segunda-feira, 9 de agosto de 2010

PAUL JOHANNES TILLICH (1866-1965)

PAUL JOHANNES TILLICH (1866-1965)

Paul Johannes Oskar Tillich nasceu em 20 de agosto de 1886, em
Starzeddel, Alemanha. Foi um teólogo alemão-estado-unidense. Tillich foi
comtemporâneo de Karl Barth, e um dos mais influentes teólogos
protestantes do século XX.

Estudou sucessivamente a filosofia e a teologia em Berlin, Tübingen e Halle, sendo contemporâneo de Karl Barth
e Rudolf Bultmann. Suas teses foram dedicadas à filosofia religiosa de
Schelling.

Ordenado em 1912, foi pastor da Igreja luterana evangélica de Brandeburgo; participou da Primeira Guerra Mundial como
capelão de guerra. Até 1933, lecionou em Berlin, Marburg, Dresden,
Leipzig e Frankfurt. Em 1929 sucedeu Max Scheler na cátedra de filosofia
e psicologia de Frankfurt.

Desempenhou um papel importante na fundação da Escola de Frankfurt, tendo orientado a tese de doutorado de
Theodor Adorno. Foi fundador, com um grupo de amigos, do movimento
intelectual do "socialismo religioso".

Tendo perdido sua cátedra por causa de suas posições anti-nazistas, Tillich emigrou para os
Estados Unidos em 1933, a convite dos amigos Reinhold e Richard Niebuhr.
De 1933 a 1955, foi professor de Teologia Filosófica no Union
Theological Seminary e na Columbia University (New York).

Nacionalizou-se americano e lecionou nas universidades de Harvard e de Chicago. Nesta
última cidade, coordenou importantes seminários de estudos da religião
com Mircea Eliade. Depois da Segunda Guerra, fez freqüentes viagens a
Europa para cursos e conferências. Recebeu o prêmio da paz dos editores
alemães em 1962.
Harvard e Chicago ocuparam os últimos anos de sua docência como teólogo protestante.

Paul Tillich foi casado com Hanna Tillich e tiveram dois filhos.

Paul Tillich faleceu em Chicago, em 22 de outubro de 1965.

As pesquisas de Paul Tillich contribuíram também para o existencialismo cristão. Tillich é tido, ao
lado de Karl Barth, como um dos mais influentes teólogos protestantes do
século XX.

Tillich deixou uma densa obra e numerosos discípulos, que seguiram e aplicaram sua doutrina. Seu pensamento aparece como uma
ponte entre o sagrado e o profano. Não confunde as duas esferas, mas
tende a explicitar o sentido religioso, implícito nas profundezas do
ser, de todo ser. A tentativa apóia-se nestes conceitos-base: o limite, a
ruptura, a correlação e o abismo. É um pensamento no limite, porque é
onde se definem as coisas. O ser no limite significa não um ser
estático, mas uma posição de ruptura entre o ser e o não-ser. A ruptura
segue a correlação, categoria básica de Tillich, resposta aos problemas
do homem e da história. E finalmente o abismo, que permite a Tillich
superar a oposição da moderna teologia protestante entre o Deus da razão
e o Deus da fé. No abismo de todo ser reúnem-se e harmonizam-se
unitariamente o ser em si e o Uno-Trino da Bíblia. Paul Tillich defendeu
o exame da religião pela razão, assim como valorizou o auxílio do
conhecimento secular para a compreensão do cristianismo, embora
afirmasse que o critério supremo da revelação residia em Jesus.

Sobre essa base filosófica de fundo hegeliano, Tillich constrói sua teologia,
que pode ser resumida nestes pontos:

— Insistência em que a Bíblia não é a única fonte da teologia. Esta deve ser predominantemente
apologética e querigmática, isto é, deve interessar-se pelas diferentes
formas de cultura e ser uma tarefa essencialmente racional para chegar à
compreensão do especificamente cristão. Em sua Teologia sistemática (3
vols., 1951-1957), Deus é apresentado como “aquele que nos concerne, em
última instância” ou “a essência de nosso ser”. Deus não é um ser, mas o
próprio ser. A linguagem da teologia e da religião é essencialmente
simbólica. A única exceção é Deus que, como vimos, define como o mesmo
ser. “O homem desta infinita e incansável profundidade de todo ser é
Deus.” “Talvez se esqueça tudo o que se aprendeu sobre Deus, inclusive a
própria palavra, para desta maneira saber que conhecendo que Deus é o
profundo, conhecemos muito sobre ele. Neste sentido, ninguém pode
chamar-se ateu ou nãocrente. Somente é ateu quem seriamente afirma que a
vida é superficial.”

— Com relação ao fato cristão, afirma que Cristo, “enquanto símbolo da participação de Deus nas situações
humanas”, é a resposta necessária para a situação existencial do homem
pecador. Com ele mudou-se a existência, pois revelou-nos um Deus
libertador. Para Tillich, o Novo Testamento somente se refere à história
de Jesus para elevá-lo a valor simbólico universal, cujos momentos
decisivos são a cruz, símbolo do encadeamento do homem ao finito e
negativo da existência, e a ressurreição, símbolo da vitória.

— Fiel a seu método da “correlação”, Tillich insinua e demonstra, em
termos arduamente exeqüíveis, que não existe contradição entre o natural
e o sobrenatural e que, portanto, o Deus da razão e o Deus da fé e a
revelação são dois aspectos de uma mesma realidade. Corrige assim o
sobrenaturalismo de Barth, demasiado preocupado em identificar a
mensagem imutável do Evangelho com a Bíblia ou com a ortodoxia
tradicional. Sua teologia apologética destina-se a responder aos
problemas da situação de hoje. “Deve-se lançar a mensagem como se lança
uma pedra sobre a situação de hoje.” Pelo princípio da correlação os
elementos relacionados só podem existir juntos. É impossível que um
aniquile a existência do outro. Com o princípio da correlação a reflexão
teológica desenvolve-se entre dois pólos: a verdade da mensagem cristã e
a interpretação dessa verdade, que deve levar em conta a situação em
que se encontra o destinatário da mensagem. E a situação não diz apenas
respeito ao estado psicológico ou sociológico do destinatário, mas "as
formas científicas e artísticas, econômicas, políticas e éticas, nas
quais [os indivíduos e grupos] exprimem as suas interpretações da
existência". A situação é o que se deve levar a sério.

— Com fundamento nas idéias de Schelling e no existencialismo de Kierkegaard,
Tillich elaborou uma teologia que engloba todos os aspectos da realidade
humana em função da situação histórica do homem. Seu método teológico
baseou-se no chamado princípio da correlação, descrito em Systematic
Theology (1951-1963; Teologia sistemática). Esse princípio transforma a
teologia num diálogo que relaciona as perguntas feitas pela razão às
respostas obtidas mediante a fé, como experiência reveladora.

— Para Tillich, a teonomia - lei interior dada por Deus, em harmonia com a
natureza essencial do homem - dá força e liberdade ao homem para
reconstruir a sociedade de forma criativa. A teonomia contrapõe-se à
heteronomia, lei imposta ao homem de fora para dentro, e à autonomia,
que o deixa frustrado e sem motivação para a vida.

— A vida é definida por Paul Tillich como sendo a atualização do ser potencial. Em
todo processo vital ocorre essa atualização. Os termos "ato", "ação",
"atual" denotam um movimento com centralidade dirigida para diante, um
sair do centro de ação. Mas esse sair-de-si ocorre de tal forma que,
para Tillich, "o centro não se perde nesse movimento centrífugo.
Permanece a auto-identidade na auto-alteração." O outro, no processo de
alteração se dirige tanto para fora do centro como para dentro dele
novamente. Dessa forma distingue três elementos no processo da vida:
auto-identidade, auto-alteração, e volta para si mesmo. "Potencialidade
se torna atualidade somente através desses três elementos no processo
que chamamos vida".

A influência de Tillich cresceu ainda mais depois de sua morte. Seu pensamento com relação ao conceito de Deus foi
seguido e popularizado por John Robinson, autor de Honest to God (1963).
Mais recentemente, Don Guppitt iniciou um duro ataque à doutrina
tradicional cristã sobre Deus em sua obra Tomando o lugar de Deus
(1980), na qual advoga por um conceito cristão-budista de Deus similar
ao de Tillich.

Entre suas obras, cabe destacar Se comovem os fudamentos da Terra (1948), Teologia sistemática (1951, 1957 e 1963),
Coragem de ser (1952) e O eterno agora (1963). Grande renovador da
teologia, seu tema principal é a reconciliação entre ciência e fé e
entre cultura e religião.

PENSAMENTOS DE PAUL TILLICH

"A cura pela fé no sentido não pervertido da palavra é a recepção da
salvação/saúde no ato da fé, isto é: na entrega a algo que nos diz
respeito incondicionalmente, ao sagrado que não pode ser forçado a se
colocar a nosso serviço. De tal entrega deriva a cura no centro da
personalidade, integração das forças contraditórias que se subtraem ao
centro e querem então se apossar dele".

"A integração do si mesmo pessoal só é possível mediante a sua elevação até aquilo que chamamos
simbolicamente de si mesmo (ou personalidade) divino. E isso só é
possível graças à irrupção do Espírito divino no espírito humano, isto
é, pela presença do Espírito divino".

"Chegamos assim à conclusão que cura e salvação se pertencem mutuamente de modo indissociável, que
os múltiplos aspectos do curar/salvar devem ser claramente
diferenciados, que eles são produzidos por uma força suprema de cura e
que seus portadores devem lutar juntos a favor da humanidade. Nenhuma
separação, nenhuma confusão mas um objetivo comum de todo "curar": o ser
humano salvo, em totalidade".

"Uma religião que não possui um poder de curar e salvar é desprovida de sentido".

"A razão não resiste à revelação. Ela pergunta pela revelação. Pois revelação
significa a reintegração da razão".

"É a finitude do ser que conduz à questão de Deus".

"... o termo 'Novo Ser', quando aplicado a Jesus como o Cristo, indica o poder que nele vence a
alienação existencial ou, expresso em forma negativa, o poder de
resistir às forças da alienação. Experimentar o Novo Ser em Jesus como o
Cristo significa experimentar o poder que nele venceu a alienação
existencial em si mesmo e em todos aqueles que têm parte com ele".

"A teologia sistemática necessita de uma teologia bíblica que seja
histórico-crítica sem quaisquer restrições, mas que seja, ao mesmo
tempo, interpretativo-existencial, levando em conta o fato de que ela
trata de assuntos de preocupação última"

"Nossa preocupação última é aquilo que determina o nosso ser ou não-ser. Só são teológicas
aquelas afirmações que tratam de seu objeto na medida em que possa se
tornar para nós uma questão de ser ou não-ser"

"O homem está dividido dentro de si. A vida volta-se contra si própria através da
agressão, do ódio e do desespero. Estamos habituados a condenar o
amor-próprio; mas aquilo que pretendemos realmente condenar é o oposto
do amor-próprio. É aquela mistura de egoísmo e aversão por nós próprios
que permanentemente nos persegue, que nos impede de amar os outros e que
nos proíbe de nos perdermos no amor com que somos eternamente amados.
Aquele que é capaz de se amar a si próprio é capaz de amar os outros;
aquele que aprendeu a superar o desprezo por si próprio superou o seu
desprezo pelos outros".

"Na nossa tendência para maltratar e destruir os outros existe uma tendência, visível ou oculta, para nos
maltratarmos e nos destruirmos. A crueldade para com os outros é sempre
também crueldade para com nós próprios. Deste modo, o estado de toda a
nossa vida é o distanciamento dos outros e de nós próprios, porque
estamos distanciados da Razão do nosso ser, porque estamos distanciados
da origem e do objectivo da nossa vida".

"A teologia levanta necessariamente a questão da realidade como um todo, a questão da
estrutura do ser. A teologia suscita necessariamente a mesma pergunta,
pois aquilo que nos preocupa de forma última deve pertencer à realidade
como um todo; deve pertencer ao ser".

"O objetivo da teologia é aquilo que nos preocupa de forma última. Só são teo-lógicas aquelas
afirmações que tratam do seu objeto na medida em que ele pode se tornar
questão de preocupação última para nós"

"“Um sistema teológico deve satisfazer duas necessidades básicas: a afirmação da verdade da
mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração”.

"Se a “Palavra de Deus” ou o “ato de revelação” é considerado a fonte da
teologia sistemática, devemos enfatizar que a “Palavra de Deus” não está
limitada às palavras de um livro e que o ato de revelação não se
identifica com a “inspiração” de um “livro de revelações”, mesmo que
esse livro seja o documento da “Palavra de Deus” final, plenitude a
critério de todas as revelações".

"O sentido ontológico da experiência é uma conseqüência do positivismo filosófico. O que é dado
positivamente é, segundo esta teoria, a única realidade da qual se pode
falar de modo significativo. E positivamente dado significa dado na
experiência. A realidade é idêntica à experiência"

“A Bíblia como um todo nunca foi a norma da teologia sistemática. A norma tem sido um
princípio derivado da Bíblia num encontro entre ela e a igreja”.

“Já que a norma da teologia sistemática é o resultado de um encontro da
igreja com a mensagem bíblica, podemos considerá-la produto da
experiência coletiva da igreja”

"A Bíblia é a Palavra de Deus em dois sentidos: É o documento de revelação final e participante na
revelação final da qual é documento. Provavelmente nada contribuiu mais
para a interpretação errônea da doutrina bíblica da Palavra do que a
identificação da Palavra com a Bíblia"

“O Cristo não é o Cristo sem a Igreja, e a Igreja não é Igreja sem o Cristo. A revelação final,
como toda revelação, é correlativa”.

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