sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Os cientistas têm que admitir que necessitam de uma fé, para reconhecer relações fora do mundo observável", afirma o teólogo Hans Schwarz...

"Durante longo tempo a teologia acreditou, na qualidade de rainha das ciências, ter uma reposta definitiva para todas as questões. Ela pensava ser onissapiente. Contudo essa arrogância irritou as outras ciências. Por isso a teologia foi deposta de seu pedestal, que as ciências naturais então ocuparam. Agora anunciavam, no lugar da teologia, saber a resposta certa para todas as perguntas da humanidade. Sua arrogância também foi desmacarada, e espalhou-se um ceticismo cada vez maior quanto às pretensões das ciências naturais."

O teólogo norte-americano Langdon Gilkey, falecido em 2005, fez este relato das relações mútuas entre teologia e ciências naturais durante um congresso reunindo ganhadores do Prêmio Nobel e teólogos.

A ciência não sabe tudo

Em especial os cientistas que se ocupam da pesquisa de base, por exemplo na física atômica ou na cosmologia, notam constantemente que duas novas questões se apresentam, tão logo hajam solucionado uma. Como demonstra o progresso científico, o que hoje parece definitivo estará superado amanhã, e relativizado por novos conhecimentos.

Apesar disso, necessitamos das ciências naturais a cada dia, sobretudo em sua forma aplicada, a fim de administrar nossa vida cada vez mais complexa. Estamos constantemente circundados pelos resultados das ciências aplicadas, da luz elétrica ao laptop, da geladeira ao automóvel. Sem eles, estaríamos mais ou menos perdidos.

Espada de dois gumes

Para que precisamos, além disso, da teologia, ou mesmo da fé? Não basta transformarmos em ações nossos conhecimentos fatuais, adquiridos através da ciência?

A ambivalência dessa idéia fica logo óbvia. Basta pensarmos na invenção da dinamite.

Por um lado ela permitiu construir gigantescos canais, como o do Panamá ou o de Suez, empregada para tirar os recifes. Por outro, através da dinamite e outros explosivos, as armas de guerra e terror ganharam um poder destrutivo muito superior ao das armas de mão, até então utilizadas.

Perda da inocência

Há mais de 200 anos, o filósofo Immanuel Kant advertia que nem todos os problemas se permitem solucionar através da experiência sensória, ou seja, do empirismo. Ao contrário dos empíricos britânicos, dentre eles David Hume, o filósofo alemão constatara que a razão humana e a experiência sensorial em que ela se baseia só podem devassar o mundo dos fenômenos.

No final de contas, as questões referentes a origem e sentido, também ao sentido de nossas ações, não podem ser respondidas a partir do mundo dos fenômenos. Elas se enquadram no campo do numinoso ou – como o denominava Kant – da metafísica.

Devido ao tremendo progresso das ciências aplicadas nos séculos 19 e 20, esse consenso foi se perdendo. Passamos a adotar o princípio de que tudo o que seja tecnicamente factível é também certo.

Mas o filósofo Karl Jaspers caracterizou com razão a crença na dominação técnica de nosso mundo como "superstição da ciência". Desde Hiroshima e Dresden, para não falar em Auschwitz, as ciências naturais perderam sua inocência.

Regiões limítrofes

Além disso, tanto no campo teórico como no prático, os cientistas esbarram cada vez mais em limites que exigem uma avaliação ética, ou mesmo metafísica. Assim, os médicos se confrontam diariamente com o impasse de como e sob que condições a vida deve ser preservada.

No terreno da cosmologia, coloca-se para os pesquisadores mais uma vez a questão sobre o início e o fim do universo. Se houve um big bang, então deduz-se que o universo não será eterno, como ainda se acreditava no século 19.

Também no tocante às supostamente "cegas" leis naturais, certos cientistas falam, para supresa de muitos teólogos, em um princípio antrópico. Este postula que as constantes básicas da natureza haveriam sido minuciosamente orquestradas de forma que, chegado o momento devido, o ser humano surgisse. Assim, a história do universo parece não haver transcorrido de forma tão aleatória como muitas vezes se quer crer.

Um outro fato, puramente prático, também nos ocupa: notamos cada vez mais claramente que os recursos naturais não são inesgotáveis. Porém a ciência não consegue nos responder de forma conclusiva como podemos lidar de forma responsável com nossos recursos.

Para além do empírico

Enquanto durante longo tempo a ética foi uma questão para a filosofia ou a teologia, desenvolve-se cada vez mais uma "ética da técnica", ou uma "ética da medicina", assim como um intercâmcio crescente entre teólogos e cientistas, no tocante a questionamentos metafísicos.

Quando os cientistas acatam os conselhos do teólogos, não é por que estes sempre saibam todas as respostas com exatidão. Mas sim por que muitas questões ultrapassam a competência dos pesquisadores, cujo procedimento se baseia nos princípios empíricos da ciência.

Onde ambos se encontram

Teólogos e cientistas dialogam continuamente para, partindo de seus próprios campos de competência – seja o empírico, seja o metafísico –, refletir sobre problemas do presente e "questões últimas" e, dentro do possível, respondê-las.

Dessa maneira, o teólogo tem que estar familiarizado com os fatos científicos, assim como o cientista com os fundamentos da fé. E como este poderia estar alheio a tais problemas: todo cientista é também um ser humano e, como tal, constantemente confrontado, em sua existência, com as questões da fé.

Os cientistas devem admitir que precisam de uma crença, para estarem aptos a reconhecer as relações mais profundas, para além dos fatos puros e do mundo observável. Do mesmo modo, teólogos necessitam do saber detalhado fatual-científico, para que sua fé não definhe em ideologia cega.

Gostaria de concluir com uma citação do astrônomo e agnóstico norte-americano Robert Jastrow, que escreveu em 1978, em seu livro God and the Astronomers (Deus e os Astrônomos):

"Para o cientista que viveu dentro da crença no poder da razão, a história termina como um sonho mau. Ele escalou a montanha de sua ignorância e está prestes a alcançar o mais alto cume. Ao alçar-se por sobre a última rocha, é saudado por um grupo de teólogos, que lá estavam sentados há séculos."



Hans Schwarz é professor de Teologia Sistemática e Questões Teológicas Atuais, desde 1981, no Instituto de Teologia Luterana da Universidade de Regensburg. Entre seus campos de estudo estão a relação entre teologia e ciências naturais, e história da religião e da filosofia.
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Posted by Adilson Benevides on sexta-feira, junho 17, 2011  No comments »

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