terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um Entendimento Bíblico do Inferno

Um Entendimento Bíblico do Inferno

por

Matt Perman








“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado...” (João 3:17-18). A Bíblia ensina que toda pessoa é culpada de pecado. Pecado é escolher antes o nosso próprio caminho do que o de Deus; é rebelião contra Deus; e num sentido real é um ataque contra a santidade de Deus. Porque Deus é justo e reto, bem como amoroso, Ele não pode meramente fazer vistas grossas para o nosso pecado. Poderia Deus ser realmente justo se Ele não fizesse nada sobre os ataques contra Sua santidade?

A Bíblia ensina que nossos pecados merecem a penalidade de morte. Visto que todos pecaram, isto significa que todos são merecedores do julgamento de Deus no inferno. Por causa do Seu amor, Deus enviou Seu Filho Jesus para nos salvar deste julgamento. Ele morreu na cruz em nosso lugar para pagar a penalidade de nossos pecados. Sendo julgado em nosso lugar, Jesus satisfez a justiça de Deus e fez possível para nós o receber o perdão [NT: isto é, Deus não poderia perdoar sem uma satisfação da Sua justiça].

Deus fez tudo que era necessário para nos resgatar da penalidade de nossos pecados. Nós temos a responsabilidade de responder à livre oferta de perdão de Deus voltando-nos de nossos pecados e confiando em Jesus para nos perdoar e nos dar a vida eterna. A penalidade para os nossos pecados deve ser paga. Aqueles que não aceitam a Jesus e Sua obra sobre a cruz devem pagar, eles mesmos, esta penalidade no inferno por toda eternidade.

O assunto do inferno é deveras muito difícil e aterrorizador. Todavia, ele é um claro ensino da Bíblia e necessita ser entendido; não podemos ignorar os fatos sobre algo que Deus revelou simplesmente porque ele é desconfortável. Este artigo foi escrito para encorajar nosso entendimento e para esclarecer muita confusão sobre este importante assunto.

O Inferno é Real

Jesus repetidamente advertiu sobre o inferno. Por exemplo, veja Mateus 5:21-22, 27-30; 23:15,33. Negar a existência do inferno é, portanto, rejeitar a autoridade de Jesus. Seria estranhamente inconsistente aceitar Jesus como Senhor, mas rejeitar um aspecto de Seu ensino. Além do mais, isto seria colocar uma gigantesca falha moral no caráter de Cristo, se Ele ensinasse sobre a realidade do inferno quando na verdade ele não fosse um perigo para ninguém. Deve ser entendido, contudo, que Jesus não quer que as pessoas vão para o inferno – Ele veio para que pudéssemos ser resgatados através da fé nEle. O inferno é a conseqüência necessária de não aceitar o convite de Cristo para salvação – se alguém recusar estar com Ele no céu, a única alternativa restante é estar separado dEle no inferno.


O Inferno é um Lugar

O inferno é sempre referido como sendo um lugar. A palavra grega usada para inferno nos Evangelhos é gehenna, uma transliteração da expressão hebraica, “Vale de Hinon”. Neste vale (que estava localizado fora de Jerusalém), sacrifícios humanos foram oferecidos aos falsos deuses em vários pontos na história de Israel (2 Reis 16:3; 21:6; 2 Crônicas 28:3; Jeremias 32:35). Mais tarde ele se tornou um “depósito de lixo” de Jerusalém, com um fogo que continuamente queimava consumindo seu entulho. Quando Jesus usou gehenna para se referir ao inferno, isto chamou a atenção dos seus ouvintes para este vale, e eles entenderam o terrível sofrimento que os ímpios experimentariam.

O Inferno é um Lugar de Castigo

Na conclusão de uma parábola, Jesus falou do servo fiel como sendo recompensado, mas disse que o infiel como sendo “cortado pelo meio e separado num lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 24:51). Ambos os Testamentos falam de “cortar pelo meio” como um castigo severo (Deuteronômio 32:41; Hebreus 11:37). Jesus provavelmente não quis dizer que os perdidos serão literalmente “cortados pelo meio”, mas estava usando a expressão para dizer que eles seriam castigados. Algumas passagens adicionais sobre o terrível castigo do inferno são Hebreus 10:29; 2 Tessalonicenses 1:8,9; Apocalipse 19:20; 20:10. Neste ponto, deveria também ser observado que as imagens de fogo no inferno não devem ser tomadas com um literalismo grosseiro, mas são descrições de terror e sofrimento do inferno com uma linguagem do presente mundo.

Há dois aspectos do castigo no inferno – a dor de perda e a dor de sentir. A dor de perda é a ausência de tudo que é bom; mais significativamente é a separação de Deus. Isto não quer dizer que Deus não está no inferno; significa que aqueles no inferno não terão comunhão com Deus e não experimentarão nada de Seu amor, graça ou benção. Em outras palavras, eles serão isolados de qualquer gozo de Sua glória espetacular. Este é o significado da imagem de trevas usada para descrever o destino dos perdidos. Aqueles no inferno experimentarão a ira e a justiça de Deus. A dor de sentir é o sofrimento do tormento no corpo e na alma – a adição de castigo indesejado. Ambos destes aspectos do inferno são transmitidos por Jesus em Mateus 25:41, quando Ele diz aos perdidos “Apartai-vos de mim [a punição de perda], malditos, para o fogo eterno [a punição de sentir – tormento] preparado para o diabo e seus anjos”. Resumindo, o castigo do perdido é a subtração de benção e a punição de sentir é a adição de tormento físico e espiritual. Nesta seção, investigaremos a punição de sentir. Depois, discutiremos a punição da separação.

Castigo envolve exposição à ira de Deus: Hebreus 10:27,31; Romanos 2:5; João 3:36.
Castigo no inferno será um resultado de exposição à ira de Deus. Embora Deus não esteja no inferno em graça e benção, Ele está lá em santidade de ira. João 3:36 diz “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece”. Apocalipse 14:9-11 diz que “Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão. Também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome”.

A ira de Deus é a justa afirmação de Sua santidade contra tudo que é impuro; ela resulta no castigo retributivo. Beber a “taça da ira de Deus” significa que o perdido sofrerá diretamente esta ira no inferno. Exatamente como a ira de Deus será experimentada, eu não sei (Romanos 1:18-32 e Judas 7 talvez dêem alguma visão parcial disto). O que é visto claramente é que aqueles no inferno serão atormentados por causa da ira de Deus. Uso de João das palavras “ira” e “sem mistura” mostram o terror de se cair nas mãos do Deus vivo. Devemos notar que Deus tolera pecado somente até quando Ele responde em ira.

Castigo envolve terrível dor: Mateus 13:30, 40-43, 49-50; 18:6-9; 24:51.
Em Mateus 13:42 Jesus diz “E lançá-los-ão [os incrédulos] na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes”. Alguns sustentam que a imagem de fogo significa aniquilação do ímpio. Mas Jesus não associa fogo com aniquilação, mas com dor “ranger de dentes”. Cinco vezes em Mateus Jesus descreve aqueles no inferno como pranteando e rangendo os dentes; as pessoas estão “rangendo os dentes” por causa da terrível dor (veja Mateus 8:12; 13:42,50; 22:13; 24:51). Jesus fala do fogo causando dor, não consumação (veja também Mateus 13:49-50).

Castigo envolve consciente tormento: Apocalipse 14:10,11; 20:10; Lucas 16:23, 28.
Temos visto muitas passagens das Escrituras indicando a terrível dor e tormento do castigo no inferno, que resulta da exposição à ira de Deus. Quase não se precisa dizer que isto tudo será experimentado conscientemente pela pessoa (de outra forma não seria castigo), e isto é confirmado pela famosa parábola de Jesus do homem rico e Lázaro em Lucas 16:19-31. O homem rico, que tinha sido ganancioso e nunca tinha se arrependido de seu pecado, foi para o Hades e experimentou tormento após a morte. Este homem estava ciente e consciente do tormento, a ponto de dizer “Estou atormentado nesta chama”.

Craig Blomberg, um especialista no estudo de parábolas, diz que devemos derivar um ponto a partir de cada personagem principal numa parábola. Tomando os princípios de interpretação de Blomberg, podemos traçar muitos ensinos significativos desta parábola. Primeiro, como Lázaro, haverá vida com Deus para o povo de Deus. Segundo, o impenitente experimentará julgamento irreversível como o homem rico. Note que Jesus deixa claro que não há segunda chance após a morte, mas em vez disso, haverá um abismo intransponível entre céu e inferno (16:26). Terceiro, Deus adequadamente Se revela através das Escrituras de forma que ninguém que negligencia esta revelação pode legitimamente protestar contra o seu destino.

Robert Stein, outro erudito em parábolas, ensina “a regra da tensão final”. Isto significa que Jesus guarda a idéia principal da parábola para o final, a fim de deixar a parte mais significativa nas mentes de Seus ouvintes. O ponto final nesta parábola é que a palavra de Deus é necessária e suficiente para salvação – negligenciá-la é cometer “suicídio espiritual”. A parábola termina com a declaração, “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (16:31). O interesse principal de Jesus parece ser trazer a atenção à severidade de se ignorar a mensagem da Bíblia.
O Inferno é um Lugar de Separação

Tendo examinado o castigo de sentir no inferno, examinaremos o segundo aspecto do horror do inferno – exclusão de Deus e dos outros.


De Deus: Efésios 2:12; 5:8; Romanos 6:23; Mateus 7:23; 8:12; 2 Tessalonicenses 1:8, 9; Judas 13
Em Mateus 7:23 expressa uma das palavras mais chocantes da Bíblia. Tendo advertido dos falsos profetas que parecem bons exteriormente, mas cujos pecados no final das contas os separará, Jesus se volta para o assunto dos falsos discípulos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. Quão terrível será que estas pessoas esperando ganhar entrada no céu no dia do julgamento, somente descobrirão que elas nunca estiveram realmente em comunhão com Jesus. Isto deveria ser um chamado para seriamente examinarmos a nós mesmos e “ver se estamos na fé” (2 Coríntios 13:5).

Mateus 25:30 diz que os perdidos serão “lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”. Ser lançado nas trevas exteriores simboliza ser excluído da gloriosa luz da presença de Deus, ou seja, é uma ausência de todo bem. O ranger de dentes simboliza o extremo sofrimento e remorso.
2 Tessalonicenses 1:7-9 diz, "Quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder em chama de fogo, e tomar vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus; os quais sofrerão, como castigo, a perdição eterna, banidos da face do senhor e da glória do seu poder”. Aqueles que não conhecem a Deus serão excluídos de Sua presença para sempre quando Cristo voltar.

Novamente, é importante notar que quando falamos daqueles no inferno como estando “separados” de Deus, isto não significa que Deus não está no inferno. Significa que os perdidos serão separados da comunhão com Ele – eles não experimentarão Sua gloriosa presença e amor, mas antes a Sua ira e desprazer.

De outros: Mateus 8:12; 22:13; 25:30; Judas 13; Apocalipse 22:14
Em Mateus 8:11-12 Jesus novamente declara que os incrédulos “serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”. Isto está em contraste aos muitos que “virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus”. Os perdidos serão lançados nas “trevas exteriores”, indicando isolamento e separação de tudo que é bom. E como mostrado pela exclusão do banquete, os incrédulos serão excluídos dos gozos do céu e da presença de outras pessoas. Mateus 22:13 e versos seguintes listam descrevem ainda mais o inferno como um lugar de trevas e separação.

O Inferno é um Lugar de Profundo Lamento

Sete vezes é dito que “haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 8:12; 13:42, 50; 22:13; 24:51; 25:30; e Lucas 13:28). O pranto significa um grito profundo numa dor terrível, que resulta num profundo lamento.

O Inferno tem Graus de Sofrimento

Todos que estão no inferno não recebem o mesmo castigo. Embora todas pessoas estarão igualmente separadas de Deus (que é o castigo de perda), ninguém experimentará o mesmo castigo de sentir. Os graus de castigo são baseados sobre a quantia de luz recebida e sobre as obras da pessoa.

De acordo com a luz recebida
Um conhecimento maior de Deus traz consigo uma maior responsabilidade. Isto significa que quanto maior a quantidade de luz rejeitada, maior o julgamento. Isto é evidente em Mateus 11:21-24: “Ai de ti, Corazin! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se operaram, há muito elas se teriam arrependido em cilício e em cinza. Contudo, eu vos digo que para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, porventura serás elevada até o céu? até o hades descerás; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Contudo, eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para ti”. Aqueles de Cafarnaum teriam um julgamento mais severo porque tiveram mais luz. Este é talvez um conceito preocupante para aqueles de nós nos Estados Unidos, onde há pelo menos três vezes mais Bíblias do que pessoas.

Em Lucas 12:42-48 Jesus é também claro que haverá graus de castigo no inferno. No final de Sua parábola, Jesus distingue os castigos de “muitos açoites” e “poucos açoites” baseado sobre a quantia de conhecimento que os servos infiéis (que representam os perdidos) tiveram da vontade de seus senhores. Ele diz “O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado” (Lucas 12:47-48). O princípio básico é que “a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá” (v. 48).

De acordo com as obras
Paulo diz em Romanos 2:5 que os incrédulos estão “entesourando ira para si mesmos”. A palavra usada para ira nesta passagem é a mesma palavra usada quando Jesus encoraja os crentes para “ajuntar tesouros no céu” (Mateus 6:20). Assim como algumas pessoas têm mais tesouro “ajuntado no céu” por causa de sua obediência à Deus, assim também algumas pessoas têm mais ira “entesourada” para eles mesmos por causa de sua expressa desobediência e rejeição de Deus. Julgamento de acordo com as obras garante que o castigo “conforme o crime” e que o perdido será castigado em proporção com os seus pecados.

Satanás não Governa no Inferno

Um mal-entendido comum é que Satanás governa no inferno. De acordo com a Bíblia, isto não pode ser verdade porque o próprio Satanás será eterna e terrivelmente atormentado no Lago de Fogo. Ele não será capaz de atormentar ninguém mais lá, muito menos governar, por causa do terrível destino que ele estará experimentando.

O Inferno é Eterno

No julgamento, Jesus dirá para os incrédulos: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eteno preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Este verso mostra que o inferno não foi originalmente criado para os seres humanos, mas para Satanás e seus demônios. Por causa da rejeição da humanidade de Deus, aqueles que recusam vir a Cristo participarão do destino do diabo. Apocalipse 20:10 elabora ainda mais sobre o destino do diabo: “O Diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados pelos séculos dos séculos”. Visto que os incrédulos compartilharão o destino do diabo, e o diabo sofrerá o tormento no inferno para sempre, os incrédulos também sofrerão o tormento eterno. Também observe que Jesus disse que o fogo é eterno, o que não poderia ser dito se o inferno fosse somente temporário.

Mateus 25:46 é o mais claro testemunho de que as pessoas que estão no inferno sofrerão eternamente: “E irão eles [os ímpios] para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”. Jesus está traçando um paralelo entre os destinos dos ímpios e dos justos. Visto que ambos destinos são ditos ser eternos, “segue-se necessariamente que ambos devem ser tomados ou com um lugar de longa duração mais finito, ou ambos como um lugar sem fim e perpétuo. As frases ‘castigo eterno’ e ‘vida eterna’ são paralelas e seria um absurdo usá-las numa e mesma sentença para significar: ‘Vida eterna será infinita, enquanto castigo eterno terá um fim’. Por conseguinte, porque a vida eterna dos santos será sem fim, o castigo eterno também...” [1]

Jesus assevera que no inferno “o fogo não se apaga” (Marcos 9:48). Quando o fogo consome seu combustível, ele desaparece. O fogo do inferno nunca desaparecerá porque o seu trabalho nunca é consumado. Portanto, o fogo nunca desaparece porque o ímpio sofre eterno tormento no inferno, não extinção eventual.

A declaração do apóstolo João em Apocalipse 14:9-11 que os ímpios serão atormentados “com fogo e enxofre” refuta a reivindicação aniquilacionista de que o propósito do foto no julgamento é de dar fim à existência de alguém (O aniquilacionismo ensina que os perdidos serão um dia aniquilados no inferno e cessarão de existir). João é claro aqui que o propósito do enxofre é atormentar, não aniquilar.

Que a “fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre” (Apocalipse 14:11) também significa que os sofrimentos do inferno não terão fim. O aniquilacionismo ensina que João pretendia fazer uma distinção entre o fogo e a fumaça quando ele escreveu isso, e, portanto, ele não está dizendo que o castigo será eterno. É dito que embora a fumaça será para todo o sempre, o fogo não durará para sempre (mas somente até os ímpios serem extinguidos e cessarem de existir). Esta é uma séria distorção do texto. A fumaça não pode subir eternamente se não houve fogo para isso. Além do mais, não há indicação que João pretendesse distinguir entre a fumaça levantando para sempre, mas o fogo não durando para sempre.

Apocalipse 20:10 é claro que o Diabo, a Besta e o Falso Profeta perecerão eternamente em tormento: “Eles serão atormentados dia e noite para todo o sempre”. Visto que Jesus ensinou que os incrédulos compartilharão o destino do diabo e de seus anjos (Mateus 25:41), os incrédulos também serão atormentados para sempre. Apocalipse 20:15 também é claro que os incrédulos serão lançados no Lago de Fogo assim como o Diabo será.

Judas 7 diz, “Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se prostituído como aqueles anjos, e ido após outra carne, foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno”. Primeiro, note que o fogo é um castigo. Depois, observe que ele é eterno. Visto que o fogo denota castigo, e ele é eterno, então, o castigo deve ser eterno. Para aqueles que sustentam que o fogo indica que o ímpio será destruído, devemos notar que Judas claramente define o fogo como sendo um castigo para o ímpio, não um agente para extinguir a existência deles. Uma pessoa precisa existir para ser castigada.

O historiador eclesiástico inglês Richard J. Bauckham acrescenta sobre o uso de Judas de Sodoma e Gomorra como um exemplo terreno e temporal do destino daqueles no inferno: “A idéia é que o lugar das cidades...um cenário de devastação sulfúrica, provê uma evidência já presente da realidade do divino julgamento...De acordo com Philo [um escritor judeu do primeiro século] até estes dias os sinais visíveis do desastre indescritível são observados Síria – ruínas, cinzas, exofre, fumaça e chamas sombrias que continuam a se levantar do chão como se um fogo ainda queimasse lentamente embaixo’...Judas quis dizer que o lugar ainda em chamas é uma imagem de advertência do fogo eterno do inferno”. [2]

Judas 13 diz “Estes [falsos mestres] são ondas furiosas do mar, espumando as suas próprias torpezas, estrelas errantes, para as quais tem sido reservado para sempre o negrume das trevas”. O negrume, denotando completa separação e isolamento, é “reservado para sempre”; assim, ele não terá fim. Esta declaração é muito clara.

Jesus expele os iníquos para “o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). João diz que isto envolve ser atormentado dia e noite para sempre e sempre (Apocalipse 20:10). A Bíblia é clara – o inferno é eterno.


Os Estados Intermediário e Final

A última coisa que deve ser observada é que a Bíblia distingue entre o estado intermediário e o estado final. O estado intermediário é a separação do corpo e da alma de uma pessoa depois da morte, mas antes da ressurreição do seu corpo (a Bíblia ensina que tanto crentes como incrédulos experimentarão uma ressurreição do corpo). Este “estado intermediário” não é o purgatório, mas é a existência ou no céu com Deus (para os crentes) ou no Inferno excluído de Deus (para os incrédulos). O estado final é a existência dos crentes no novo céu na nova terra após a ressurreição, e para os descrentes a existência no Lago de Fogo (Inferno) depois de sua ressurreição.

A principal diferença entre o estado intermediário e o final é que durante o estado intermediário a pessoa não terá ainda o seu corpo ressuscitado, e no estado final todos terão seus corpos ressuscitados. O estado intermediário para os perdidos não é tecnicamente o inferno. O inferno é o Lago de Fogo após o retorno de Cristo e o Último julgamento. Contudo, os aspectos do inferno que previamente discutimos são verdadeiros tanto com relação ao estado intermediário como em relação ao estado final dos perdidos.

Sofrimento consciente (para os incrédulos) e benção (para os crentes) no estado intermediário é ensinado na parábola de Jesus do homem rico e Lázaro em Lucas 16:19-31. 2 Pedro 2:9 também ensina a existência consciente após a morte, mas antes do julgamento final e da ressurreição: “O Senhor sabe livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados”.
Conclusão

Robert Peterson resume o assunto quando ele diz que as imagens do inferno “chocam nossas sensibilidades. Elas apresentam um destino envolvendo absoluta ruína e perda (morte e destruição), eterna ira de Deus (castigo), indizível aflição e dor (pranto e ranger de dentes), terrível sofrimento (fogo), e rejeição por Deus e exclusão de Sua bendita presença (trevas e separação)”. [3]

Jesus morreu para nos salvar do inferno e nos trazer para o gozo eterno de Sua glória. Tudo o que precisamos fazer é nos voltar para Ele em arrependimento e fé, e Ele nos dará a vida eterna. Não há questão de maior importância nesta vida do que onde passaremos a eternidade.
Notas


NOTAS:

1. Augustine, The City of God, 1001-2 (21.23). Citado em Robert Peterson, Hell on Trial: The Case for Eternal Punishment.

2. Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, Word Biblical Commentary (Waco, TX: Word, 1983), p. 55. Citado em Peterson.

3. Robert A. Peterson, Hell on Trial: The Case for Eternal Punishment (Philipsburg, New Jersey: PR Press), p. 195. O livro de Peterson foi uma fonte primária para este artigo. É um excelente livro, saturado com as Escrituras, e escrito de uma maneira muito clara.

Uma Boa Notícia que Você Não Gostaria de Ouvir!

Uma Boa Notícia que Você Não Gostaria de Ouvir!
por
Kennede Soares

Jesus disse: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta” (Jo 15:2)
Que pensamento perturbador! Na interpretação de alguns professores da Bíblia, esse versículo quer dizer que, se você não der fruto, não pode ser cristão. Outros dizem que “cortar” significa que, se você persiste numa vida sem provas de salvação, pode perdê-la.
Mas você não acha que a frase “estando em mim” deva ser o ponto principal aqui? O Novo Testamento repetidas vezes descreve o cristão como estando “em Cristo” (por exemplo, 1 Cor 1:20; 2Co 5:17; Ef 2:20; Fil 3:9). Portanto, creio que se pode concluir com segurança que é possível estarmos “em Cristo” e ainda assim sermos como o ramo que não produz nenhum fruto por algum tempo. Se você é como eu, já passou uma semana ou meses vivendo de modo que sabe não estar produzindo fruto. Acredito que é isso que Jesus está dizendo.
Uma tradução mais clara da palavra grega AIRO, que em João 15 é traduzida como “cortar”, seria “tomar” ou “levantar”. Encontramos tradução acertada de AIRO, por exemplo, quando os discípulos “levantaram” doze cestas cheias de comida depois que os cinco mil foram alimentados (Mat. 14:20); quando Simão foi a “carregar” a cruz de Cristo (Mat. 27:32) e quando João Batista chama a Jesus de Cordeiro de Deus que “tira” o pecado do mundo (Jo 1:29).
Na verdade, tanto na Bíblia quanto na Literatura grega, AIRO jamais significa “cortar”. Assim, quando algumas Bíblias traduzem essa palavra como “tirar” ou “cortar” em João 15, é antes uma infeliz interpretação do que clara tradução.
“Levantar” sugere uma imagem de agricultor se abaixando para erguer um galho. Os galhos novos de uma vinha tem a tendência de ir para baixo e crescer perto do chão. Mas não produzem frutos ali. Quando os galhos crescem junto ao chão, as folhas ficam cobertas de poeira. Quando chove, ficam cheias de lama e mofam.
O galho adoece e fica inútil. E o que se pode fazer? Cortar e jogar fora? De jeito nenhum! O ramo é valioso demais para isso. Nós simplesmente passamos pela vinha com um balde de água à procura desses galhos. Nós os levantamos e os lavamos. Em seguida as enrolamos em volta da lata ou amarramos. Dentro de pouco tempo, estão vicejando.
Quando os galhos caem na terra, Deus não os joga fora nem os abandona. Ele levanta os galhos, os limpa e os ajuda a novamente vicejar. Para o cristão, o pecado é como a sujeira que cobre as folhas da parreira. O ar e a luz não conseguem penetrar. O galho fica inerte e o fruto não se desenvolve. Como o nosso Viticultor nos levanta da lama e da tristeza? Como ele retira nosso galho do estéril para o belo, para que possamos começar a encher nossas cestas? A resposta a essa pergunta é que se sua vida não produz frutos de forma constante, Deus intervém para discipliná-la.
Quando necessário, ele emprega medidas dolorosas para conduzí-lo ao arrependimento. Seu propósito é limpá-lo e libertá-lo do pecado para que você possa viver uma vida mais abundante para Sua glória. A Bíblia chama esse processo de disciplina ou correção. Eu o chamo de a melhor boa notícia que você não queria ouvir.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

TEORIA DAS 2 FONTES PARA OS EVANGELHOS DE MATEUS E LUCAS


A teoria das duas fontes

Essa proposta se baseia em duas colunas: Marcos é a base para Mateus e Lucas (Marcos foi o primeiro) e Mateus e Lucas fizeram uso do documento dos discursos (Q) e oincorporaram no seu evangelho. Além disso, os sinópticos ainda usaram outras fontes para o material exclusivo que apresentam.
Em favor de Marcos como o texto primitivo existem os seguintes argumentos:
1) Marcos é o mais curto dos primeiros três evangelhos. Por causa do enorme respeito que existia na igreja primitiva pelo santo texto dos evangelhos, é mais provável que tenha havido uma expansão do que um resumo do texto. Por isso o texto mais curto é o mais antigo.
2) Mateus e Lucas só se assemelham na estrutura, no conteúdo, na seqüência e na formulação do texto naquelas passagens básicas em que são paralelos a Marcos. Como exemplo disso servem os capítulos 4 e 5 de Marcos com os seus paralelos com os outros dois evangelhos.
3) Marcos apresenta pouco material que aparece somente no seu evangelho. O texto exclusivo de Mateus e Lucas se extende por vários capítulos.
4) Parece que, em comparação com Marcos, partes de Mateus e Lucas apresentam correções lingüísticas e de conteúdo. Às vezes Mateus e Lucas concordam nessas correções, às vezes não.
Alguns exemplos de correções lingüísticas: Marcos 2.4ss; 2.7 e paralelos. Exemplos de correção do conteúdo: Marcos 6.14 e Mateus 14.1; Marcos 2.15 e Lucas 5.29.
As conclusões dessas observações são: Mateus e Lucas conheciam o evangelho de Marcos e se basearam nele. Portanto, Marcos deve ser o evangelho mais antigo. Talvez tenha havido um “Marcos-primitivo”, no qual Lucas se baseou. Isso explicaria algumas diferenças entre Mateus e Lucas.
A favor do documento Q existem os seguintes argumentos:
1) Mateus e Lucas concordam — em parte literalmente — até nos textos que os dois têm a mais do que Marcos. Isso nos leva à conclusão de uma dependência literária na formulação do texto grego. Como exemplo compare Mateus 3.7-10 e Lucas 3.7-9.
2) Nos textos que Mateus e Lucas têm a mais do que Marcos não há só discursos de Jesus. Há também relatos dos atos de Jesus. Nesse aspecto, a designação “fonte dos discursos” é enganosa.
Exemplos: Mateus 4 comparado com Lucas 4; Mateus 8.5-13 e paralelos, 18-22 e paralelos; Mateus 11.1-19 e paralelos.
3) Nos relatos do sofrimento não é possível descobrir esses trechos. Aqui cada evangelista segue a sua própria linha.
4) Mateus e Lucas organizam o material de formas diferentes: Mateus apresenta os discursos em vários agrupamentos (Mt 5—7; 10; 13; 18; 24-25) e Lucas em dois blocos (6.20—8.3; 9.51—18.14). Isso mostra que os dois evangelhos não são completamente dependentes entre si, mas que se basearam em uma fonte textual comum.
Vamos resumir as conclusões sobre o documento dos discursos:
Provavelmente existiu uma versão dos discursos e dos atos de Jesus na língua grega, que Mateus e Lucas conheceram e usaram. Essa fonte se perdeu. Ela se tornou conhecida como o documento dos discursos. Como ele era em detalhes não sabemos. Conclui-se disso que os trechos de Mateus e Lucas em que eles se assemelham fortemente pertenciam a esse documento, enquanto Marcos não incorporou no seu evangelho essa tradição.
O documento dos discursos é, portanto, uma reconstrução literária baseada nosevangelhos que conhecemos. Não está comprovado como fonte documental.
Para complementar a teoria das duas fontes ainda é necessário um comentário sobre o material exclusivo que pode ser achado somente em Mateus ou somente em Lucas. Já não é possível saber se os autores dispunham de uma transmissão oral ou escrita desse material exclusivo. Mais frutífera é a reflexão sobre as ênfases teológicas dos textos exclusivos de cada um, pois esses textos nos dão indicações da mensagem que cada evangelista queria transmitir.
Seguindo a teoria das duas fontes, temos a seguinte figura para ilustrar a dependência entre os três primeiros evangelhos:
1.5 Críticas e alternativas à teoria das duas fontes
Após a sua formulação por H. J. Holtzmann em 1863, a teoria das duas fontes alcançou uma predominância rara na história da exegese, pelo menos no campo protestante da interpretação dos evangelhos. Segundo R. Riesner,15 a igreja católica foi a que por mais tempo se opôs a essa teoria. Ainda em 1912 um decreto da comissão bíblica papal declarou que “a teoria não tinha o apoio do testemunho da tradição e nem de argumentos históricos”16. Mesmo que oficialmente esse decreto não tenha sido revogado, após a segunda guerra mundial os estudiosos católicos do NT adotaram a teoria das duas fontes sem restrições.
R. Riesner diz: “Em 1960 parece ter vindo a vitória final. ‘O trabalho crítico sobre as fontes dos sinópticos chegou ao seu final com a teoria das duas fontes’ anunciou P. Vielhauer. E na Einleitung in das Neue Testament (Introdução ao NT) de W. Marxsen lemos: ‘A expressão teoria das duas fontes se afirmou tão fortemente na pesquisa que somos tentados a abandonar o termo teoria ( no sentido de hipótese). Pois, de fato, podemos considerá-la uma solução segura e definitiva… .’ Todo estudante de teologia estuda essa conclusão como segura e definitiva no seminário. Questionamentos e discussões sobre alternativas são perda de tempo. Até o padre que prepara exegeticamente um texto sinóptico para a pregação conta com essa solução segura e definitiva.”17
Será que uma teoria que conquistou a confiança tão grande dos estudiosos pode ser questionada seriamente? R. Riesner admite que sim ao entrar na discussão das críticas que foram levantadas a partir da metade dos anos 60.18 Não é possível fazer o detalhamento dessas críticas aqui. Vamos apresentar apenas as linhas gerais dessa posição para podermos entender as críticas levantadas.
Pesquisas matemático-estatísticas feitas sobre o problema sinóptico levaram a conclusões que estão questionando a teoria das duas fontes como única solução possível para o problema. Os estudiosos B. de Solages e R. Morgenthaler provaram que é possível imaginar uma dinâmica de uso e dependência entre os sinópticos bastante variada. Disso faz parte a solução que coloca Marcos como o mais antigo, mas apenas como uma solução entre muitas outras.19 O matemático francês L. Frey examinou a seqüência das perícopes, das frases e das palavras dos evangelhos sinópticos com métodos de eficiência comprovada em outros campos da ciência e concluiu que não é possível demonstrar a dependência direta entre os sinópticos. Melhor seria explicar a semelhança entre os sinópticos pelo fato de terem se baseado em uma variedade de fontes pré-sinópticas (cf. Lc 1.1-4).20
O argumento principal de Lachmann a favor de Marcos como o evangelho primitivo — o fato de que Mateus e Lucas concordam na seqüência das perícopes e da formulação das palavras naqueles textos em que são paralelos a Marcos — é discutido e questionado por vários estudiosos. Eles explicam esse fenômeno com outros aspectos da teoria da utilização:
R. Riesner cita ainda alguns critérios de pesquisa que podem ser aplicados à teoria de Marcos como o evangelho primitivo. Se for demonstrado que ela não pode ser sustentada, uma coluna da teoria das duas fontes cairia, e com isso a teoria toda. Os seguintes critérios entram em discussão:
A teoria de Marcos como mais antigo é questionável se:
— textos em Mateus e Lucas que diferem de Marcos não puderem ser explicados satisfatoriamente;
— no contraste com Marcos, Mateus e Lucas soarem muito semíticos na sua linguagem e mostrarem deteriorações no estilo;
— as diferenças de Mateus e Lucas com a versão de Marcos puderem ser entendidas como mais próximas da tradição oral;
— Marcos for menos judeu do que Mateus e Lucas;
— diferenças entre os sinópticos puderem ser explicadas como variantes de tradução do aramaico;
— Mateus e Lucas concordarem em oposição a Marcos (os chamados “minor agreements”, concordâncias menores).
Após aplicar esses critérios a diversos textos sinópticos, R. Riesner chega à seguinte conclusão: “A teoria das duas fontes tem a grande vantagem de simplificar consideravelmente o problema das fontes dos sinópticos e também de ser uma teoria facilmente aplicável. Talvez aqui esteja um grande motivo para a popularidade da teoria. … Na minha opinião, a teoria das duas fontes traz mais dúvidas do que respostas. Para maior clareza, deveríamos falar de uma hipótese das duas fontes. A procura por soluções que venham de encontro à diversidade de questões apresentadas pelo problema sinóptico ainda não chegou ao fim.”22
R. Riesner não é o único que tem essa visão crítica da teoria das duas fontes, o que fica evidente nas observações de K. Haacker:
“A teoria das duas fontes convence pela sua simplicidade. Mas isso não é argumentohistórico, e sim um convite para o comodismo. Ninguém pode dizer a priori que os procedimentos na origem dos evangelhos devem ter sido simples, pois não conhecemos processos literários comparáveis sobre os quais tenhamos melhores informações. Ao contrário, Lucas diz na introdução do seu evangelho ter conhecido e usado mais do que duas fontes. O problema sinóptico é, portanto, parecido com uma equação de um número desconhecido de variáveis. Não é aconselhável inventar, a esmo, ferramentas hipotéticas de auxílio para a solução do problema. Também não deveríamos ignorar a possibilidade da existência de outras fontes desaparecidas.”23
Será que após essas observações o leitor dos evangelhos sinópticos terá de ficar sem respostas sobre a história da sua origem? Será que os elementos que temos no NT, unidos às informações que temos da igreja antiga, não podem nos conduzir a conclusões mais convincentes do que as apresentadas para a teoria das duas fontes? Talvez a hipótese dos fragmentos (diegesis) não deveria ter sido abandonada tão rapidamente. Seja como for, no final do século passado o estudioso do NT Frédéric Godet apresentou uma alternativa para a teoria das duas fontes que merece reflexão.24
Em relação ao problema sinóptico ele se pronunciou no compêndio Bibelstudien (Hannover, 1878) e na sua Einleitung in das NT. O comentário sobre Lucas também mostra a sua posição sobre o assunto.
Ponto de partida para as reflexões de Godet é o conteúdo dos sinópticos, que ele tenta aceitar sem opiniões pré-concebidas. Para interpretar e explicar esse conteúdo, Godet faz uso das informações sobre o ensino e a pregação da igreja primitiva em Atos. Em contraste com muitos outros autores, ele tem grande respeito também pelas informações da igreja dos primeiros séculos sobre a autoria dos três primeiros evangelhos. A posição de Godet em relação ao problema sinóptico é caracterizada pela grande confiança na confiabilidade da versão sinóptica e por uma desconfiança profunda nas reconstruções da teoria das duas fontes por causa das contradições não resolvidas associadas a ela.
Com base nisso, Godet chegou às seguintes conclusões:
Desde o início existiu uma tradição apostólica das palavras e dos atos de Jesus. O “ensino apostólico” citado em Atos 2.42 não era afirmação teológica sobre Jesus Cristo, tendo em vista a simplicidade dos apóstolos. Essa tarefa ficou reservada principalmente para Paulo. No início, é verdade, o ensino apostólico era predominantemente transmissão das palavras e atos de Jesus. Pois esse era o critério para a escolha de um apóstolo: ele deveria ser testemunha ocular dos fatos da vida de Jesus (At 1.21).
Com isso Godet acredita que, já no início da história do cristianismo, os relatos das testemunhas oculares da igreja primitiva se desenvolveram e foram colocados em forma escrita.25
Pelo fato de se falar aramaico e grego na igreja primitiva (veja o conflito em At 6), era necessário que já no início os relatos das testemunhas oculares fossem traduzidos para o grego. Provavelmente existiu algo como a tradução grega autorizada da versão apostólica.
Godet reconhece em Mateus e Pedro os apóstolos transmissores dessa versão. Os pontos principais da versão formada por Pedro seriam os atos de Jesus na Galiléia e em Jerusalém. Com isso teria surgido a versão de Jerusalém na qual não só perícopes isoladas teriam se firmado, como também unidades de texto gregas mais extensas. Pedro teria transmitido essa forma básica da versão de Jerusalém nas suas viagens, e complementado com experiências pessoais da convivência com Jesus. Segundo as informações da igreja antiga, João Marcos o teria acompanhado nas viagens como intérprete. O evangelho de Marcos teria surgido com base nessas viagens e estaria baseado, por um lado, na tradição de Jerusalém, e por outro, nos acréscimos das experiências pessoais de Pedro. Godet, com isso, adota a informação transmitida por Papias sobre a origem do evangelho de Marcos.
A ênfase da versão transmitida por Mateus estariam nos ditos e discursos de Jesus (logia). Nesse sentido ele aceita a informação de Papias sobre Mateus. A forma básica dessa versão teria sido escrita em aramaico, pois essa era a língua que Jesus falava. Pelo fato de a igreja primitiva falar duas línguas, Mateus teria preparado uma tradução grega, que, segundo Godet, seria claramente perceptível nos discursos do evangelho de Mateus.
Essas versões dos apóstolos Mateus e Pedro teriam sido registradas por muitos em aramaico e em grego. Dessa forma também teriam surgido agrupamentos mais extensos de perícopes.26 Essas versões teriam formado a base da proclamação no cristianismo primitivo, como Lucas 1.1-4 claramente indica. Em outras palavras: no princípio da Igreja de Jesus Cristo existiam os fragmentos (diegesis), que foram editados pela igreja de Jerusalém até o ano de 50 d.C. Formavam o fundamento de ensino do cristianismo primitivo. Era de se esperar que também enfatizassem os escritos que chamamos de evangelhos.
No sentido acima, os fragmentos tiveram influência sobre os escritos de Marcos, pois este evangelista adotou a versão transmitida e ampliada por Pedro com as suas experiências pessoais.
O evangelho segundo Mateus recebeu o seu nome do fato de ter incorporado, além da tradição dos fragmentos de Jerusalém, as palavras de Jesus transmitidas pelo apóstolo Mateus. Não sabemos quem é o autor desse evangelho tão abrangente. Ele provavelmente vem do meio judaico, pois tenta demonstrar que a história de Israel se cumpre na vida, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.
O evangelho de Lucas está baseado em um discípulo de Paulo, de quem ele aprendeu o significado do evangelho para os gentios. Ele está fascinado por esse evangelho. Ele conhece a grande variedade das versões escritas da vida de Jesus, faz uma avaliação delas, aprofunda-se nas pesquisas, descobre fatos novos, que não tinham sido divulgados até então e coloca tudo numa redação própria, em que o evangelho para os gentios define o objetivo teológico do seu escrito (Lc 1.1-4).
Godet acredita que os três evangelhos surgiram na mesma época em três lugares diferentes e de forma independente um do outro: Marcos em Roma (64), Mateus no oriente (66) e Lucas na Síria (66). Até que ponto é possível comprovar essa suposição será discutido nos capítulos seguintes, em que trataremos cada evangelho separadamente.
No final da sua proposta. Godet deixa transparecer o que o orientou na busca por uma alternativa à teoria das duas fontes. É a questão da confiabilidade dos evangelhos. Na sua opinião, ela é questionada pela hipótese da utilização (dependência literária). É evidente que dessa perspectiva, apóstolos ou discípulos de apóstolos não são levados a sério como portadores de informações ou mesmo como autores dos evangelhos. Para reforçar essa posição, vemos em muitas introduções, a pergunta: Como o apóstolo Mateus iria buscar e depender de informações do discípulo de apóstolo João Marcos? Baseado ainda em outros argumentos, esse questionamento tem o resultado de pôr em dúvida a autoriade Mateus para o primeiro evangelho, o que contraria a posição da igreja antiga. Com isso a confiança de muitas pessoas nos evangelhos certamente foi abalada.
Se, no entanto, conseguimos provar que por trás dos evangelhos está a versão dos apóstolos, fortaleceremos a confiabilidade dos conteúdos a nós transmitidos. Também será mais fácil entender porque a concordância em todos os detalhes não era possível nem necessária. Com isso, os evangelhos ganham o caráter de relatos de testemunhas que, exatamente pela sua diversidade, se tornam tanto mais confiáveis.
O estudante do NT que está convencido da veracidade e da confiabilidade da transmissão bíblica dos fatos, saberá avaliar a proposta de Godet e usará as sugestões para a solução do problema sinóptico como estímulo para a reflexão mais profunda sobre o assunto. Isso porque as incertezas quanto à teoria das duas fontes são evidentes e é necessário buscar soluções alternativas. É preciso estar aberto para a possibilidade de uma forma modificada da hipótese dos fragmentos ser demonstrada como o modelo mais convincente de solução do problema sinóptico.
( Introdução e Síntese do Novo Testamento Gerhard Hörster )