segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO - BOCA DOURADA


São João Crisóstomo»
ão João Crisóstomo nasceu na cidade de Antioquia. Cresceu no meio da multidão sem deixar-se contaminar por ela. Conheceu os pobres e desafortunados e soube amá-los como eram. Sua
família era culta e possuía muitos bens . O pai de João, oficial de alto
nível, morrera jovem.
Desde criança foi educado pela mãe, mulher admirável que, aos vinte anos, sacrificou sua juventude, renunciou a novas núpcias, para dedicar-se inteiramente a seu filho. João recebeu o
Batismo mais ou menos aos dezoito anos de idade.
Concluídos seus estudos de cultura geral, de retórica e de filosofia, de forma brilhante, renunciou a uma carreira que se apresentava promissora, para receber as ordens menores. Quis
partir para o deserto, mas sua mãe, que por ele sacrificara tudo, não
lho permitiu. Fugiu, então, da agitação de Antioquia e estabeleceu-se
fora das portas da cidade, a fim de encontrar a paz, consagrando-se à
ascese e ao estudo bíblico.
Antioquia era um centro teológico de grande reputação. João lá aprende de forma brilhante a exegese bíblica. Depois passou a viver nas montanhas entre monges uma vida austera a ponto de
prejudicar sua saúde. Após algum tempo nas montanhas, achou-se preparado
para enfrentar a ação missionária. O amor aos outros, mais do que sua
saúde abalada, fê-lo voltar a Antioquia, onde o bispo Melécio o ordenou
diácono, em 381.
Escreveu aos 34 anos o tratado sobre o Sacerdócio, que é conhecido e estudado até os nossos dias. Com 39 anos foi ordenado padre. Consagrou-se à pregação, substituindo o bispo, nas
homilias pois esse era pouco dotado para falar.
Durante doze anos, pregou ao povo contra o paganismo e tinha esperança de transformá-lo em gente de fé cristã. É dele a frase: "Basta um só homem, para reformar todo um povo."
Sua tarefa era séria. Precisava denunciar os abusos existentes no interior da Igreja e na sociedade; defender os pobres, clamar contra as injustiças sociais. Manteve ainda uma intensa
atividade literária, respondendo a todos os que lhe pediam conselho.
A maioria de suas homilias era comentários a respeito do Antigo e o Novo Testamento : explicou o Gênesis, comentou Isaías e os Salmos. O que fazia com mais agrado era pregar sobre o
Evangelho. Comentou longamente o de Mateus e o de João. São Paulo era
seu autor preferido: sentia afinidade com o Apóstolo dos gentios.
Cognominaram-no de o "novo Paulo".
Resta-nos, de João Crisóstomo, uma série de catequeses batismais, que preparavam os catecúmenos para o batismo. As últimas foram reencontradas em 1955, no monte Atos. João Crisóstomo era
um orador nato e igualmente um moralista que analisava os segredos do
coração em profundidade e com rara psicologia. O povo de Antioquia sabia
que João só repreendia para corrigir e para converter.
Inúmeras vezes João tomou a defesa dos pobres e dos infelizes, dos que morriam de fome e sede. Com veemência, João-Boca-de-Ouro ergueu sua voz contra os flagelos sociais, o luxo e a
cobiça. Lembrou a dignidade do homem, mesmo pobre, e os limites da
propriedade. Dizia: "Libertai o Cristo da fome, da necessidade, das
prisões, da nudez."
A fama de João ultrapassava as fronteiras de Antioquia e chegava à nova capital do império. Em 397, o bispo da capital, Nectário, que sucedera a Gregório Nazianzeno, acabava de
morrer. Intimado a comparecer à Capital do Império, foi eleito o Bispo
de Constantinopla, a Sé do Oriente. João começou uma grande reforma,
desembaraçando a casa episcopal do luxo, fazia suas refeições sozinho e
acabou com as recepções suntuosas. Reformou as ordens de vida dos
clérigos e dos monges, organizou a Reforma Litúrgica com a preocupação
de levar Deus aos homens pela Divina Liturgia.
O texto da Divina Liturgia (Santa Missa) que toda a Igreja Ortodoxa celebra em todo o mundo, é conhecida como sendo de São João Crisóstomo.
Empreendeu a evangelização das zonas agrícolas e esforçou-se para trazer à ortodoxia aos pagãos, que eram numerosos na região. Combateu as seitas heréticas com intransigência e
rudeza.
Em 402, São João Crisóstomo foi deposto e exilado acusado de não coadunar os interesses da Igreja com as do Império. O bispo foi detido em sua catedral, durante a celebração
pascal. Depois de uma palavra de despedida, João deixou a sua igreja que
jamais haveria de rever. O exílio foi penoso. João foi enviado para uma
aldeia, Cucusa, na fronteira com a Armênia.
A saúde do bispo achava-se enfraquecida. O clima era duro e desfavorável para o seu estado. A maior parte de suas cartas data dessa época. Este homem atingido em cheio pela provação
procurou mais consolar do que ser consolado.
No sofrimento, pensava nos outros. Finalmente morreu, no dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. Suas últimas palavras foram: "Glória a Deus por tudo."
Os contemporâneos descrevem-nos João Crisóstomo como um homem de estatura baixa, de rosto magro, de testa enrugada, de cabeça calva. Tinha voz fraca. As austeridades
comprometeram definitivamente sua saúde. Não falava para ser escutado,
falava para instruir, exortar, reformar, preocupado com o combate aos
costumes pagãos e com a instauração da moral do Evangelho. Era um
reformador, um missionário. Se não era um teólogo original, era um
pastor incomparável. Sua pregação desempenhou na liturgia bizantina o
mesmo papel que a de Agostinho no Ocidente. Ele foi lido, copiado,
traduzido, imitado. De todos os Padres da Igreja, São João Crisóstomo é
aquele cuja pregação menos envelheceu. Sua pregação moral e social
parece escrita hoje.
A honra da Igreja consiste em contar com homens, como João Crisóstomo, que não pactuaram com o poder, com o dinheiro, e que souberam tomar o partido dos pobres. Toda a fé deste
homem exprime-se em sua palavra. E esta palavra vive sempre.
Fonte:
Hamman. Os Padres da Igreja. Ed Paulinas, 1985
Spaneut, Michel. Os Padres da Igreja. Ed Loyola. 1999

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