domingo, 15 de agosto de 2010

PRESENÇA DOS REFORMADORES FRANCESES NO BRASIL II

OS FRANCESES NO RIO DE JANEIRO

Preparativos e Vinda

O Almirante Villegaignon. A expedição começou na mente de Nicolas Durand de
Villegaignon sobrinho do grão-mestre da Ordem de São João de Jerusalém (conhecida também como Ordem de Malta, e chamada de “escorpiões do mediterrâneo” pelos otomanos), Villiers de I’Isle-Adam.23 Este homem contraditório foi fruto de sua época. Aos 21 anos entrou na Ordem de São João de Jerusalém, que recentemente tinha sido expulsa de Rodes por Solimão II, indo fixar-se em Malta, em 1530. Passado o tempo de aprendizagem, em 1541 tomou parte numa expedição contra o sultão de
Argel, e deste combate deixou um relato escrito em latim. No ano seguinte, foi destacado para a Hungria, indo combater os turcos. Em 1548, sendo já famoso nos círculos militares, foi encarregado

18 Pierre Courthial, op. cit., 91.
19 Ibid, 93.
20 Ibid, 89.
21 Earle E. Cairns, O Cristianismo através do s séculos (20 ed. São Paulo: Vida Nova, 1988), 257.
19 Ph ilip Hughes, op. cit., 47-48.
23 Pedro Calmon, op. cit., 269.

de transportar da Escócia para a França a jovem Maria Stuart, noiva de Francisco II, burlando a vigilância dos navios ingleses. Em 1551 voltou a combater os turcos, desta vez na Ilha de Malta. Neste mesmo ano, como recompensa por seus serviços, foi destacado por Henrique II para ser Vice-Almirante da Bretanha, tendo sob sua supervisão o porto de Brest, com plena liberdade de cumprir com seus compromissos com a Ordem. Logo depois esteve em luta em Trípoli, mas ao chegar a esta praça-forte o combate já estava encerrado, pois o comandante dela, Francisco Vallier, já havia se
rendido.24 Todos estes feitos, inclusive o protesto contra o grão-mestre de sua Ordem, que queria colocar a culpa da derrota de Trípoli em Vallier, granjearam grande reputação a Villegaignon na França, para onde se retirou desgostoso, após esta derrota. Em 1552 foi destacado para supervisionar as obras de defesa do porto de Brest. Mas Villeigaignon entrando em choque com o capitão da cidadela de Brest,
e, sem o apoio do rei, “começou a aborrecer-se em França, acusando-a de enorme
ingratidão, visto que ao serviço dela consumira toda a sua juventude na carreira militar”.25
Mas na cidade de Brest residia um conhecido seu, que numa conversa informal, contou a
Villegaignon sobre suas viagens, em especial ao recém-descoberto Brasil. Isto foi o suficiente para mexer com a mente do aventureiro. E é justamente nas motivações que trouxeram esta expedição para cá que começam os mistérios. Pois sendo cavaleiro de São João, católico romano, ele buscou apoio no Almirante Gaspard de Coligny,reformado. Apenas este homem poderia financiar tal viagem. Nisto
surge a idéia de fundar nas colônias além-mar um lugar onde os cristãos reformados pudessem servir e cultuar a Deus em liberdade. Isto era elogiável, numa época em que os protestantes franceses estavam sendo trucidados. O mais provável é que Villegaignon, sentindo necessidade absoluta de consentimento e do apoio de Coligny, adotou a tática mais segura, conquanto não fosse a mais honrosa: lisonjeou o amor próprio do almirante, fingindo-se inclinado a converter-se “e fazendo-lhe
entrever a pronta realização de um dos projetos favoritos do chefe dos huguenotes, e acariciando-o com a esperança de criar para o outro lado do Atlântico, um asilo para os seus correligionários perseguidos na Europa”.26
Arranjos para a Viagem. Villegaignon, segundo Jean de Léry, o historiador reformado da expedição, manifestou a vários líderes franceses o desejo não só de “retirar-se para um país longínquo onde pudesse livremente servir a Deus, de acordo com o evangelho reformado, mas ainda preparar um refúgio para todos os que desejassem fugir às perseguições”.27 Que de fato já eram terríveis nesta época. Assim ele ganhou o apoio dos mais destacados nobres reformados em França, inclusive do próprio Almirante Coligny, que intercedeu por Villegaignon junto ao rei Henrique II, mostrando a este que o reino lucraria bastante com tal expedição. “Em vista disto mandou o soberano que lhe dessem dois bons navios aparelhados e providos de artilharia, além de dez mil francos para as despesas da viagem”.28
Ele também levaria, de Brest, mais artilharia, pólvora, balas, armas, madeiras e outros acessórios para a construção e defesa de um forte. Mas ele precisava de pessoas para fundar esta colônia ultramarina. Ele “fez publicar por toda parte que precisava de pessoas tementes a Deus, pacíficas e boas, pois bem sabia que lhe seriam mais úteis do que quaisquer outras, em virtude da esperança que tinham de formar uma congregação cujos membros fossem votados ao serviço divino”.29 O estado-maior de Villegaignon era formado por católicos e reformados - Jean Cointac, que
mais tarde desempenhou papel crucial na controvérsia com os protestantes, senhor de Boules e Doutor da Sorbonne; La Chapelle, de Boissi, Thoret (que veio a ser o comandante do futuro Forte Coligny) e Nicolas Barré (navegador da expedição), estes últimos protestantes. Outro era o cosmógrafo franciscano André Thevet, que só ficou três meses no Rio de Janeiro. Só que faltava gente.
Villegaignon então pediu permissão ao rei de recrutar mais colonos, só que desta vez nas prisões de Rouen, Paris e outras cidades. Esta verdadeira malta humana reunida criaria problemas para o Almirante. Chegou-se ao número de 600 colonos. Por uma singular imprevidência, que denunciava uma profunda ignorância em matéria colonial, tanto da parte de Villegaignon como de seus protetores, “esquecera-se o princípio essencial de toda sociedade em formação: ninguém tinha cogitado da

24 Rocha Pombo, op. cit., 206-207. Ver também P. Calmon, op. cit., 269.
25 Jean Crespin, A Tragédia da Guanabara ou: a história dos protomártires do cristian ismo no Brasil (Rio de
Janeiro: Typo-Lith, Pimenta de Mello & C., 1917), 15.
26 Rocha Pombo, op. cit., 207.
27 Jean de Léry, Viagem à Terra do Brasil (São Paulo: Livraria Martins, 1924), 45-46.
28 Ibid, 46.
29 Rocha Pombo, op. cit., 209.


família. Toda a expedição compunha-se com efeito só de homens e compreende-se que era impossível fazer, em tais condições, uma obra permanente”.30
Ainda fugindo de qualquer profissão de fé muito nítida, em 12 de julho de 1555 saiu do porto de Havre, com os dois navios e um transporte. Logo que se viu em alto mar, uma tempestade jogou-os contra as costas da Inglaterra, e depois acabaram aportando em Dieppe. “A maior parte dos que tinham cedido a eloqüência do almirante aproveitaram-se daquele pretexto para abandoná-lo, ficando-lhe apenas uns oitenta homens, exatamente os piores, porque eram, além de uns poucos mercenários, os
relapsos que tinham sido arrolados na prisão”.31 Reparado os navios, partiu-se definitivamente em 14
de agosto de 1555. Após vários contratempos como “estacionamento, falta d’água potável, pestilências, calor excessivo, ventos contrários, tempestades, intempérios da zona tórrida e outras coisas que seria fastioso enumerar”,32 tendo inclusive sido bombardeados pelos espanhóis em Tenerife, eles chegaram ao Rio de Janeiro no dia 10 de novembro de 1555, ao som de tiros de canhão, sob o grito de alegria dos marinheiros depois de tão turbulenta viagem.

Assentamento e Vinda dos Pastores de Genebra

Estabelecimento e primeiras tensões.

Antes de desembarcar todas as pessoas, Villegaignon cuidou de explorar todas as paragens, penetrando na imensa Baía da Guanabara, fazendo reconhecimento de todos os pontos do litoral, inclusive as ilhas menores e maiores. Enquanto ele explorava a Baía, fez fortificar a Ilha dos Ratos (hoje chamada de Ilha Fiscal), a que chamou de Ratier, onde construiu alguns abrigos de madeira e assentou alguns canhões. Esta fortificação barrava toda a entrada na Baía, mas a ressaca deslocou as peças de artilharia, colocando em risco a guarnição.
Enquanto isto, “acabou por acomodar-se numa ilha deserta, onde, depois de desembarcar sua artilharia e demais bagagens, iniciou a construção de um forte a fim de garantir-se tanto contra os selvagens como contra os portugueses”, na Ilha de Serigipe (hoje chamada de Ilha de Villegaignon). Esta ilha oferecia vantagens incontestáveis para fazer-se o centro de resistência da posição, dominava a entrada da Baía e era de acesso difícil por estar cercada de recifes à flor da água. O que não se compreende é o fato de Villegaignon querer fundar uma colônia numa ilha. Para piorar a situação, o Almirante, confiando nas provisões da terra, não trouxe alimentos e víveres suficientes. Isto contribuiu para aborrecer em muito os colonos, pois sua alimentação consistia de frutos e raízes em lugar de pão e de água em vez de vinho, que era racionada.
Logo que os franceses desembarcaram, Villegaignon os pôs para trabalhar na fortificação da ilha. As comunicações com o continente foram proibidas, e num regime de semi-escravidão, muraram em alguns meses todo o contorno da ilha. Nas palavras de Jean de Lery:

Nas extremidades desta ilha existem dois morros nos quais Villegaignon mandou
construir duas casinhas, edificando a sua, em que residiu, no centro da ilha em uma
pedra de cinqüenta a sessenta pés de altura. De ambos os lados desse rochedo,
aplainamos e preparamos pequenos espaços onde se construíram não só a sala, onde
nos reuníamos para a prédica e a refeição, mas ainda vários outros abrigos em que se
acomodavam cerca de oitenta pessoas, inclusive a comitiva de Villegaignon.
Entretanto, a não ser a casa situada no rochedo, construída com madeiramento, e
alguns baluartes para a artilharia, revestidos de alvenaria, o resto não passava de
casebres de pau tosco e palha construídos à moda dos selvagens, que de fato os
fizeram. Eis em poucas palavras em que consistia o forte que Villegaignon denominou
Coligny, pensando ser agradável ao Senhor Gaspar de Coligny, almirante de França,
sem o apoio do qual, como já disse no início, jamais tivera meios de fazer a viagem
nem construir nenhum forte no Brasil.33

Mas um dos grandes inconvenientes da ilha era não ter água potável. Para remediá-lo quando possível, abriu-se uma grande cisterna, que podia conter e guardar água por seis meses. Mas, mesmo buscando o isolamento, era inevitável não ter contato com os índios, no continente, pois era para lá

30 Ibid, 209.
31 Jean Crespin, op. cit., 19.
32 Jean de Léry, op. cit.,47.
33 Jean de Léry, op. cit.,95.



Estes índios eram os Tupinambás (os Tamoios das crônicas portuguesas), que arrumaram para com os franceses, carne, peixe, farinha e frutos da terra, além de água potável. Eles ajudaram inclusive nos trabalhos de fortificação da ilha, trazendo materiais do continente. Mas Villegaignon quis tratá-los com o mesmo rigor que tratava os franceses, ainda mais que sobre estes caiu o rigor do trabalho, enquanto os franceses iam caindo no ócio. Em 4 de fevereiro de 1556 os navios que trouxeram a
expedição, até então aportados na Baía, retornaram para a França.
Para piorar a situação, os franceses quiseram se rebelar. Na carta que Villegaignon escreveu a Calvino para pedir o envio de pastores, ele diz que a revolta teve origem no fato de haver ele proibido que mulheres indígenas entrassem no Forte desacompanhadas de seus maridos. Inclusive alguns dos mercenários já estavam vivendo com algumas delas.34 Nisto, ajuntaram-se 26 mercenários, começando a conspiração. O líder do complô combinou com os outros em matar o almirante. Eles tentaram aliciar
cinco guardas escoceses, que protegiam Villegaignon. Estes fingiram fazer parte do grupo que conspirava, inteirando-se da situação toda, e delataram tudo para o chefe. A vingança não se fez esperar. Villegaignon e os que estavam do seu lado, assim prevenidos, armaram-se e prenderam quatro dos principais conspiradores, aos quais “infligiram severíssima punição, para temor dos demais e para conservar sobre controle em seus deveres, sendo que dois deles foram postos em prisões com cadeias e
ferros e obrigados a trabalhos públicos durante certo tempo”.35
O líder da conjuração foi morto. Isto semeou o terror entre os franceses da colônia e entre os índios Tamoios. Os índios fugiram do litoral, e até uma epidemia foi passada aos índios. Alguns franceses atemorizados, que fugiram para o continente, e fundaram a aldeia de La Brigueterie, que serviu de abrigo para os corsários franceses, que desde Cabo Frio visitavam a costa.
Pedido do envio de mais huguenotes. Villegaignon, neste ambiente de desagregação, tentou conseguir reforço militar junto ao rei Henrique II, mas o governo francês “não quis entender direito o problema ou então hesitou em arriscar-se abertamente a semelhante aventura”.36 Neste contexto, o Almirante solicitou ajuda de Genebra. Era o único meio de salvar a colônia: usar a necessidade de segurança da Igreja Reformada Francesa. E ele precisava de reforços de qualidade melhor. A carta foi enviada nos navios que haviam voltado para a Europa.

Sua carta não foi preservada em nenhuma das correspondências de Calvino ou nos
arquivos do Cantão. Jean de Lery (...) dá o seu conteúdo. A carta pedia à Igreja de
Genebra que enviassem imediatamente para Villegaignon ministros da Palavra de
Deus e com eles muitas pessoas “bem instruídas na religião cristã” afim de reformá-lo
e a seu povo e “levar os selvagens ao conhecimento da sua salvação”. Visto que a
questão de missões já estava clara perante a Igreja de Genebra, “depois de receber
estas cartas e ouvir as notícias” (...) a Igreja de Genebra em uma só voz deu graças a Deus pela extensão do Reino de Jesus Cristo em um país tão distante, igualmente tão
diferente e entre uma nação inteira sem o conhecimento do Deus verdadeiro.37

Calvino estava em Frankfurt, Alemanha, neste momento, mas era, informado de todas as
coisas importantes que aconteciam em Genebra, sempre dando orientações. Não há dúvidas de que ele foi consultado a respeito da missão, porque os líderes levavam cartas dele para Villegaignon. Nicholas des Gallars, homem de confiança de Calvino, e depois, em 1557, pastor da congregação reformada da rua Saint-Jacques, em Paris, escreveu uma carta datada de 16 de setembro, informando a Calvino de que o grupo havia partido de Genebra “cheios de ardor”, no dia 8 daquele mês. A Igreja de Genebra
escolheu dois ministros para esta missão: Pierre Richier e Guilhaume Chartier, aquele com 50 e este com 30 anos.38
Com eles foram 11 recrutas para o trabalho, sendo quatro carpinteiros, um que

34 Jean Crespin, op. cit., 21.
35 Ibid. 23.
36 Rocha Pombo, op. cit., 213.
37 R. Pierce Beaver, op. cit., 6l.
38 Jean Crespin, op. cit., 25-26. Ver também Philip Hughes (ed. and transl.), The register of the company of pastors of Geneva in the time of Calvin, 317. É mencionado o envio dos ministros ao Brasil na data de 25 de agosto de 1556. Pierre Richier era doutor em Teologia e ex-frade carmelita. Convertera-se ao protestantismo e,
após haver feito seus estudos em Genebra, dirigiu-se ao Brasil em 1556, de onde voltou no ano seguinte, sendo

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