domingo, 15 de agosto de 2010

A PRESENÇA DOS REFORMADOS FRANCESES NO BRASIL COLONIAL

Franklin Ferreira*

O presente ensaio, por ocasião das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, busca resgatar as motivações que trouxeram para uma pequena ilha na Baía de Guanabara um grupo de protestantes franceses, conhecidos como huguenotes, sob a liderança de Nicolas Durand de Villegaignon, personagem controverso no mosaico de motivações que os trouxeram para o que se chamou de Forte Coligny. Sem o saber, eles estavam sendo lançados numa aventura cercada de polêmicas. Serão descritos os preparativos para a viagem, o recrutamento dos ladrões nas prisões de Rouen e Paris, a travessia e a chegada no Rio de Janeiro, os primeiros problemas entre os colonos.
Chamados de Genebra e França, os huguenotes se dirigiram para a fatídica Baía. Ao chegar aí, tudo era otimismo, mas os problemas logo vieram, e com isto eles precisaram fugir para uma pequena vila no continente. Daí alguns conseguiram fugir para a França, mas alguns deles foram capturados e martirizados. Os feitos dos huguenotes são descritos no presente trabalho: pregação e evangelização entre franceses e índios, celebração da ceia do Senhor e da disciplina cristã e termina com uma avaliação dos resultados da obra destes homens, apontando sua coragem em desbravar novas terras para propagar a fé reformada.


1500: O BRASIL COLÔNIA


O Descobrimento do Brasil

Em 22 de abril de 1500 as primeiras aves foram avistadas. Ao cair da tarde, os marinheiros avistaram terra. Por ser a semana da Páscoa, Pedro Álvares Cabral deu ao monte alto que se divisava do mar o nome de Pascoal. É a Terra de Vera Cruz.1 A princípio, seu destino era a Índia, mas após vários contratempos aportou na terra que depois foi chamada Terra de Santa Cruz (1501), quando Américo Vespúcio descobriu que esta não era uma ilha, e Brasil (1503), em virtude do pau-brasil.
Hoje se sabe que a esquadra portuguesa ter aportado aqui não é fruto do acaso. “Cabral trazia recomendações categóricas para verificar se dentro da jurisdição portuguesa segundo o Tratado de Tordesillas, valiam alguma coisa as terras cuja existência mais que se suspeitava em Portugal”.2 Ao chegar ao País, aportaram numa vasta enseada, a que se deu o nome de Porto Seguro, que não é o Porto Seguro atual, mas a enseada de Santa Cruz, que tem o nome atual de Baía Esbrália. No dia 26 de
abril, um domingo, celebrou-se na ilha da Coroa Vermelha a primeira missa em terras do Brasil, celebrada por Frei Henrique de Coimbra, líder dos frades de São Francisco, os primeiros religiosos mandados de Portugal para cá.
Alguns dias depois repetiu-se a cerimônia, já em terra firme, sendo esta a grande missa oficial.
Foi levantada uma grande cruz de madeira, a artilharia de bordo disparou uma salva, enquanto o chefe da expedição tomava posse formal da terra para o Rei de Portugal, D. Manuel, e dava-lhe o nome de Vera Cruz. Enquanto o navio de mantimentos, sob o comando de Gaspar de Lemos, zarpava para Portugal para anunciar ao rei o descobrimento de novas terras, o resto da frota zarpou em direção a
Índia. Em terra firme permaneceram dois degredados dos vinte que iam na frota, e alguns grumetes que desertaram.3



* Franklin Ferreira, é doutorando em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de
Janeiro, e professor de Teologia Sistemática no mesmo seminário.
1 S. B. Holanda, et al, História Geral da Civilização Brasileira – A Época Colonial (5 ed. São Paulo: Difel,
1976), 35. Pouco se conhece de Pedro Álvares Cabral. Sabe-se que nascera em Belmonte pelos anos de 1467 ou
68. Teria pouco mais de trinta anos quando assumiu o comando da frota. Esta era composta de dez navios de
guerra, um navio redondo de transporte e algumas outras embarcações mercantes incorporadas à expedição.
2 Rocha Pombo, História do Brasil – vol. 1: O Descobrimento e a colonização (Rio de Janeiro: W. N. Jackson
Inc., 1967), 2 3.
3 S. B. Holanda, op. cit., 36.


O Rio de Janeiro antes do Estabelecimento dos Franceses


A Baía de Guanabara foi descoberta em 1º de janeiro de 1502. Pelo costume de se chamar rio qualquer embocadura, mesmo não sendo de caráter estritamente fluvial, e pela data, esta foi denominada de Rio de Janeiro. Foi fundada uma feitoria neste local, com o objetivo de trocar especiarias com os indígenas, mas ela foi destruída em pouco tempo, em represália pelo mau comportamento de um de seus encarregados.4 Em 1519, Fernão de Magalhães em viagem por esta terra encontrou vestígios da antiga feitoria. Um de seus pilotos, João Lopes de Carvalho, permaneceu vivendo com os índios Tamoios por quatro anos, talvez em 1510-14, e nesta ocasião levou o filho que
tivera de uma índia, na sua anterior passagem pela região. Nenhum dos dois sobreviveu à expedição.5
O Rio de Janeiro permaneceu abandonado até 1531, quando Martin Afonso de Souza aportou aqui, com sua expedição de exploração, colonização e guarda-costas. Ele permaneceu neste local por três meses, instalou em terra uma casa-forte, construiu dois bergantins e depois rumou para São Vicente.
Pouco depois foram criadas as Capitanias Hereditárias, e a de São Vicente foi concedida a Martin Afonso, em cujo território também estava incluído o Rio de Janeiro. Apesar da excelente posição de apoio aos navegantes, Martin Afonso não planejou povoar tal localidade. É desse período o nome “carioca (caraí, senhor; oca, casa), dado a uma construção qualquer, feita para proteger forte ou
aguada, e, extensivamente, ao riacho que desembocava na praia”.6
A não ser nas capitanias de Pernambuco e São Vicente, o projeto revelou-se um completo fracasso. Então, em 1549, Portugal estabeleceu o Governo Geral, com Tomé de Souza. Com ele vieram seis jesuítas, depois mais quatro. Com Duarte da Costa, dezesseis, para catequizar índios e colonos, mas seu trabalho pouco impacto teve. Muito antes de Villegaignon, os franceses visitaram costas brasileiras. Em junho de 1503, o capitão Binot Paulmier de Gonneville zarpava de Honfleur para uma expedição às Índias Ocidentais. Seis meses depois chegou ao Brasil, no litoral norte-
catarinense. Registraram-se, a seguir, a viagem atribuída em 1521 a Huges Roger, e em 1525, a realizada por Jean Parmentier. Salvo melhores pesquisas, a expedição de Villegaignon foi a quarta que da França chegou às praias do Brasil.7


A REFORMA PROTESTANTE NA FRANÇA

Começo da Reforma na França

Em 1512, enquanto um obscuro monge agostiniano ia a Roma resolver assuntos de sua ordem, Jacques Lefèvre d’Etaples (1450-1537), doutor em Teologia e professor da Universidade de Paris, rompeu com a Teologia Eclesiástica, que dominava o ambiente teológico da época, e começou a enfatizar uma volta às Escrituras.8 Sobre a reforma na França, Merle D’Aubigné afirmou:

A Reforma teve de combater na França não somente a infidelidade e a superstição,
mas ainda um terceiro antagonista, que não tinha ainda encontrado, pelo menos com
tal força, em povo de origem germânica: a imoralidade (...). Os inimigos violentos que a Reforma encontrou simultaneamente em França deram-lhe um caráter todo especial.
Em parte alguma ela permaneceu tantas vezes no cárcere, ou mais se assemelhou com
o cristianismo primitivo na fé, na caridade e no número de mártires.9


4 Hélio Viana, História do Brasil – Período Colonial (10 ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d), 121.
5 Pedro Calmon, História do Brasil – As origen s: século XVI (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1959), 151.
6 Ibid., 151.
7 Laércio Caldeira da Andrada, A Igreja dos Fiéis, Coligny, no Feudo de Villegaignon (Rio de Janeiro: s/ed,
1947), 32. Para uma narrativa das impressionantes e tristes conquistas espanholas, portuguesas e francesas, ver
Justo L. Gonzales, Uma história ilustrada do cristianismo – A era dos conquistadores, vol. VII (São Paulo: Vida
Nova, 1990).
8 Para mais informações, ver Philip Edgcumbe Hughes, Lefèvre – pioneer of ecclesiastical renewal in France
(Grand Rapids, Michigan: Wn. B. Eerdmans, 1984).
9 D. H. Merle D’Aubigne, História da Reforma do décimo-sexto século – vol. IV (São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, s/d), 115.



Ao redor de Lefèvre reuniram-se Guillaume Briçonnet (1472-1534), bispo de Meaux, para
onde se dirigiam os de tendências reformadoras, por causa das perseguições que, em Paris, os professores da Sobornne lhes dirigiam. Outro que aderiu à Reforma foi Guillaume Farel (1489-1565) que depois, sem desanimar diante de dificuldades e perseguições, ganhou para a fé reformada as cidades de Montbelliard, Neuchatel, Lausanne, Aigle e finalmente Genebra. Por esta época, em 30 de outubro de 1522, Lefère publicou uma tradução francesa dos evangelhos. Em 6 de novembro os livros
restantes do Novo Testamento. Em 12 de outubro de 1524 todos estes livros juntos e em 1525 uma versão dos Salmos.10
Em Meaux acabou rebentando nova perseguição, e já neste tempo, o sangue dos primeiros
mártires foi derramado. Entre os mártires estava Jean Leclerc (morto em 1524), cardador de lã e pastor da igreja reformada nesta cidade. Neste tempo os escritos de Lutero estavam já chegando na França, exercendo grande influência sobre o pensamento destes homens. Mas os escritos que cativaram corações e mentes dos protestantes franceses viriam principalmente de Estrasburgo e Genebra, a cidade de João Calvino (1509-1564). A conversão de Calvino deu à Reforma um escritor capaz de
popularizá-la. Foi a perseguição aos protestantes franceses que levou Calvino a publicar a primeira edição das “Institutas da Religião Cristã”, em 1536,11 sua intenção era defender os cristãos franceses como pessoas leais e sugerir o fim das perseguições.12 Calvino, na realidade, liderou tanto os protestantes franceses como os de Genebra. Mais de 155 pastores, treinados em Genebra, foram mandados à França, entre 1555 e 1556.13
Para aqueles que não se convencem do caráter missionário da obra de João Calvino em
Genebra, basta consultar o “Registro da Companhia dos Pastores”, principalmente o período de 1555 a 1560.
10 Ibid., 115.
11 A primeira edição surgiu em Basiléia, no ano de 1536. Era um livro de 516 páginas, porém de formato pequeno, de modo que cabia facilmente nos amplos bolsos que se usavam antigamente, e podia circular dissimuladamente pela França. Constava de apenas seis capítulos. Os primeiros quatro tratavam sobre a lei, o Credo, o Pai Nosso e os sacramentos. Os últimos dois, de tom mais polêmico, resumiam a posição protestante
com respeito aos “falsos sacramentos” romanos e a liberdade cristã. O êxito desta obra foi imediato e surpreendente. Em nove meses se esgotou a edição, que, por estar em latim, era acessível a leitores de diversas nacionalidades. Calvino con tinuou preparando edições sucessivas das Institutas que fo i crescendo segundo iam
passando os anos. Foram editadas cerca de nove vezes, sendo que as últimas edições datam de 1559 e 1560. Na edição final de 1559, ela alcançou 1500 páginas! Uma olhada no esboço desta obra nos mostra um resumo de sua teologia, que seguia o padrão do Credo dos Apóstolos. Volume 1: “O conhecimento de Deus, o Criador” – o conhecimento de Deus, Escrituras, Trindade, criação e providência; volume 2: “O conhecimento de Deus, o Redentor” – a queda, o pecado humano, a lei, ob AT e o NT, Cristo, o mediador, sua pessoa (profeta, sacerdote e rei) e obra (expiação); volume 3: “O modo pelo qual recebemos a graça de Cristo, seus benefícios e efeitos” – fé
e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, oração, predestinação e ressurreição final; volume 4:
“Os meios externos pelos quais Deus convida-nos à sociedade de Cristo” – Igreja, sacramentos e governo civil.
Ver Timothy George , Teologia dos Reformadores (São Paulo: Vida Nova, 1993), 176-179.
12 Em sua “Carta ao Rei Francisco I”, “mui poderoso monarca, cristianíssimo rei dos franceses”, João Calvino diz: “Quando inicialmente, lancei mão da pena para escrever esta obra, meu principal objetivo, ó Mui Preclaro rei, era o de escrever algo que, depois, pudesse ser apresentado diante de tua majestade. Meu objetivo era o de
apenas ensinar certos rudimentos em função dos quais fossem instruídos, na verdadeira piedade, todos quantos são tocados por algum zelo de religião. Resolvi fazer este trabalho principalmente, por amor aos nossos compatriotas franceses, muito dos quais eu via famintos e sedentos de Cristo, e a muito poucos, porém, eu via
imbuídos devidamente de conhecimento sequer modesto a respeito dEle. O próprio livro, composto de forma de ensinar simples e até chã, mostra que foi esta a intenção proposta”. João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã – Vol. I (São Paulo: Casa Edito ra Presbiteriana, 1985), 13.
13 Pierre Courthial, “A Idade de Ouro do Calvinismo na França” in: Stanford W. Reid, (ed.), Calvino e Sua Influência no mundo ocidental, (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990), 88. A influência de João Calvino se estendeu a vários países, tais como a Suíça, França, Países Baixos, Alemanha, Hungria, Polônia, Inglaterra
(tanto Anglicanos como Puritano s), Escócia, Estados Unidos (em três levas principais de imigrantes: puritanos, irlandeses-escocêses e holandeses), e segundo o h istoriado r canadense W. Stanford Reid, Calvino é considerado o fundador da cultura ocidental. Os principais fatores que contribuíram para que sua influência se espalhasse
tanto foram: pregação: ela era fundamental na exposição e na comunicação de Calvino; sua atuação como professor na Academia de Genebra; ter conquistado a lealdade quase feroz de uma ampla variedade de tipos de personalidade; volumosa correspondência com homens e mulheres de toda a Europa; seus escritos formais: ele deu um enfoque teológico mais amplo e sistemático ao que escrevia. Para mais informações sobre o impacto de Calvino na cultura ocidental, ver Stanford Reid, “A propagação do calvinismo no século XVI” in: Stanford W. Reid, (ed.), op. cit., 35-59. 1562. 14 Os nomes mencionados chegam a 88, enviados - sob pseudônimo, a maioria - para quase todos os campos da Europa. Mas muitos nomes, por medidas de segurança não são mencionados, e por outras fontes, no ano de maior envio, 1561, o número de missionários chega a 142, mais do que muitas forças missionárias atuais.15 Muitas pessoas buscam encontrar declarações missionárias taxativas de Calvino, e sobre isto, R. Pierce Beaver, que serviu como missionário e professor na China, afirmou:

Conquanto Calvino não houvesse explicitamente exortado as igrejas reformadas a
desenvolverem missões, ele certamente não era hostil à evangelização mundial. Na
verdade, sua teologia logicamente chama para uma ação missionária, apesar dele não
ter anunciado isto. Passagens isoladas dos Comentários de Calvino sustentam
fortemente a idéia de missões. Por exemplo, Calvino declara que “não existe pessoas e
nem classe social no mundo que seja excluída da salvação, porque Deus deseja que o
evangelho seja proclamado a todos sem exceção. Agora a pregação do evangelho dá
vida, e por isso... Deus convida todos igualmente a participar da salvação” (Com. I
Tim 2.4).16

O Período Heróico.

Neste tempo os protestantes franceses começaram a ser chamados de Huguenotes, uma
palavra de origem obscura, que começou a ser usada como título honorífico, pelos mesmos. A fé reformada, semeada inicialmente pelo testemunho e martírio de muitos, espalhou-se entre o povo, e se manifestou na teologia e na filosofia, nas ciências e nas artes, na cidade e no campo, na vida familiar e profissional e até mesmo na política. Esta mesma fé se fez presente em todas as classes sociais - camponeses e nobres, burgueses e artistas.
Desta forma contava, já nesta época, entre os protestantes franceses, Margarida de
Angouleme, irmã de Francisco I e esposa de Henrique, rei de Navarra. Conquanto nunca tenha feito uma pública profissão de fé, abrigou em sua corte vários reformadores em busca de refúgio, entre eles, Farel. As perseguições se tornaram ainda mais severas quando, em 24 de julho de 1539, Francisco I as reforçou, promulgando um édito, mas o rei veio a falecer em 1547. Sucedeu-o Henrique II, que continuou as perseguições, mas as conversões só aumentavam. Entretanto, até 1555, não haviam igrejas reformadas organizadas na França. Foi neste ano, em 12 de julho de 1555, que a expedição de
Villegagnon saiu do Havre, com 600 pessoas. A igreja de Paris foi organizada em setembro de 1555.
Este foi um período de semeadura, pois as congregações se reuniam em assembléias clandestinas.
Nestas igrejas clandestinas, os novos crentes reformados encontravam-se para ler as Escrituras, orar e cantar Salmos, utilizando-se de qualquer pregador que estivesse em trânsito.
Tal situação foi uma das características da Igreja Reformada Francesa. Conquanto tenha recebido grande apoio de Genebra, foram poucos os clérigos franceses que se converteram à fé reformada. Por isto, um número muito maior de homens, de praticamente todas as atividades, exerceram “ministérios secretos” naqueles dias. A congregação de Paris, por exemplo, em 1540, escolheu como seu pregador Claude Le Peintre, um ourives viajante, que passou cerca de três anos em Genebra. Depois foi queimado na estaca. A congregação de Meaux escolheu um cardador, em 1546.17
De Genebra provinham principalmente as “Institutas de Religião Cristã”, escritos catequéticos, litúrgicos e polêmicos. Vários colportores foram queimados por espalharem as Escrituras em língua francesa, folhetos e livros de cânticos. Jean Crespin (1500-1572) em seu “Martiriologia ou Livro de Mártires”, completados com acréscimos, em 1619, pelo pastor Simon Goulart (1543-1628), conta a história de 789 martírios e menciona o nome de outros 2120 protestantes sentenciados à morte ou assassinados.
18 De 26 a 28 de maio de 1559 reuniu-se secretamente em Paris o primeiro Sínodo Nacional das Igrejas Reformadas, para “estabelecerem um acordo na doutrina e na disciplina, em conformidade com a Palavra de Deus”, segundo Theodore de Beza (1519-1605).19 Um pastor parisiense, François de Morel, presidiu este Sínodo, que reuniu representantes de sessenta das cem igrejas que existiam na França. O crescimento havia sido notável: em 1555 haviam somente cinco igrejas organizadas (Paris,
Meaux, Angers, Poitiers e Loudon)! Segundo Pierre Courthial, “não há dúvida de que se o flagelo das guerras religiosas não tivesse atingido o país, a França teria tornado predominantemente protestante”.20 Este Sínodo adotou uma confissão de fé e uma norma de disciplina, ambos influenciados pelos ensinos de Calvino. Os huguenotes chegaram a ter duas mil e quinhentas congregações em 1562!

Os huguenotes tornaram-se poderosos e bem organizados que formaram um reino
dentro de um reino. A compreensão desta situação pelo governo redundou na mudança
da política governamental de perseguição constante, feroz e sangrenta, adotada entre
1538 e 1559, para (a partir de 1562) uma política de guerra religiosa que levou a
França de volta a Roma.21

Quem comandava os protestantes nesta época era o Almirante Gaspard de Chantillon Coligny.
Filho de um marechal, foi feito “cavaleiro” pelo rei Francisco I, por causa de sua participação na Batalha de Cerisoles, na Itália. Desde os 22 anos Coligny fazia parte da corte francesa, tendo sido um protegido do Duque de Guisa até romper com este, por causa de sua conversão à fé reformada. Nesta época era o chefe do partido protestante francês e um dos mais respeitáveis homens de sua época. Foi ele que, no tempo de rei Henrique II, aos 36 anos, patrocinou o envio dos huguenotes para o Brasil.
Este é o pano de fundo do envio da expedição de Villegagnon ao Rio de Janeiro, e entendendo alguns fatores que explicam a expansão e influência da fé reformada, podemos passar à aventura que mais envolve e impulsiona a imaginação que foi o envio de dois homens (com um grupo de imigrantes franceses enviados por Coligny) através do Atlântico para o Brasil. O registro, para 1556, simplesmente diz, em um típico estilo com lacunas, que em 25 de agosto, terça-feira, Pierre Richier e Guillaume Chartier foram eleitos para ministrarem nas ilhas que haviam sido recentemente
conquistadas pela França um pouco adiante da costa brasileira e “foram então encomendados aos cuidados do Senhor e enviados com uma carta” da Igreja de Genebra.22 Este projeto testifica fortemente a visão abrangente de Calvino e seus colegas em Genebra em relação à obra missionária.Este é o contexto da época, e as motivações e motivadores que trouxeram os missionários huguenotes ao Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário