da natureza da linguagem profética.

A. As características da profecia. Algumas características gerais que são marcas inconfundíveis das passagens proféticas das Escrituras nos são fornecidas por Oehler, que resume:

As características das profecias do Antigo Testamento são:
1) Uma vez que a revelação é dada ao profeta sob a forma de intuição, tem-se a impressão de que o futuro é imediatamente presente, completo, ou de que todos os acontecimentos estão em andamento.
2) O fato de que o assunto da profe¬cia é dado em forma intuitiva também é razão pela qual ela sempre vê a concretização desse assunto em certas ocorrências completas em si mes¬mas; i.e., uma profecia pode aparecer como uma única ocorrência, mas, na verdade, pode haver dois, três ou quatro cumprimentos.
3) Já que o assun¬to da profecia se apresenta ao leitor como uma série de fatos individuais, pode parecer às vezes que prognósticos individuais se contradizem quan¬do são, na realidade, apenas partes nas quais as idéias reveladas foram separadas, complementando-se mutuamente, e.g., imagens contrastantes do Messias em estados de sofrimento e de glória.
4) O assunto profético está na forma de intuição, o que significa ainda que, no que diz respeito à sua forma, ela está no nível do próprio observador, i.e., o profeta falou da futura glória nos termos de sua própria sociedade e experiência. (Gustav Friedrich OEHLER, Theology of the Old Testament, p. 488ss.)

Von Orelli adiciona o seguinte a essas observações básicas:

1) A profecia pode ser cumprida logo após pronunciada ou em data mui¬to posterior.
2) A profecia é condicionada eticamente, quer dizer, parte de seu cumprimento está condicionada ao comportamento dos receptores. Ela pode até ser revogada.
3) A profecia pode ser cumprida sucessiva¬mente.
4) Não podemos pedantemente exigir que a profecia seja cumprida exatamente como foi dada. Orelli quer dizer com isso que devemos separar a semente do prognóstico da casca da aparência contemporânea.
5) Muitas profecias, sobretudo as referentes a Cristo, são literalmente cum¬pridas.
6) A forma e o caráter da profecia são condicionados pela época e pela localização do escritor.
7) As profecias freqüentemente formam partes de um todo e, assim, devem ser comparadas com outras profecias.
8) O profeta vê juntos fatos que são amplamente separados no cumprimento. (C. von ORELLI, Prophecy, prophets, International standard Bible encyclopedia, iv, 2459-66, resumido por RAMM, op. cit., p.158)

B. O elemento cronológico da profecia. Devemos observar que o ele¬mento tempo desempenha papel relativamente pequeno na profecia. Angus e Green resumiram os relacionamentos assim:

No que diz respeito à linguagem da profecia, especialmente no seu signi¬ficado quanto ao futuro, deve-se observar o seguinte:
1. Os profetas freqüentemente falam de coisas que pertencem ao fu¬turo como se fossem presentes a seus olhos (Is 9.6).
2. Eles falam de coisas futuras como se fossem passadas (Is 53).
3. Quando o tempo exato de certos acontecimentos não era revela¬do, os profetas os apresentavam como contínuos. Viam o futuro mais pro¬priamente no espaço que no tempo; o todo, então, aparece em perspecti¬va reduzida; e é levada em conta a perspectiva, e não a distância real. Eles parecem, muitas vezes, falar de coisas futuras como um leigo observaria as estrelas, agrupando-as da maneira que aparecem, e não de acordo com suas verdadeiras posições. (Joseph ANGUS & Samuel G. GREEN, The Bible Handbook, p. 245)

C. A lei da dupla referência. Poucas leis são mais importantes de observar na interpretação das Escrituras proféticas do que a lei da dupla referência. Dois acontecimentos, muito distantes no que diz respeito à época de cum¬primento, podem ser unidos no escopo de uma profecia. Isso acontecia por¬que o profeta tinha uma mensagem para sua própria época e outra para o futuro. Reunindo dois acontecimentos muitos distantes dentro do escopo da profecia, ambos os propósitos podiam cumprir-se. Horne diz:

As mesmas profecias muitas vezes têm sentido duplo e referem-se a diferentes acontecimentos, um próximo, outro remoto; um secular, outro espiritual ou talvez eterno. Uma vez que os profetas tinham em mente vários acontecimentos, suas expressões podem ser parcialmente aplicá¬veis a um e parcialmente a outro, e nem sempre é fácil fazer as transições. O que não foi cumprido inicialmente deve ser aplicado ao segundo; o que já foi cumprido, muitas vezes pode ser considerado típico do que resta a ser realizado. (Thomas Hartwell HORNE, Introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, p. 390)

Era propósito de Deus dar a visão próxima e distante, para que o cumprimento de uma garantisse o cumprimento da outra. Girdlestone ressalta isso quando diz:

Ainda outra provisão foi feita para confirmar a fé do homem em pronun¬ciamentos que tratavam do futuro distante. Muitas vezes os profetas que tinham de falar de tais coisas também eram comissionados para predizer outras coisas que aconteceriam em breve; a constatação dessas previsões recentes no seu próprio tempo e geração era justificativa para que os ou¬vintes acreditassem nos outros pronunciamentos que apontavam para um tempo ainda mais distante. Uma era praticamente um "sinal" da outra e, se uma se mostrasse verdadeira, poder-se-ia confiar na outra. Desse modo, o nascimento de Isaque sob circunstâncias tão improváveis ajudaria Abraão a acreditar que em sua semente todas as famílias da terra seriam abençoadas. (R. B. GIRDLESTONE, The grammar of prophecy, p. 21)

D. Profecias condicionais. Allis citou que "... pode haver uma condi¬ção numa ordem ou promessa sem ser especificamente declarada. Exem¬plo disso é a carreira de Jonas".( Oswald T. ALLIS, Prophecy and the church, p. 32) Com base na mensagem de Jonas, muitas vezes se sabe que existem condições ocultas ligadas a cada pro¬fecia, as quais podem ser a base do não-cumprimento. Em resposta a tal afirmação, Horne declara:

As previsões que denunciam julgamentos por vir não falam, em si mes¬mas, da futuridade absoluta do acontecimento, mas apenas declaram o que deve ser esperado quanto às pessoas às quais se referem, e declaram também o que certamente se dará a não ser que Deus, na Sua misericór¬dia, intervenha entre a ameaça e o acontecimento. (HORNE, op. cit., i, p. 391.)

Girdlestone versa longamente sobre a questão das profecias condicio¬nais. Ele diz:

Dentre os pontos relacionados à natureza e ao cumprimento da profecia, poucos exigem mais atenção do que este — que algumas previsões são condicionais, enquanto outras são absolutas. Muitas declarações das Es¬crituras (e.g., Lv 26) apresentam perspectivas alternativas [...]
Todavia, a natureza condicional de uma previsão nem sempre está evidentemente declarada nas Escrituras. Nesse caso, dizemos que Jonas pregou que dentro de quarenta dias Nínive seria destruída; as pessoas arrependeram-se com a pregação, e Nínive não foi destruída; porém, se¬gundo se sabe, as pessoas não foram avisadas de que, caso se arrependes¬sem, escapariam do juízo.
Previsões desse tipo são tão numerosas, que nós concluímos a possí¬vel existência de algumas condições não-expressas, porém básicas, em todos os casos, para justificar que Deus se desviasse do cumprimento lite¬ral do pronunciamento profético. Qual seja essa condição pode ser inferi¬do de capítulos como Jeremias 18 e Ezequiel 33. Depois de Jeremias ter assistido ao oleiro em seu trabalho e aprendido a grande lição da Sobera¬nia de Deus, uma mensagem adicional foi apresentada: "No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ela fizer o que é mal perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria" [Jr 18.7-10].
Agindo com base nesse princípio, Jeremias conseqüentemen¬te fala aos príncipes, sacerdotes e profetas que o queriam ver morto: "Fa¬lou Jeremias a todos os príncipes e a todo o povo, dizendo: O Senhor me enviou a profetizar contra esta casa e contra esta cidade todas as palavras que ouvistes. Agora, pois, emendai os vossos caminhos e as vossas ações e ouvi a voz do Senhor, vosso Deus; então, se arrependerá o Senhor do mal que falou contra vós outros" [Jr 26.12,13]. Se as pessoas se arrependessem, em certo sentido o Senhor se arrependeria. E com base em quê? Com base nos atributos originais, essenciais e eternos da natureza divina, e com base nas antigas promessas e alianças que Deus havia firmado com os patriarcas em decorrência desses atributos. (GIRDLESTONE, op. cit, p. 25ss.)

Embora Girdlestone reconheça que as profecias de julgamento podem ser condicionadas pelo arrependimento e, de acordo com a maneira com que Deus lida universalmente com o pecado e com o pecador, o juízo pode ser evitado se o pecador se voltar a Deus, ele não quer dizer que possam, ser atribuídas condições a outras classes de profecias para as quais nenhuma condição tenha sido declarada. Ele se protege contra essa conclusão infundada acrescentando:

Poderíamos dizer que todas as expressões proféticas são condicionais? De modo algum. Existem algumas coisas sobre as quais "o Senhor jurou e não se arrependerá" (Sl 110.4) [...]
Essas promessas irreversíveis não dependem da bondade do homem, mas de Deus. São absolutas no seu cumprimento, mesmo tendo sido con¬dicionais quanto à hora e ao lugar de seu cumprimento [...]
Tempos e estações podem ser mudados, dias podem ser abreviados, acontecimentos podem ser acelerados ou atrasados, indivíduos e nações podem inserir-se no escopo da profecia ou ser postos de lado; mas os acontecimentos em si são ordenados e certos, selados com o juramento de Deus, todos garantidos pela Sua própria vida. (Ibid., p. 28ss)

O relacionamento entre os aspectos condicionais e incondicionais da profecia foi observado por Peters, que comenta:

As profecias relacionadas ao estabelecimento do reino de Deus são ao mesmo tempo condicionais e incondicionais.
Por esse paradoxo quero dizer simplesmente que elas são condicio¬nadas no seu cumprimento pelo agrupamento antecedente dos eleitos, e por isso suscetíveis de adiamento [...] e são incondicionais no que diz respeito ao seu cumprimento final, que a conduta ou ação de um homem não pode reverter [...] O próprio reino pertence ao Propósito Divino, é o assunto de alianças sagradas, é confirmado por juramentos solenes, será o resultado ou fim projetado no processo de redenção e, logo, não pode falhar e não falhará. Os herdeiros do reino, contudo, são condicionados —um número de pessoas conhecido apenas por Deus— e o próprio reino, apesar de predeterminado [...], é dependente [...], na sua manifestação, de que esse número seja completado... (George N. H. PETERS, The theocratic kingdom, I, p. 176)

Podemos então concluir que, embora a profecia que depende da atividade humana possa ser condicional, o que depende de Deus não pode ser condicional, a menos que as condições sejam nitidamente de¬claradas. Profecias baseadas em alianças imutáveis não podem admitir a inserção de nenhuma condição. Desse modo, não há justificativa para supor quaisquer condições para o cumprimento da profecia.

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