segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MÉTODOS DA REVELAÇÃO PROFÉTICA

Métodos de Revelação Profética

Além do pronunciamento profético direto, acontecimentos futu¬ros são revelados por meio de tipos, símbolos, parábolas, sonhos e êx¬tase profético. Como há problemas que acompanham a interpretação dessas revelações proféticas, é preciso dar atenção a cada um deles an¬tes de considerar o problema da interpretação da profecia como um todo, pois não haverá entendimento da profecia sem que se compreen¬dam os seus canais. O estudioso deve então familiarizar-se com a lin¬guagem profética — suas figuras e seus símbolos, bem como seu méto¬do de comunicação. Terry diz:

A interpretação completa das passagens proféticas das Escrituras Sagra¬das depende principalmente do domínio dos princípios e das leis da lin¬guagem figurada, e dos tipos e símbolos. Também requer algum conheci¬mento da natureza dos êxtases e dos sonhos visionários. (Milton R. TERRY, Biblical hermeneutics, p. 405)

A. Revelação profética por meio de tipos. Terry oferece uma boa defini¬ção sumariada de tipo quando diz: "Na ciência teológica significa estri¬tamente a relação representativa preordenada que certas pessoas, acon¬tecimentos e instituições do Antigo Testamento têm com pessoas, acon¬tecimentos e instituições correspondentes do Novo".( Ibid., p. 336.) Esse conceito básico é desenvolvido por Angus e por Green, que sublinham os se¬guintes pontos.
1. O que é simbolizado — o "antítipo"— é a realidade ideal ou espiritual, que corresponde ao tipo e ao mesmo tempo o transcende.
2. O tipo pode ter seu próprio lugar e significado, independentemen¬te daquilo que prefigura. Dessa forma a serpente de bronze trazia cura aos israelitas, mesmo à parte da libertação maior que ela simbolizava.
3. Segue-se, logicamente, que naquela ocasião o tipo pode não ter sido entendido em seu caráter ou implicação maior.
4. Em relação aos símbolos em geral, a essência de um tipo deve ser distinguida de seus acessórios.
5. A única autoridade segura para a aplicação de um tipo deve ser encontrada nas Escrituras. A mera percepção de uma analogia não será suficiente. Os expositores muitas vezes imaginam correspondência onde nada de fato existe e, mesmo que existisse, nada haveria para provar uma intenção divina especial [...]
Nas palavras do bispo Marsh: "Para estabelecer uma coisa como tipo da outra, no Sentido em que o termo é geralmente entendido com referência às Escrituras, é preciso algo mais que mera semelhança. O an¬terior não deve apenas assemelhar-se ao posterior, mas deve ter sido pro¬jetado para assemelhar-se ao posterior. Deve ter sido projetado na sua ins¬tituição original. Deve ter sido projetado como uma preparação para o pos¬terior. O tipo, assim como o antítipo, deve ter sido preordenado, e ambos devem ter sido preordenados como componentes de um mesmo plano da Providência Divina. Esse projeto prévio e essa conexão preordenada consti¬tuem a relação do tipo com o antítipo". (ANGUS & GREEN, op. cit, p. 225-6.)

Fritsch não somente define o tipo cuidadosamente, mas também oferece grande ajuda na distinção entre tipo e alegoria. Ele escreve:

A definição que proponho para a palavra "tipo" em seu sentido teológico é a seguinte: Tipo é uma instituição, acontecimento ou pessoa histórica, ordenada por Deus, que prefigura inequivocamente algumas verdades ligadas ao cristianismo [...]
Em primeiro lugar, ao definir o tipo como instituição, acontecimento ou pessoa histórica, estamos frisando que o tipo deve ser significativo e real em si mesmo [...]
Nesse aspecto o tipo se diferencia da alegoria [...] Pois uma alegoria é uma narração fictícia ou, para falar menos abruptamente, numa alego¬ria a verdade histórica da narrativa tratada pode ou não ser aceita, ao passo que, na tipologia, o cumprimento de um antítipo só pode ser enten¬dido à luz da realidade do tipo original.
Em segundo lugar, deve haver uma conexão divinamente inspirada entre o tipo e o antítipo. Como o bispo Westcott diz: "O tipo pressupõe um propósito na história, forjado de época em época. A alegoria depen¬de, em última análise, da imaginação... ".
Em terceiro lugar, o tipo não é apenas real e válido por si só; é eficaz em seu contexto imediato. Ele só pode prefigurar efetivamente o antítipo porque contém inerente em si mesmo pelo menos algo da eficácia que será completamente realizada no antítipo.
[...]
Em quarto lugar, a característica mais importante do tipo, como se viu acima, é o fato de que ele prediz algumas verdades ligadas ao cristia¬nismo ou ao próprio Cristo [...] Tipologia difere de profecia, no sentido estrito do termo, somente quanto aos meios de predição. A profecia pre¬diz principalmente por meio da palavra, ao passo que a tipologia prediz por meio de instituições, atos ou pessoas.
[...]
É muito importante fazer a distinção [...] entre tipo e alegoria, pois na igreja primitiva o método alegórico de interpretação embaçou o ver¬dadeiro significado do Antigo Testamento a tal ponto que era impossível existir uma tipologia legítima. De acordo com esse método o sentido lite¬ral e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e toda pala¬vra e acontecimento é transformado em um tipo de alegoria, seja para escapar às dificuldades teológicas, seja para sustentar certas visões religio¬sas estranhas... (Charles T. FRITSCH, Biblical typology, Bibliotheca Sacra, 104:214, Apr. 1947)

Sem dúvida a incapacidade ou a falta de disposição de observar essa última distinção tem levado alguns a sentir que o uso de tipos nas Es-crituras justifica o método de interpretação alegórica. Fairbairn faz essa mesma observação, que deve ser levada a sério, quando escreve:

... Quando interpretamos uma profecia à qual se atribui duplo sentido, um relacionado ao judeu, outro relacionado ao cristão, estamos em am¬bos os casos preocupados com uma interpretação de palavras. Pois as mesmas palavras que, de acordo com uma interpretação, se aplicam a um acontecimento, de acordo com outra interpretação se aplicam a outro. Mas na interpretação de uma alegoria estamos preocupados apenas, em pri¬meira instância, com a interpretação das palavras; o segundo sentido, ge¬ralmente chamado alegórico, é, na verdade, uma interpretação de coisas. A interpretação das palavras nada fornece além das próprias narrativas simples (a alegoria geralmente assume a forma de uma narrativa), ao passo que a moral da alegoria é aprendida pela aplicação das coisas que as pala¬vras significam a coisas semelhantes, intencionalmente sugeridas pelo au¬tor. Existe, portanto, diferença fundamental entre a interpretação de uma alegoria e a interpretação de uma profecia com duplo sentido. (Patrick FAIRBAIRN, The typology of Scripture, p. 131-2)

Pela própria natureza, o tipo é essencialmente profético em cará-ter. Isso foi observado por Fairbairn, que destaca:

O tipo, conforme explicado e entendido, possui necessariamente caráter profético e difere em sua forma, não na natureza, do que é geralmente designado profecia. Aquele imagina e prefigura, enquanto esta prevê rea¬lidades que estão por vir. Naqueles atos ou símbolos representativos, nes¬tas delineações verbais servem o propósito de indicar de antemão o que Deus determinou realizar a favor do seu povo no futuro. A diferença não é tal que chegue a afetar a natureza essencial dos dois elementos... (Ibid., p. 106)

Na interpretação de profecias reveladas por meio de tipos, é im-portante observar que as mesmas máximas hermenêuticas previamen¬te estabelecidas são aplicadas também aqui. Angus e Green fornecem um resumo satisfatório, quando dizem:

Na interpretação de todos esses tipos e da história nas suas alusões se¬cundárias ou espirituais, usamos as mesmas regras empregadas na inter¬pretação de parábolas e de alegorias propriamente ditas: comparar a his¬tória ou o tipo com a verdade em geral, que tanto o tipo e antítipo incor¬poram; esperar concordâncias em várias particularidades, mas não em todas; e deixar a interpretação de cada parte harmonizar com a estrutura do todo e com a revelação clara da doutrina divina dada em outras partes do volume sagrado.
Cuidados. [...] Ao aplicar essas regras, é importante lembrar que os escritores inspirados nunca destruíram o sentido histórico das Escrituras para estabelecer o espiritual; tampouco encontraram um sentido oculto nas palavras, mas apenas nos fatos de cada passagem; um sentido que é fácil, natural e bíblico; e que eles se confinaram a exposições que ilustra¬vam alguma verdade de importância prática ou espiritual. (ANGUS & GREEN, op. cit, p. 227)

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