domingo, 15 de agosto de 2010

PRESENÇA DOS REFORMADORES FRANCESES NO BRASIL III

trabalhava com couro, um ferreiro e um alfaiate. Seus nomes: Pierre Bourdon, Matthieu Verneuil, Jean
de Bourdel, André La Fon, Nicolas Denis, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques
Rousseau, Jean Gardien (que provavelmente fez as ilustrações do livro de Lery) e “eu, Jean de Lery,
que me juntei a companhia, assim pelo forte desejo que Deus me dera de contribuir para a sua glória,
como pela curiosidade de ver esse novo mundo”.39 Lery era, provavelmente, um sapateiro, tendo
aprendido esta profissão bem jovem, pois aos dezoito anos estava em Genebra, estudando Teologia.
Por época de sua viagem ao Brasil tinha 23 anos.
O Almirante Coligny também recebera uma carta com pedido de reforço, e então solicitou por
carta que seu amigo Phillipe de Corguilleray, Senhor Du Pont, empreendesse esta viagem ao Brasil,
liderando o grupo huguenote. O Senhor Du Pont morava em Bossy, perto de Genebra, e, mesmo em
idade avançada, concordou em liderar a expedição. “Nem mesmo os seus negócios pessoais e o amor
que consagrava a seus filhos o demoveram de aceitar o encargo que o Senhor lhe impunha”.40
Os huguenotes chegam ao Rio de Janeiro. Eles partiram de Genebra no dia 8 de setembro de
1556, tiveram um encontro com o Almirante Coligny em Chatillon-Sur-Loing, que os estimulou a
prosseguir na empresa. Depois de uma curta estadia em Paris, passaram a Rouen e depois a Honfleur,
perto da Normandia, onde se reuniram a um grande grupo de huguenotes, recrutados através dos
esforços do Almirante Coligny. Este grupo chegava a 300 pessoas. O comandante da expedição era o
senhor de Bois Le Conte, sobrinho de Villegaignon, que mandou aparelhar para a guerra, às custas do
rei, três excelentes navios, com víveres e outras coisas necessárias à viagem, embarcando a 19 de
novembro. Le Conte, que foi eleito vice-almirante, ia a bordo do “Petite Roberge” com cerca de 80
pessoas entre soldados e marujos. Os outros navios eram o “Grande Roberge”, no qual iam 120
pessoas. No terceiro barco, que se chamava “Roseé”, iam quase noventa pessoas, inclusive seis
meninos, que foram levados para que aprendessem a língua dos nativos, e cinco moças com uma
governanta.41
Estas foram as primeiras mulheres francesas enviadas ao Brasil. Depois de muitas aventuras
(mesmo contra a opinião dos huguenotes, foram abordados e pilhados dois navios mercantes ingleses,
um navio irlandês, uma caravela portuguesa e uma espanhola, sendo que esta última foi rebocada para
o Brasil), em 10 de março de 1557 a expedição chegou ao Rio de Janeiro, onde foram recebidos com
grande júbilo por Villegaignon. Lery, sempre testemunha ocular, nos conta que todos se juntaram na
praia, a render graças a Deus, por tê-los protegido durante a viagem. Depois veio Villegaignon, que os
recebeu todo risonho, abraçando a todos. Os pastores apresentaram suas credenciais e as cartas de João
Calvino, e Villegaignon disse: “Quanto a mim, desde muito e de todo o coração desejei tal coisa e
recebo-vos de muito bom grado mesmo porquê aspiro a que nossa igreja seja a mais bem reformada de
todas. Quero que os vícios sejam reprimidos, o luxo do vestuário condenado e que se remova do nosso
meio tudo quanto possa prejudicar o serviço de Deus”. Erguendo depois os olhos ao céu e juntando as
mãos disse: “Senhor Deus, rendo-te graças por teres enviado o que a tanto tempo venho ardentemente
pedindo”. E voltando-se novamente para os companheiros continuou:

Meus filhos (pois quero ser vosso pai), assim como Jesus Cristo nada teve deste
mundo para si e tudo fez por nós, assim eu (esperando que Deus me conserve a vida
até nos fortificarmos neste país e poderdes dispensar-me) tudo pretendo fazer aqui
para todos aqueles que vierem com o mesmo fim que viestes. É minha intenção criar
aqui um refúgio para os fiéis perseguidos na França, na Espanha ou em qualquer outro
país além-mar, afim de que sem temer o rei nem o imperador nem quaisquer
potentados, possam servir a Deus com pureza, conforme a sua vontade.42

Estas foram as primeiras palavras proferidas por Villegaignon por ocasião da chegada da
expedição, em 10 de março de 1557. Então deu ordens de reunir todas as pessoas que estavam no
forte, e Pierre Richier celebrou o primeiro culto protestante nas Américas. Uma semana depois, a Ceia

enviado a La Rochelle, onde organizou uma igreja, e morreu em 1580. Guilhaume Chartier, natural de Vitré, na
Bretanha, estudou em Genebra e aceitou com ardor o comissionamento para a América. Depois desta expedição,
pouco se sabe dele, somente que foi Capelão de Jeane d’Albret.
39 Jean de Lery, op. cit., 48-49.
40 Jean Crespin, op. cit., 25.
41 Jean de Lery, op. cit., 50.
42 Jean de Lery, op. cit., 77.


também foi celebrada segundo o rito reformado, em 21 de março. O próprio Villegaignon foi o primeiro a tomá-la, depois de confessar sua fé reformada perante toda a congregação.43

Explode o conflito entre Villegaignon e os pastores genebrinos.

Os huguenotes logo começaram a trabalhar nas obras de fortificação na ilha, e Richier os estimulava chamando
Villegaignon de um novo “Paulo”. Este para demonstrar sua boa vontade criou o Conselho dos
Notáveis, igual ao de Genebra, no qual ele se limitava a presidir. Mas a calma aparente foi rompida no
Pentecostes de 1557. Na celebração da ceia anterior, Jean Cointac começou a levantar dúvidas se era
lícito ou não deitar água no vinho na cerimônia de consagração. Este homem, ao que se diz, veio ao
Brasil com a promessa de ser ordenado Bispo da Igreja, feita pelo próprio Villegaignon, mas tendo
sido reprovado pelos pastores genebrinos, começou a fomentar a discórdia. Citando São Cipriano, São
Clemente e os Santos Concílios, foi refutado por Pierre Richier, que para isso usava apenas as
Escrituras, que contradiziam estas opiniões. Isto então gerou violentos debates sobre a natureza da
presença de Cristo na Eucaristia. Pouco mais tarde, baseando-se outra vez na tradição, Villegaignon
procurou refutar publicamente Richier, durante a celebração de um casamento. Para evitar que fosse
prolongado ainda mais o debate, ficou decidido que Guilhaume Chartier iria a Genebra aconselhar-se
com Calvino, tendo saído da Guanabara em 4 de junho de 1557 em um dos navios que, carregado de
pau-brasil e outras mercadorias partiu daqui. A carta de Villegaignon a Calvino, de que era portador
nunca foi encontrada. O próprio vice-almirante estava disposto a aceitar a arbitragem do reformador,
mas enquanto não chegasse a resposta, Richier ficava impedido de administrar os sacramentos ou de
aludir em sermões aos assuntos que deram causa a controvérsia. Isto foi antes do Pentecostes. Nesta
data, em junho, Villegaignon junto com Cointac, deu ordens de misturar água ao vinho, e seguir o rito
católico. Quando foi relembrado do compromisso firmado anteriormente, ele publicamente denunciou
a teologia reformada de heresia. Lery informa-nos de que Villegaignon recebeu “cartas do Cardeal de
Lorena e outros, aconselhando-o a parar de sustentar a heresia calvinista”,44 de um navio que nesta
época aportou em Cabo Frio.
Após humilhar Thoret, calvinista, que era o comandante da fortaleza (ele fugiu nadando para
um navio bretão ancorado ao largo, e seguiu para a França) o Senhor Du Pont fez ver ao Almirante
que se este não seguia a fé reformada estes estavam desobrigados de seguí-lo. Após vários
padecimentos e humilhações, em outubro, os huguenotes deixaram a ilha, indo refugiar-se em terra
firme, no povoado chamado La Briqueterie, tendo permanecido ali por cerca de dois meses. Foi uma
oportunidade de evangelizar os índios, que os trataram com muita amabilidade. Inclusive os senhores
de La Chapelle e de Boissi foram expulsos, por não renegarem à fé reformada.
Villegaignon também declarou nulo o conselho, passando a comandar sozinho a fortaleza.
Proibiu Richier de pregar e reunir os huguenotes em oração, a menos que o ministro ratificasse uma
nova fórmula das preces, pois, segundo ele, as antigas eram errôneas. Na pequena vila, os franceses
viveram sem todas as comodidades, inclusive sem vinho para suas cerimônias, comendo e bebendo
com os índios (sua alimentação consistia de raízes, frutas e peixes) que se mostraram mais humanos
que os franceses da ilha, Villegaignon em particular.
Os huguenotes retornam à França. Em fevereiro de 1558 aportou na Guanabara um pequeno
barco, o “Le Jacques”. Segundo Lery, este navio empreendera a viagem patrocinado por vários líderes
reformados franceses, com o propósito “de explorar a terra e escolher um lugar adequado à localização
de setecentos a oitocentas pessoas que deveriam vir, ainda nesse ano, em grandes urnas de Flandres,
para colonizar o país”.45 O casco do navio já estava meio carcomido, e foi carregado de pau-brasil,
pimenta, algodão, macacos, papagaios e outros produtos da terra. Como o navio não pertencia à
companhia de Villegaignon, este não teve como impedir o embarque dos huguenotes.46 O capitão
concordou em transportá-los, e a 4 de janeiro de 1558, levantou âncora, para a travessia do Atlântico.
O navio era de pequena capacidade, com apenas vinte e cinco marujos e quinze passageiros.47 Mesmo
não se opondo ao embarque, Villegaignon enviou instruções secretas para serem entregues ao primeiro
juiz em França, dizendo para que se executasse os huguenotes como traidores e hereges. Esta
mensagem estava numa urna à prova d’água, mas no fim da viagem ela caiu nas mãos de um juiz
huguenote, e mais tarde foi usada contra o seu autor.

43 Ibid, 80-83.
44 Ibid, 227.
45 Jean de Lery, op. cit., 227.
46 S. B. Holanda, et. al., op. cit., 157.
47 Jean de Lery, op. cit., 227.


Devido ao excesso de carga, a embarcação estava na iminência de naufragar quando apenas se tinha afastado da costa. Feitos os reparos de emergência, discutiram se convinha prosseguirem viagem ou ficarem os passageiros de qualquer modo na Guanabara. A maioria dos huguenotes resolveu
prosseguir viagem, mas frente à réplica do mestre do navio à respeito da insegurança da viagem, Léry
“e mais cinco companheiros já estavam decididos a voltar à terra dos selvagens, distante apenas nove
ou dez léguas, já considerando a possibilidade do naufrágio, já a da fome”.48 Na hora da saída, um dos
huguenotes estendeu os braços em amizade para Lery e disse: “Peço-vos que fiqueis conosco, pois
apesar da incerteza que estamos de aportar em França, há mais esperança de nos salvarmos do lado do
Peru ou de qualquer outra ilha do que das garras de Villegaignon que como podeis imaginar, nunca
vos dará sossego”.49 Desta forma, o historiador da expedição foi salvo de sofrer destino semelhante
que seus irmãos que retornaram. Estes foram: Pierre Bourdon, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil,
André La Fon e Jacques le Balleur. Os outros retornaram à França, passando por grandes tempestades.
Os passageiros e a tripulação foram reduzidos a comedores de couro (dos cintos, sapatos, etc.) e restos,
e alcançaram Nantes mais mortos do que vivos. Em 24 de maio de 1558, eles finalmente avistaram a
Bretanha. Aportaram em Hodierne onde compraram víveres, e finalmente, em 26 de maio entraram no
porto de Blavet, na Bretanha. Todos chegaram sãos e salvos. Após se despedirem dos marinheiros
bretões, os huguenotes foram para Nantes, onde foram recebidos com muitas gentilezas e foram
tratados por médicos habilitados.

Martírio dos Huguenotes

Alguns huguenotes retornam ao Forte Coligny. O martírio dos huguenotes deve ser entendido
no contexto da dramática mudança operada no caráter de Villegaignon. Desde a controvérsia da Ceia,
em junho de 1557, este se tornara amargo e violento. Os colonos podiam conhecer o humor do
almirante pelas cores berrantes de suas vestes.50 Tanto Léry como Crespin relatam suas crueldades
com os habitantes da fortaleza. Cerca de 30 ou 40 homens e mulheres de outra tribo inimiga dos
tupinambás, que os venderam aos franceses, foram tratados com extrema crueldade. Um deles foi
amarrado a uma peça de artilharia, e o próprio almirante derramou toucinho derretido nas nádegas do
pobre índio.51 Os mordomos de Villegaignon, ambos reformados, foram expulsos do Forte. Um
artesão morreu de fome, mesmo implorando por comida ao desvairado almirante. O ápice foi a
expulsão de Jean Cointac da fortaleza. Quando os huguenotes fugiram para La Briqueterie, Cointac já
estava lá. Ele havia sido expulso por Villegaignon, e passava o dia amaldiçoando a almirante. Depois
ele fugiu para Bertioga, quando os franceses e tupinambás iam atacar São Vicente. Os fatos
subseqüentes foram narrados por testemunhas oculares, para o Senhor Du Pont, em Paris, após a volta
dos mesmos da colônia.
Os cinco huguenotes se fizeram ao mar, e só depois notaram que seu escaler não tinha mastro.
Eles improvisaram um, junto com uma vela, e se puseram ao largo, se dirigindo para a costa. Após
muitas intempéries, depois de cinco dias aportaram em uma praia perto do Forte de Coligny. Após
serem bem tratados pelos índios do lugar, eles, em virtude da enfermidade de um dos huguenotes, se
dirigiram para a fortaleza. Permaneceram na praia quatro dias, e depois se fizeram ao mar, se dirigindo
para o Forte de Coligny.
Eles se dirigiram direto para La Briguiterie, e ao desembarcar, foram muito bem tratados pelo
Almirante Villegaignon, que estava lá cuidando de negócios particulares. Este os recebeu bem, mas
em pouco tempo se virou contra eles. Primeiro tomou o escaler que lhes pertencia, e depois de doze
dias começou a achar que eles eram espiões dos huguenotes que haviam se retirado com o “Le
Jacques”.
Os huguenotes são executados. Sendo o representante de Henrique II na ilha, era seu dever
provar a fé dos huguenotes, e vendo nisto a oportunidade de se livrar deles formulou um questionário
com vários pontos controversos, enviando-o aos huguenotes, e dando-lhes o prazo de 12 horas para
respondê-lo. Os franceses que estavam com eles em La Briguiterie tentaram dissuadi-los a responder o
desafio do Almirante, mas estes não fugiram ao desafio. Pedindo ajuda “do Espírito de Jesus Cristo”,
segundo as palavras do autor do Histoire des Martyrs, eles escolheram Jean du Bourdel para redigir a

48 Ibid, 229.
49 Ibid, 229.
50 Ibid, 89.
51 Pedro Calmon, op. cit., 282-283.


confissão, por ser o mais letrado e conhecer o latim. Após redigi-la, submeteu-a a seus companheiros,
que assinaram-na.
Em 9 de fevereiro eles foram conduzidos ao forte – Pierre Bourdon ficou em terra por estar
enfermo. Ao se apresentarem ao Almirante, reafirmando o desejo de se manterem fiéis à confissão,
receberam todo o ódio de Villegaignon. Os huguenotes foram presos e o terror tomou conta dos
moradores da ilha. Na manhã seguinte, 10 de fevereiro de 1558, sexta-feira, Villegaignon tentou levar
os huguenotes a abjurar a confissão, mas eles se mantiveram firmes. Após esbofetear violentamente du
Bourdel, ordenou ao carrasco que algemasse as mãos do homem e o conduzisse a uma rocha para
lançá-lo ao mar. Após estimular os outros companheiros, cantou um Salmo, confessou seus pecados e
foi lançado ao mar. Matthieu Verneuil também foi conduzido à rocha, e após reafirmar o desejo de não
se retratar, proferiu suas últimas palavras: “Senhor Jesus, tem piedade de mim”. André La Fon foi
considerado inofensivo por Villegaignon, que não mandou matá-lo, e o manteve a seu serviço, pois
La Fon era alfaiate – ele precisava mantê-lo para conservar seu guarda-roupas! Villegaignon
atravessou o braço de mar e foi à casa onde Bourdon se abrigava, doente, trazendo-o para o forte.
Como este não queria renegar a confissão de fé, foi estrangulado por um carrasco, e seu corpo atirado
no mar. Suas últimas palavras foram:

Senhor Deus, sou também como aqueles meus companheiros que com honra e glória
pelejaram o bom combate pelo teu Santo Nome e, por isso, peço-te me concedas a
graça de não sucumbir aos assaltos de Satanás, do mundo e da carne. E perdoa,
Senhor, todos os pecados por mim cometidos contra a tua majestade, e isto eu te
imploro em nome do teu filho muito amado Jesus Cristo.52

Jacques Le Balleur foi poupado, pois era ferreiro.53 Isto praticamente marcou o fim da colônia
francesa, e encerrou a tragédia da Guanabara.

O Fim da Colônia

Villegaignon se retira e a colônia cai. Em fins de 1558, Villegaignon se retirou do Forte de
Coligny, retornando para a França. Ele estava debaixo de suspeitas tanto dos huguenotes, que
começaram a chamar-lhe de “Caim da América”, “apóstata” e “assassino”, quanto por parte dos
católicos, que suspeitavam de suas inclinações reformadas. Isto marcou o fim da colônia francesa, que
ficou sob a supervisão de Bois Le Comte. A colônia já estava sendo acossada pelos índios Maracajás,
aliados dos portugueses, e estes enviaram para o Brasil Mem de Sá, que tinha como sua ordem do dia
a expulsão dos franceses. Em 1560, Mem de Sá partiu de Salvador para o Rio de Janeiro, com duas
naus e oito embarcações menores, e cerca de 2000 soldados, recebendo mais reforços de São Vicente.
Jean Cointac traiu os franceses, revelando todas as posições francesas. Em 15 de março o combate
começou. O número de franceses na ilha chegava a 114, com cerca de oitocentos tupinambás
apoiando-os. A luta foi dura, durando dois dias. Após a captura do paiol, os franceses se renderam, no
sábado, fugindo para o continente e se embrenhando no mato. No dia seguinte, domingo, 17 de março
de 1560, em meio às comemorações de vitória, foi celebrada a primeira missa na ilha.54 Os franceses
que não foram mortos pelos índios Maracajás, foram resgatados por um navio que os apanhou na
costa. Desta forma terminou a tentativa de instalar uma colônia para os huguenotes franceses no Rio
de Janeiro.
O fim de Villegaignon. Após sua volta para a França, Villegaignon tentou polemizar com
vários protestantes. Desta polêmica surgiu Histoire d’un Voyage Fait en La Terre du Brésil, escrito
por Jean de Lery, em 1578, em parte para responder as acusações de Villegaignon. Ele tentou envolver

52 Jean Crespin, op. cit., 55-64, 72-83.
53 R. Pierce Beaver, op. cit., 71. Após conseguir viver escondido, Jacques Le Balleur foi preso pelos portugueses
nas cercanias de Bertioga. Ele fo i enviado para Salvador, na Bahia, que era a sede do governo colonial, onde foi
julg ado pelo crime de “invasão” e “heresia”, isto em 1559. Em abril de 1567 foi queimado, sendo auxiliar do
carrasco José de Anchieta, para consternação dos católicos. Álvaro Reis, O martyr Le Balleur (Rio de Janeiro:
s/ed, 1917).
54 Rocha Pomb o, op. cit., 216, 221-223. Ver também S. B. Holanda, op . cit.,158 e Pedro Calmon, op. cit., 282-
287. Cointac foi enviado a Portugal, para julgado pela inquisição de Lisboa, sob a acusação de heresia. Quando
foi absolvido, foi desterrado para a Índia.


Calvino, mas está relatado que Calvino jogou sua carta debaixo de seus pés. Até o final de seus dias
ele lutou contra os calvinistas e luteranos com sua pena. Na Batalha de Rouen, em 1562, teve sua
perna esmagada pela bala de um canhão huguenote. Em 1568 foi nomeado embaixador dos Cavaleiros
de Malta para a corte francesa. Faleceu em Beauvais, perto de Nemours, em 9 de fevereiro de 1571.55


TESTEMUNHO HUGUENOTE

Segundo Jean de Lery, o principal objetivo da expedição huguenote às terras do Brasil, pedida
por Villegaignon a Coligny e Calvino, era o envio de “ministros mas também algumas outras pessoas
bem instruídas na religião cristã afim de melhor reformar a si e aos seus e mesmo abrir aos selvagens o
caminho da salvação”.56 Diante desta declaração analisaremos os feitos dos reformados dentro dos
limites a eles impostos e acima mencionados.

Junto aos Franceses

Pregação. Talvez o trabalho mais importante realizado entre os franceses tenha sido a
pregação. O primeiro culto evangélico realizado nas Américas foi realizado no Forte Coligny, em 10
de março de 1557, uma quarta-feira. Villegaignon mandou

reunir toda a sua gente conosco em uma pequena sala existente no meio da ilha e o
ministro Richier invocou a Deus. Cantamos em coro o Salmo V e o dito ministro,
tomando por tema estas palavras do Salmo XXVII - “Pedi ao Senhor uma coisa que
ainda reclamarei e que é a de poder habitar na casa do Senhor todos os dias da minha
vida” - fez a primeira prédica no Forte de Coligny, na América. Durante a mesma não
cessou Villegaignon de juntar as mãos, erguer os olhos para o céu, dar altos suspiros e
fazer outros gestos que a todos nos pareciam dignos de admiração. Por fim,
terminadas as preces solenes conforme o ritual das igrejas reformadas de França, e
marcados para elas um dia da semana, dissolveu-se a reunião.57

Villegaignon e os ministros genebrinos concordaram que seriam realizadas “preces públicas
feitas todas as noites depois do trabalho” e que “os ministros pregariam duas vezes no domingo e nos
outros dias da semana durante uma hora; [Villegaignon] ordenou também, expressamente, que os
sacramentos fossem administrados de acordo com a palavra de Deus e que, no mais, fosse a disciplina
aplicada contra os pecadores”.58
Ceia do Senhor. Já no dia 21 de março, no domingo, foi realizada a primeira ceia, e todos os
que dela participariam deveriam dar pública confissão de fé, “abjurando perante todos o papismo”.
Mas logo depois disto começaram os debates a respeito da presença real de Cristo na eucaristia. Como
já vimos, a crise veio à tona no Pentecostes, quando Villegaignon rompeu acordo previamente
estabelecido com os pastores genebrinos, de esperar uma resposta de Genebra quanto à controvérsia.
Disciplina. Em 3 de abril, dois criados de Villegaignon “desposaram no momento da prédica,
segundo as leis da igreja reformada, duas das jovens que tínhamos trazido de França para este país”.
Em 17 de maio, Jean Cointac, o pivô da discórdia sobre a eucaristia, ele mesmo desposou uma das
jovens, “parente de um tal Laroquete, de Rouen”, que havia ido para o Brasil com os huguenotes e
falecera pouco antes do casamento. As outras duas moças casaram-se com dois intérpretes
Normandos.59 Os casamentos entre franceses e índios foi proibido, salvo se as índias fossem
instruídas na religião reformada e batizadas. Andrada diz que “registraram-se numerosas conversões e
muitos dos calcetas de Rouen e de presidiários de Paris, despertados pela austera doutrina e pelas
virtudes dos ministros protestantes, aceitaram o cristianismo”.60 Temos a favor dos huguenotes o fato
de que levados a uma situação limite, em nenhum momento tomaram uma atitude violenta contra

55 R. Pierce Beaver, op. cit., 72.
56 Jean de Lery, op. cit., 47.
57 Ibid., 77.
58 Ibid., 79.
59 Jean de Lery, op. cit., 86-87.
60 Laércio Caldeira da Andrada, op. cit., 66.

Villegaignon. O próprio Léry foi preso, mas em meio à sua revolta, foi instado por Du Pont a não
tomar uma atitude violenta que desonrasse a igreja reformada. Estes são alguns dos feitos que os
huguenotes realizaram entre os franceses, mas nenhum deles teve continuidade, envolvidos que
estavam com as polêmicas que começaram a assolar a Igreja reformada do Forte Coligny.

Junto aos Índios Tupinambás

Métodos de Evangelização. Léry fez notas cuidadosas dos ritos e costumes dos índios
brasileiros. Estas notas foram registradas em seu livro, e são pioneiras como descrição do Brasil
Colonial. Ele não recriminou costumes e práticas repulsivas para os europeus e nem os condenou por
serem diferentes. Ele testemunhou guerras e canibalismo. Ele descobriu que os tupinambás não tinham
uma noção do Único Deus Verdadeiro, conhecendo apenas os “maus espíritos” que os oprimiam. Não
obstante o choque cultural, Léry descobriu boas qualidades nos índios, tais como hospitalidade e boa
vontade de escutar amigos e estranhos. O método de Léry de evangelização era informal, aproveitando
todas as oportunidades para evangelizar.61
Resultados do trabalho entre os índios. Foi a extrema falta de tempo que impediu a conversão
dos índios, de acordo com o pastor Richier e Lery. É importante mencionar que dez índios de nove a
dez anos, tomados na guerra pelos índios amigos dos franceses, e vendidos como escravos a
Villegaignon, foram embarcados no mesmo navio para a França (o “Rosée”, que através de “um tal
Nicolas Carmeau” levou uma carta para Calvino, em 1º de abril de 1557), “depois de ter o ministro
Richier, ao fim de uma prédica, imposto as mãos sobre eles e de termos rogado a Deus que lhes fizesse
a graça de serem os primeiros deste pobre povo chamados à salvação”.62 Ao chegar em França os
rapazes foram apresentados ao rei Henrique II, e distribuídos entre vários nobres. Um deles chegou a
ser batizado, por ordem do Senhor de Passy, e o próprio Lery o reconheceu na residência deste, ao
retornar para sua pátria. O trabalho, após a volta dos Reformados para a França acabou. Não houve
frutos permanentes, mas segundo Lery “sou de opinião que se Villegaignon não houvesse abjurado a
religião reformada e tivéssemos podido permanecer por mais tempo no país teríamos chamado alguns
deles a Jesus”.63

A Confissão de Fé

O maior testemunho dos huguenotes na Guanabara é justamente sua Confissão de Fé. Esta,
inclusive o processo instaurado por Villegaignon contra Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre
Bourdon foram entregue ao Senhor Du Pont, cerca de quatro meses depois de sua chegada à França,
por “pessoas fidedignas que deixamos neste país”. Estes foram testemunhas oculares do martírio dos
huguenotes no Forte Coligny.64 Depois Du Pont entregou a Confissão de Fé e os processos a Lery, que
se sentiu no dever de que este relato constasse “no livro dos que em nossos dias foram martirizados na
defesa do Evangelho”. Em 1558 ele entregou os manuscritos a Jean Crespin, que a inseriu no seu
livro:

Segundo a doutrina de S. Pedro Apostolo, em sua primeira epistola, todos os Christãos
devem estar sempre promptos para dar razão da esperança que nelles ha, e isso com
toda a doçura e benignidade, nós, abaixo assignados, Senhor de Villegaignon,
unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos ha concedido) damos
razão, a cada ponto, como nos haveis apontado e ordenado, e começando no primeiro
artigo:

I. Cremos em um só Deus, immortal e invisivel, creador do céo e da terra, e de todas
as coisas, tanto visiveis como invisiveis, o qual é distinto em tres pessoas : o Pae, o
Filho e o Santo Espirito, que não fazem sinão uma mesma substancia em essencia
eterna e uma mesma vontade ; o Pae fonte e começo de todo o bem ; o Filho
eternamente gerado do Pae, o qual, cumprida a plenitude do tempo; se manifestou em

61 Jean de Lery, op. cit., 197-198.
62 Ibid., 85.
63 Ibid., 198.
64 Ibid., 198.

carne ao mundo, sendo concebido do Santo Espirito, nascido da Virgem Maria, feito
sob a Lei para resgatar os que sob ella estavam, afim de que recebessemos a adopção
de proprios filhos; o Santo Espirito, procedente do Pae e do Filho, mestre de toda a
verdade, falando pela boca dos Prophetas, suggerindo todas as coisas que foram ditas
por nosso Senhor Jesus Christo aos Apóstolos. Este é o unico consolador em
afflicção, dando constancia e perseverança em todo bem. Cremos que é mistér
sómente adorar e perfeitamente amar, rogar e invocar a magestade de Deus em fé ou
particularmente.

II. Adorando nosso Senhor Jesus Christo, não separamos uma natureza da outra,
confessando as duas naturezas, a saber, divina e humana n’Elle inseparaveis.

III. Cremos, quanto ao Filho de Deus e ao Santo Espirito, o que a Palavra de Deus e a
doutrina apostolica, e o symbolo, nos ensinam.

IV. Cremos que nosso Senhor Jesus Christo virá julgar os vivos e os mortos, em fórma
visivel e humana como subiu ao Céo, executando tal juizo na forma em que, nos
predisse em S. Matheus, vigesimo quinto capitulo, tendo todo o poder de julgar, a Elle
dado pelo Pae, em tanto que é homem. E, quanto ao que dizemos em nossas orações,
que o Pae apparecerá enfim na pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do
Pae, dado ao Filho, será manifestado no dito juizo, não todavia que queiramos
confundir as pessoas, sabendo que ellas são realmente distintas uma da outra.

V. Cremos que no Santíssimo Sacramento da Ceia, com as figuras corporaes do pão e
do vinho, as almas fieis são realmente e de facto alimentadas com a propria substancia
de nosso Senhor Jesus como nossos corpos são alimentados de viandas, e assim não
entendemos dizer que o pão e o vinho sejam transformados ou transubstanciados no
corpo e sangue d’elle, porque o pão continua em sua natureza e substancia,
similhantemente o vinho, e não ha mudança ou alteração. Distinguimos todavia este
pão e vinho do outro pão que é dedicado ao uso commum, sendo que este nos é um
signal sacramental, sob o qual a verdade é infallivelmente recebida. Ora esta recepção
não se faz sinão pormeio da fé e nella não convem imaginar nada de carnal, quem
preparar os dentes para o comer, como santo Agostinho nos ensina, dizendo : “Porque
preparas tu os dentes e o ventre ? Crê, e tu o comeste.” O signal, pois, nem nos dá a
verdade, nem a coisa significada ; mas nosso Senhor Jesus Christo, por seu poder,
virtude e bondade, alimenta e preserva nossas almas, e as faz participantes de sua
carne, e de seu sangue, e de todos os seus benefícios. Vejamos a interpretação das
palavras de Jesus Christo: “Este pão é o meu corpo”. Tertuliano, no livro quarto contra
Marcion, explica estas palavras assim: “Este é o signal e a figura do meu corpo”. S.
Agostinho diz : “O Senhor não evitou dizer :- Este é o meu corpo, quando dava apenas
o signal de seu corpo”. Portanto (como é ordenado no primeiro Canon do concilio de
Nicéa), neste santo Sacramento não devemos imaginar nada de carnal e nem nos
distrahir no pão e no vinho, que nos são nelles propostos por signaes, mas levantar
nossos espiritos ao Céo para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus,
sentado á dextra de Deus, seu Pae. Neste sentido podiamos juntar o artigo da
Ascenção, com muitas outras sentenças de santo Agostinho, que omittimos, temendo
ser longas.

VI. Cremos que, si fosse necessario pôr agua no vinho, os evangelistas e São Paulo
não teriam omttido uma coisa de tão grande conseqüência. E quanto a que os doutores
antigos o têm observado (fundamentando-se sobre o sangue misturado com agua que
sahio do lado de Jesus Christo, desde que tal observancia não tem nenhum fundamento
na Palavra de Deus, visto mesmo que depois da instituição da Santa Ceia isso
aconteceu), nós a não podemos hoje admittir necessariamente.


VII. Cremos que não ha outra consagração que a que se faz pelo ministro, quando se
celebra a Ceia, recitando o ministro ao povo, em linguagem conhecida, a instituição
desta Ceia litteralmente, segundo a fórma que nosso Senhor Jesus Christo nos
prescreveu, admoestando o povo da morte e paixão de nosso Senhor. E mesmo, como
diz santo Agostinho, a consagração e a palavra de fé que é pregada e recebida em fé.
Pelo que, segue-se que as palavras secretamente pronunciadas sobre os signaes não
podem ser a consagração como apparece da instituição que nosso Senhor Jesus
Christo deixou aos seus Apóstolos, dirigindo suas palavras aos seus discipulos
presentes, aos quaes ordenou tomar e comer.

Vlll. O Santo Sacramento da Ceia não é vianda para o corpo como para as almas
(porque nós não imaginamos nada de carnal, como declaramos no artigo quinto)
recebendo-o por fé, a qual não é carnal.

IX. Cremos que o baptismo é Sacramento de penitencia, e como uma entrada na
Egreja de Deus, para sermos incorporados em Jesus Christo. Representa-nos a
remissão de nossos peccados passados e futuros, a qual é adquirida plenamente só pela
morte de nosso Senhor Jesus.
De mais, a mortificação de nossa carne ahi nos é representada, e a lavagem,
representada pela agua lançada sobre a creança, é signal e sello do sangue de nosso
Senhor Jesus, que é a verdadeira purificação de nossas almas. A sua instituição nos é
ensinada na Palavra de Deus, a qual os santos Apostolos observaram usando de agua
em nome do Pae, do Filho e do Santo Espirito. Quanto aos exorcismos, abjurações de
satan, chrisma, saliva e sal, nós os registramos como tradições dos homens,
contentando-nos só com a fórma e instituição deixada por nosso Senhor Jesus.

X. Quanto ao livre-arbitrio, cremos que, si o primeiro homem, creado á imagem de
Deus, teve liberdade e vontade, tanto para bem como para mal, só elle conheceu o que
era o livre arbitrio, estando em sua integridade. Ora, elle nem apenas guardou este
dom de Deus, assim delle foi privado por seu peccado, e todos os que descendem
delle, de sorte que nenhum da semente de Adão tem uma scentelha do bem. Por esta
causa, diz São Paulo, que o homem sensual não entende as coisas que são de Deus. E
Oseas clama aos filhos de lsrael : “Tua perdição é de ti, Ò lsrael.” Ora isto entendemos
do homem que não é regenerado pelo Santo Espirito. Quanto ao homem christão,
baptizado no sangue de Jesus Christo, o qual caminha em novidade de vida, nosso
Senhor Jesus Christo restitue nelle o livre arbitrio, e reforma a vontade para todas as
boas obras, não todavia em perfeição, porque a execução de boa vontade não está em
seu poder, mas vem de Deus, como amplamente este Santo Apostolo declara, no
setimo capitulo aos Romanos, dizendo: “Tenho o querer, mas em mim não acho o
perfazer”. O homem predestinado para a vida eterna, embora peque por fragilidade
humana, todavia não pode cahir em impenitencia. A este proposito, S. João diz que
elle não pecca, porque a eleição permanece nelle.

XI. Cremos que pertence só á Palavra de Deus perdoar os peccados, da qual, como diz
Santo Ambrosio, o homem é apenas o ministro; portanto, si elle condemna ou absolve,
não é elle, mas a Palavra de Deus que elle annuncia. Santo Agostinho neste logar diz
que não é pelo merito dos homens que os peccados são perdoados, mas pela virtude do
Santo Espirito. Porque o Senhor dissera a seus apostolos: “Recebei o Santo Espírito”;
depois accrescenta: “Si perdoardes a algum, seus peccados”, etc. Cypriano diz que o
servidor não pode perdoar a offensa contra o Senhor.

XII. Quanto á imposição das mãos, essa servio em seu tempo, e não ha necessidade de
conserval-a agora, porque pela imposição das mãos não se pode dar o Santo Espirito,
porquanto isto só a Deus pertence. Tocante á ordem ecclesiastica, cremos no que São
Paulo della escreveu na Primeira Epistola a Timotheo, e em outros logares.


XIII. A separação entre o homem e a mulher legitimamente unidos por casamento não
se póde fazer sinão por causa de adulterio, como nosso Senhor ensina. Matheus,
capitulo XIX: ver. 5. E não sòmente se pode fazer a separação por essa causa, mas,
tambem, bem examinada a causa perante o magistrado, a parte não culpada, se não
podendo conter, póde casar-se, como São Ambrosio diz sobre o capitulo VII da
Primeira Epistola aos Corinthios. O magistrado, todavia, deve nisso proceder com
madureza de conselho.

XIV. São Paulo, ensinando que o bispo deve ser marido de uma só mulher, não diz
que lhe seja licito tornar-se a casar, mas o Santo Apostolo condemna a bigamia a que
os homens daquelles tempos eram muito affeitos ; todavia, nisso deixamos o
julgamento aos mais versados nas Santas Escripturas, não se fundando a nossa fé
sobre esse ponto.

XV. Não é licito votar a Deus, sinão o que elle approva. Ora, é assim que os votos
monasticos só tendem á corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É tambem grande
temeridade e presumpção do homem fazer votos além da medida de sua vocação, visto
que a Santa Escriptura nos ensina que a continencia é um dom especial. Matheus XV e
I Epist. de S. Paulo aos Corinthios, VII. Portanto, segue-se que os que se impõem esta
necessidade, renunciando ao matrimonio toda a sua vida, não pódem ser desculpados
de extrema temeridade e confiança excessiva e insolente em si mesmos. E por este
meio tentam a Deus, visto que o dom da continencia é em alguns apenas temporal, e o
que o teve por algum tempo não o terá pelo resto da vida. Por isso, pois, os monges,
padres e outros taes que se obrigam e promettem viver em castidade, tentam contra
Deus, por isso que não está nelles cumprir o que promettem. São Cypriano, no
capitulo onze, diz assim: “Si as virgens se dedicam de boa vontade a Christo,
perseverem em castidade sem defeito; sendo assim fortes e constantes, esperem o
galardão preparado para a sua virgindade; si não querem ou não pódem perserverar
nos votos, é melhor que se casem do que serem precipitadas no fogo da lascivia por
seus prazeres e delicias”. Quanto á passagem do apostolo S. Paulo, é verdade que as
viuvas, tomadas para servir á Egreja, se submettiam a não mais casar, emquanto
estivessem sujeitas ao dito cargo, não que por isso se lhes reputasse ou attribuisse
alguma santidade, mas porque não se podiam bem desempenhar de seus deveres,
sendo casadas ; e, querendo casar, renunciassem a vocação para que Deus. as tinha
chamado, comtudo que cumprissem as promessas feitas na Egreja, sem violar a
promessa feita no baptismo, na qual está contido este ponto : « Que cada um deve
servir a Deus na vocação em que foi chamado ». As viuvas, pois, não faziam voto de
continencia, sinão no que o casamento não convinha ao officio para que se
apresentavam, e não tinham outra consideração que cumpril-o. Não eram tão
constrangidas que não lhes fosse antes permittido casar-se que abrazar-se e cahir em
alguma infamia ou deshonestidade.

Mais, para evitar tal inconveniente, o Apostolo São Paulo, no capitulo citado, prohibe,
que sejam recebidas para fazer taes votos sem que tenham a edade de sessenta, annos,
que é uma edade commumente fóra da incontinencia. Accrescenta que os eleitos só
devem ter sido casados uma vez, afim de que por essa fórma, tenham já uma
approvação de continencia.

XVI. Cremos que Jesus Christo é o nosso unico Mediador, Intercessor e Advogado,
pelo qual temos accesso ao Pae, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da
morte, e por elle já reconciliados teremos plena victoria contra a morte. Quanto aos
santos defuntos, dizemos que desejam a nossa salvação e o cumprimento do Reino de
Deus, e que o numero dos eleitos se complete ; todavia não nos devemos dirigir a elles
como intercessores para obterem alguma coisa, porque desobedeceriamos o
mandamento de Deus. Quanto a nós, ainda vivos, emquanto estamos unidos como



membros de um corpo, devemos orar uns pelos outros, como nos ensinam muitas
passagens das Santas Escripturas.

XVll. Quanto aos mortos, São Paulo na 1 Epistola aos Thessalonicenses, lV capitulo,
nos prohibe entristecer-nos por elles, porque isto convém aos pagãos, que não têm
esperança alguma de resuscitar. O Apostolo não mandá e nem ensina orar por elles, o
que não teria esquecido, si fosse conveniente. S. Agostinho, sobre o Psalmo XLVlll,
diz que os espiritos dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante a vida ;
que, si nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos. Esta é a resposta
que damos aos artigos por vós enviados, segundo a medida e porção da fé, que Deus
nos deu, supplicando que lhe praza fazer que em nós não seja morta, antes produza
fructos dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer e perseverar n'ella, lhe
rendamos graças e louvores para sempre jamais. Assim seja - Jean du Bourdel,
Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André la Fon.65

A mentalidade de Jean du Bourdel era de um poder admirável, para produzir, em circunstâncias
extremas, estas respostas. As principais características desta confissão de fé claramente reformada são:
lealdade aos antigos credos, a importância, nesse tempo, do estudo que se fazia dos Pais da Igreja e o
conhecimento invejável das Escrituras e da doutrina que os cristãos simples do passado possuíam. Foi
a primeira confissão de fé redigida na América, na primeira Igreja do Brasil.


CONCLUSÃO

A missão reformada no Rio de Janeiro terminou de forma melancólica. Talvez o seu maior
problema residia-se justamente em sua motivações. Enquanto que para Calvino, Coligny e para os
demais huguenotes a expedição era a melhor forma de encontrar um refúgio para os protestantes
perseguidos (e também um lugar para poder propagar a fé reformada livremente), para o rei da
França, Henrique II, era apenas uma forma de conseguir mais colônias. E Villegaignon, o que queria
este homem, que depois foi chamado de “Caim da América”? No mínimo, ambição pessoal - e no
meio deste conflito de interesses a missão foi abortada. O testemunho desta colônia está baseado no
fato de que os huguenotes franceses (sob a liderança dos dois pastores genebrinos) foram os primeiros
protestantes a realizar um culto nas Américas, sendo a pregação baseada no Salmo 27:4 em 10 de
março de 1557, e em maio deste mesmo ano selaram com sangue seu testemunho – Pierre Bourdon,
Jean du Bourdel e Mathieu Verneuil foram mortos por Villegaignon após confessarem sua fé. Eles
foram a semente da igreja protestante que retornou ao país cerca de 400 anos depois.

As igrejas Reformadas têm em alta conta seus mártires no Brasil. A missão que viveu
por um período curto não teve frutos de conversão estatísticos; mas possui uma
importância histórica. Quando a igreja foi confrontada em fazer missões, ela
respondeu imediatamente. A evidência circunstancial aponta para a aprovação de
Calvino. Não existiu hostilidade para com o conceito ou para a prática de missões. Os
suíços não possuíam colônias para direcionar os genebrianos a lugares distantes. O
governo francês apoiou apenas missões católicas romanas em seus territórios
coloniais, e depois de um período de tolerância a Igreja Reformada foi fortemente
perseguida. Então, circunstâncias históricas, em outro tempo, desafiarão os calvinistas
da Holanda e da Nova Inglaterra, e eles responderão positivamente [ao fazer missões],
tanto de forma prática quanto teológica.66


65 Jean Crespin, op. cit., 65-71. A Confissão de Fé passou a ser conhecida como a “Confissão de Fé Fluminense”.
Erasmo Braga (1877-1932), que fo i membro da Academia de Letras de São Paulo e Deão do Seminário
Teológico Presbiteriano em Campinas (São Paulo), traduziu a Confissão de Fé em 1907.
66 R. Pierce Beaver, op. cit., 72. Para as missões reformadas holandesas no nordeste brasileiro, ver Frans Leonard
Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês: 1630-1654 (São Paulo: Vida Nova, 1989). Para as missões
reformadas na Nova Inglaterra, ver Jonathan Edwards, A vida de David Brainerd (São José dos Campos: Editora
Fiel, 19 93).


Ao concluir, podemos destacar sua intenção original. Ao contrário de quase todos os
exploradores de sua época, que consideravam os nativos como nada mais do que animais brutos e
selvagens, e por isso, em relação aos brancos civilizados, necessariamente de condição inferior ou até
passíveis de escravidão, Jean de Lery e seus companheiros demonstraram, em oposição, que os
habitantes do Novo Mundo são dignos da maior consideração, não apenas por terem a imago Dei, mas
porque, em muitos aspectos humanitários, eles estavam bem à frente dos habitantes do Velho Mundo.
O que fica patente, nisto tudo, é que para o calvinismo, a ação colonizadora não tem por alvo, em
primeiro plano, a expansão comercial do país colonizador. Esta ação colonizadora deve servir
essencialmente à constituição de novas igrejas - e foi unicamente com esta finalidade que foi
preparada a expedição de reforço organizada pelo próprio Calvino.

Tais são as preocupações essenciais dos fatores da primeira expedição colonizadora
calvinista. Mostram bem que, para estes reformadores, a reconciliação em Cristo une
todos os seres humanos em um só corpo, acima das diferenças de línguas, de raças, de
civilizações e de condições sociais; toda idéia de escravidão ou de discriminação foi
abolida. Estes homens, pois, estão a postos para realizar um trabalho de evangelização
que nenhuma barreira racial poderia conter.67

Em março de 1557, em meio ao culto realizado no Forte de Coligny, os reformados cantaram
o Salmo 5, metrificado por Clement Marot, com música de Louis Bourgeois. É com a letra deste hino
que encerramos este ensaio.

1. O meu clamor, ó Deus, atende, pois dia e noite eu oro a ti.
Tão frágil sou, tão pobre aqui!
Magoada e só, minha alma chora, por isso implora.

2. Da vida e luz tu és a fonte.
Em mim derrama o teu poder.
Minha oração vem atender, pois quando sai o sol bem cedo,
eu intercedo.

3. Tu és um Deus que não te alegras no tropeçar do pecador.
Bondoso e justo és tu, Senhor.
Tu não toleras orgulhosos e mentirosos.

4. Na luz dos teus caminhos santos, humilde e grato eu andarei.
Tu és meu Deus, tu és meu rei.
Contigo sempre andar eu quero, puro e sincero.

5. Teus filhos têm constante alento, felizes sempre em tua paz.
De todo o mal os guardarás, pois tua lei, ó Deus, conhecem e
te obedecem.68

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