quarta-feira, 14 de março de 2012

O QUE A BIBLIA DIZ SOBRE USOS E COSTUMES

Por Joelson Gomes

Muitas igrejas têm feitos todo tipo de proibições para com as mulheres nas questões de maquiagem e adornos. Com o argumento de que as irmãs devem ser simples como as pombas (Mt. 10:16), estas denominações proíbem e disciplinam qualquer vestígio de enfeites feitos pelas mulheres.

É comum escutarmos alguns irmãos falarem “minha igreja tem doutrina, lá mulher não usa maquiagem, brincos, pulseiras, etc.”. E falam isso com orgulho de pertencer a uma igreja que tem “doutrina”. O que há nessas afirmações é uma confusão entre as palavras “doutrina” e “costume”.

As vezes pessoas são disciplinadas em certas igrejas por usar ou praticar coisas que aquela igreja julga que é proibido nas Escrituras, quando na verdade é apenas um costume local.

Mas, você pode perguntar: existem passagens que mostram como os homens e mulheres da Bíblia se vestiam e o que usavam? Será que é correto hoje usar tudo o que eles usavam? A Bíblia aponta um padrão para a vestimenta e adornos cristãos? Podem os irmãos e as irmãs se adornarem ou é isso pecado? E aqueles versículos que estas pessoas citam para proibir o uso de enfeites o que querem dizer? Neste capitulo vamos estudar sobre este assunto com detalhes.

I- COSTUME E DOUTRINA.

1.a- Já foi dito aqui que muita gente faz confusão entre “costume” e “doutrina”, a primeira coisa que devemos fazer é definir estes termos, pois existe diferença.

· Costumes estão ligados a usos, a uma prática habitual particular, se baseiam na cultura e na moda vigente naquele tempo e lugar.

· Doutrina. No Novo Testamento, a palavra mais usada para doutrina é didachê e significa: ensino, instrução, tratado. Para uma idéia ser doutrina cristã, é preciso que ela esteja exposta por todo o texto sagrado, e seja válida para todos os cristãos, ou seja, não é apenas algo local ou circunstancial, mas universal.

Observe a diferenças entre doutrina e costume.

Quanto à origem: A doutrina é divina. O costume em si é humano.
Quanto ao alcance: A doutrina é geral. O costume em si é local.
Quanto ao tempo: A doutrina é imutável. O costume em si é temporário
1.b- A doutrina bíblica gera bons costumes, mas bons costumes não geram doutrina bíblica. Igrejas há que têm um somatório imenso de bons costumes, mas quase nada de doutrina. Isso é muito perigoso! Seus membros naufragam com facilidade por não terem a base espiritual da Palavra de Deus, se confiam nas próprias obras e acham que estão mais perto de Deus por não fazer ou não usar isso ou aquilo.

II- O QUE É VAIDADE.

2.a- Temos que definir também esta palavra e observar como ela aparece nas Escrituras Sagradas. É importante a gente se dar conta de que o termo ‘vaidade’, em português, não significa uma preocupação com a estética, como as pessoas pensam e usam a palavra dizendo: “ah, ela é cheia de vaidades!” O termo ‘vaidade’ em português provém do latim vanitas, o sentido básico desta palavra é: ‘em vão’.

1- Vaidade no Antigo Testamento.

a) No AT temos algumas palavras sendo usadas para vaidade. A expressão hebel (vaidade) usada no livro do Eclesiastes 1:2; 2: 11, indica: brevidade e ausência de substância, vazio (Jó 7: 16); coisa vã, que não produz efeito (Jó 9:29); engano (Jr. 16: 19; Zc. 10:2). [1] A The International Standard Bible Encyclopedia nos ajuda aqui com esta palavra e diz que as palavras “vão“, “vaidade“, “vaidades” são freqüentes na Bíblia. A idéia destas palavras é quase que exclusivamente de algo “vazio” e também “falsidade”.

1- A palavra mais traduzida por “vaidades“, ou “vaidade” no AT é hebel, que significa um “sopro de ar, ou da boca“, muitas vezes é aplicada à idolatria (Dt. 32: 21; 1 Rs. 16:13; Sl 31:6; Jr. 8: 19); aos dias do homem e ao próprio homem (Jó 7:16; Sl. 39: 5,11), e também aos pensamentos do homem (Sl. 94: 11); e a riqueza e tesouros (Pv. 13:11). No livro do Eclesiastes, onde a palavra ocorre muitas vezes, é aplicada a tudo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ec. 1:2; 12:8).

2- Awen, que significa também “sopro“, é também traduzida por “vaidade“, mas em conexão com “iniqüidade” (Is. 58:9);

3- Shaw é outra palavra freqüente, é traduzida por vaidade e tem também a idéia de “falsidade, maldade” (Êx.20:7, Dt. 5:11; Sl. 31:6).[2]

2- Vaidade no Novo Testamento.

a) A palavra “vaidade” não ocorre freqüentemente no NT, mas em At. 14:15 temos a palavra grega mataios,[3] “vazio“, traduzida como “vaidades” (de ídolos); encontra-se também mataiotês, como “transitoriedade” (Rm. 8:20): “A criação ficou sujeita à vaidade (fragilidade, transitoriedade). É traduzida também como “vazio”, “loucura” (Ef. 4:17; 2 Pd. 2:18).[4] Observe que nenhuma vez estas palavras estão sendo aplicadas a questões de se maquiar ou usar certos adereços como brincos, pulseiras, etc.

III- O QUE OS HOMENS E AS MULHERES DA BIBLIA USAVAM?

Os homens e as mulheres da Bíblia se enfeitavam e não era pouco. Eles usavam muitos adornos em várias partes do corpo. A seguir listamos alguns:

3.a- Os homens usavam:

· Anéis e colares (Gn. 41: 42; Ex. 35: 22; Et. 8: 2; Dn. 5: 29; Lc. 15: 22);

· Brincos (Ex. 32:2-3);

· Braceletes (Ex. 35: 22; 2Sm. 1:10);

3.b-As mulheres usavam:

Pendente, pulseira (Gn. 24: 22, 47);
Braceletes, colares (Ez. 16: 11);
Brincos, coroa na cabeça (Ez. 16:12);
Anéis no tornozelo (Is. 3 18);
Cadeias para os passos (Is. 3: 20).
3.c- Observe com atenção que as mulheres e os homens da Bíblia usavam muitos enfeites, não havia a concepção de pecado para tal prática. Todos podiam usar os seus adornos, se vestir bem e se enfeitar para o dia a dia. Nas Escrituras isto nunca foi proibido. A relação de Deus e do povo de Deus com as jóias na Bíblia é muito interessante, preste atenção nessas passagens a seguir:

· Êx. 3: 21-22- Deus diz que quando os israelitas saíssem da escravidão no Egito pedissem aos egípcios jóias e roupas para seus filhos usarem. Isso não aconteceria se os israelitas não usassem jóias e se Deus fosse contra as mesmas.

· Êx. 35 4-5, 20-22, 30- 36:3- Veja que os objetos do Santuário que Deus mandou Moisés construir para ser sua casa de adoração, foram feitos cm as jóias do povo. Se jóias fossem algo pecaminoso Deus as usaria na Sua casa?

· Nm. 31: 50- aqui encontramos as jóias do povo sendo usadas como oferta expiatória para Deus. Deus aceitaria como oferta algo pecaminoso?

· Jó 42: 11- Como presente dos seus amigos após sua restauração Jó o homem justo e temente a Deus (Jó 1:1), recebe um monte de anéis. Para que isso se ele não usasse?

· Pv. 1:8-9- O escritor de provérbios compara o ensino dos PIS que é uma coisa muito boa, com diademas e colares, ou seja, compara com adornos, enfeites. Isto mostra que para ele os enfeites eram coisas importantes e boas. E não podemos esquecer que ele escrevia inspirado pelo Espírito Santo.

· Pv. 25:12- Uma pessoa sábia é comparada com jóias e brincos de ouro.

· Is. 61:10- Jerusalém é representada como se fosse uma mulher,que está recebendo as bênçãos de Deus (3), e estas bênçãos são comparadas com enfeites, com as jóias de uma noiva.

· Ez. 16: 1-14- Este texto é maravilhoso e esclarecedor. Deus compara Jerusalém com uma mulher, e como se Ele fosse um esposo que está feliz com sua mulher, lhe dá todo tipo de jóias, e ainda diz que ela enfeitada está com a gloria dele refletida (14).

· Ap. 21: 1-2- a Nova Jerusalém, que é um símbolo da Igreja glorificada, é comparada a uma noiva quando se enfeitava para o casamento.

3.d- Será que se as jóias fossem algo que Deus abomina e que os cristãos não deveriam usar o Senhor faria as comparações que acabamos de ler em sua Palavra, e daria e receberia as mesmas de seu povo? É óbvio que não. Todas estas passagens mostram que nas Escrituras nada existe de proibições com respeito as jóias, e que o povo da Bíblia as usava normalmente.

IV- E AQUELE TEXTO?


Existem alguns textos que são muito usados por algumas pessoas para condenar o uso de jóias pelos cristãos, a pergunta é: o que estes textos querem dizer? Vamos analisá-los.

4.a- Is. 3: 16-26 – As vezes alguns mais desavisados também usam estes versículos para manter suas proibições. É um uso mal feito, pois aqui se estivesse proibindo as jóias para as mulheres, estaria proibindo também:

· Véus (19);

· Cintos (20);

· Anéis (21);

· Roupas caras, capas, bolsas (22);

· Espelhos, roupas de linho, xales (23);

· Perfumes, penteados, roupas caras (24).

Mas, logo se vê que as pessoas que usam esta passagem para proibir as jóias, não proíbem as outras coisas. Usam de dois pesos e duas medidas. O que este texto que dizer então?

4.b- É o seguinte: o profeta Isaías está dando uma sentença contra as mulheres de Jerusalém (16), dizendo que Deus iria tirar tudo o que cita delas, não porque aquilo fosse pecado, mas porque elas estavam cometendo outro pecado, o pecado da arrogância, do orgulho (16). A retirada de todos estes objetos delas seria uma forma de castigo, tudo seria parte do julgamento de Deus sobre Jerusalém da qual fala todo este capítulo 3. Temos aqui um fato circunstancial, referente a situação das mulheres de Jerusalém, um fato descritivo (descreve um acontecimento), e não prescritivo (não prescreve, nem ordena uma doutrina). Contrate esta passagem com Ez. 16: 1-14, onde Deus feliz com Jerusalém lhe dá jóias de todos os tipos e roupas finas como bênção. Tirar os ornamentos para o povo de Israel era sinal de tristeza (Ex. 33:1-6); receber ornamentos era sinal de bênçãos (Is. 61: 10; Ap. 21:1-2).

4.c- 1Tm. 2: 9-10; 1Pd. 3:1-4 – Estas duas passagens também têm sido usadas por alguns para proibir os adornos femininos, mas não é isso o que está escrito nelas.

1- No primeiro texto (1Tm. 2: 9-10) o apóstolo Paulo não está proibindo o uso de jóias, nem os penteados para as mulheres, ele está fazendo um contraste entre dois tipos de beleza, a interior e a exterior. Ele diz que a verdadeira beleza não deve está por fora, nas jóias e ornamentos que as mulheres usavam, mas por dentro, na espiritualidade, na santidade. A mulher não deveria pensar em se enfeitar e se esquecer da parte espiritual, deve fazer uma, mas faça principalmente a outra. Ele reflete sobre as prioridades do cristão, como em 1Tm. 4:8: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir”. É claro que Paulo não desaconselha o exercício físico, mas mostra que a pessoa deve se exercitar na santidade antes de tudo. Toda leitura de um texto assim deve ser feita com cuidado, levando em seu contexto, se não for assim iríamos achar que o apóstolo estaria proibindo o casamento em 1Co. 7:27: “Estás ligado à mulher? Não busques separar-te. Estás livre de mulher? Não busques mulher”, mas, não é isso que ele faz.

2- Na segunda passagem (1Pd. 3: 1-4), se Pedro estivesse lançando uma proibição contra o uso de jóias pelas mulheres, porque ele usa como exemplo de santidade as mulheres do AT (5-6)? Pois como já vimos, elas usavam muitas jóias. Ora, se Pedro tivesse aqui sendo contra o uso de jóias pelas mulheres, não usaria como exemplo quem as usava. Como entender o texto então? O que temos aqui são expressões idiomáticas como as seguintes:

· “Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito.” (Gn. 45:8). Veja no verso 4 que foram os irmãos de José mesmo que o venderam.

· “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocausto. Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus“. (Sl. 51:16-17). Mas veja o verso 19, e também Ex. 29; Lv.22: 17- 33, onde o próprio Deus é quem estabelece os sacrifícios.

· “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo. 6:27). Estaria Jesus proibindo o trabalho? É claro que não.

Quando os autores bíblicos escrevem assim, eles estão querendo colocar ênfase em certos detalhes que não podem ser esquecidos em certas práticas, mas não estão negando nada. Por exemplo:

· Em Gn. 45:8, José não estava dizendo que os seus irmãos eram inocentes se sua ida ao Egito como escravo, mas sim afirmando que ANTES dos irmãos dele fazerem o plano, Deus já havia feito.

· Em Sl. 51: 16-17, Davi não está dizendo que Deus não aceitava sacrifícios, pois o AT está cheio de ordenanças a este respeito (Lv. 1-7), mas está dizendo que ANTES de sacrifícios Deus queria o coração contrito.

· Em Jo. 6: 27, João não está dizendo que pessoas não deve trabalhar pela comida material, ANTES que se preocupe com a comida espiritual em primeiro lugar.

Portanto, nas duas passagens analisadas não há proibição do uso de ornamentos pelas mulheres, mas que ANTES elas saibam que a sua beleza deve está no interior, na vida espiritual dedicada, e não apenas no exterior, no que elas usam.

V- QUAL O CRITÉRIO DO CRISTÃO AO SE VESTIR E SE ADORNAR?

Depois de tudo o que foi dito fica a pergunta então devemos fazer tudo o que os homens e mulheres da Bíblia faziam; usar tudo o que usavam? Para responder a mesma temos que prestar atenção ao seguinte:

5.a- A Bíblia foi escrita em um determinado contexto e cultura onde havia muitos costumes diferentes dos nossos, assim nem tudo o que está na Bíblia é para fazer. Observe:

1- Gn. 16- Sara a esposa de Abraão, por ser estéril, dá empregada para que seu marido se deite com ela e gere um filho;

2- Ex. 21: 7- O pai podia vender a filha;

3- Ex. 21: 16,17 Lv. 20:9- Amaldiçoar ou ferir os pais era passível de pena de morte;

4- Lv. 23- Era obrigado celebrar as festas da Páscoa, Primícias, e o Dia da Expiação;

5- Dt. 21: 15-17- Homens podiam ter mais de uma esposa;

6- Dt. 21: 18- 23- Filhos desobedientes deveriam ser mortos;

7- Dt. 22:13-21- Mulher que casasse e ficasse provado que não era mais virgem deveria ser apedrejada até a morte;

8- Dt. 25:5-10- Se um homem casado morria sem ter deixado filhos, o seu irmão casava com sua esposa, era a lei do Levirato;

9- Dt. 26: 12-15- Quem dava o dízimo deveria fazer uma oração prescrita para todos.

Estes eram costumes do povo e da Lei de Israel, mas não são nossos. Ali eram aceitáveis, mas não são aceitáveis hoje, pois como já vimos costumes mudam de povo para povo e de época para época. Assim, devemos ao ler a Bíblia saber diferenciar o que é um costume local, que dentro daquela sociedade era permitido e aceitável, e o que não é aceitável em nossa sociedade.

5.b- Observe este fato interessante:

· 1Co. 11:4-16 – Em Corinto, era proibido as mulheres cortarem o cabelo, e os homens de terem os cabelos crescidos. Mas, em Israel era normal os homens terem longos cabelos (Jz. 13: 1-5; 2Sm.14:26);

· 1Co.11: 5- Aqui em Corinto as mulheres podiam profetizar e orar nos cultos, e profetizar também era ensinar (1Co. 14:31), mas em Éfeso onde Timóteo estava elas não podiam fazer nada disso (1Tm. 2:11-12). Acontecia assim porque estas duas cidades tinham costumes diferentes.

5.c- Todo cristão deve saber que deve respeitar a cultura na qual está inserido, se ela não fere a doutrina bíblica (1Co.10:32). Assim, no caso de usos e costumes devemos saber se tal costume no país em que vivemos é aceito ou não. Como a sociedade olha quem pratica tal coisa? Olha como cristão? Sendo práticos: homens de brincos no Brasil são vistos como cristãos pela sociedade? Mulheres com brincos pendurados no nariz são vistas como cristãs? Agora todos nós sabemos que a sociedade não vê nada de errado em uma mulher cristã se adornar com seu brinco na orelha, ou seu colar ao pescoço. A mesma coisa não existe discriminação em um homem usar um colar discreto.

5.d- Existem algumas coisas que devem ser observadas pelo cristão quando for se vestir e se adornar com seus enfeites. Não se deve usar tudo que a moda oferece, quando se for usar algo se deve fazer algumas perguntas:

· Isto que estou usando serve para a glória de Deus (1Co. 10:31)?

· Isto que estou usando me faz ser causa de escândalo para crentes ou descrentes (Rm. 14: 13-16,21; 1 Co.10:32)? Muitas coisas podem não ser pecado, mas para evitar o escândalo não devemos fazer (1Co. 10: 23-31);

· Isto que estou usando mostra que sou santo (1Pd. 1: 14-15)?

· Isto que estou usando Jesus usaria (1Jo. 2:6)?

· Isto que estou usando mostra que meu corpo é templo do Espírito Santo (1Co. 6:18-20)?

O cristão deve adotar a modéstia em todo o seu procedimento, se não adota o comedimento saiba que peca. O bom senso deve ser praticado pelos crentes no que usam como trajes ou adornos, sob pena de fazer do templo de Deus que é o seu corpo, um templo profano. Ao usar uma roupa ou adorno pense sempre no outro, e se aquilo está escandalizando o nome de cristão ou não. Que tipo de templo você é?

CONCLUSÃO:

a) As Escrituras estão fartas de textos que provam que os adornos eram usados pelo povo de Deus, não eram proibidos. Alguns tentam usar a Bíblia erradamente para tentar proibí-los, alegando que tudo isso é vaidade. É bom notar que na bíblia a palavra vaidade nunca esteve ligada ao uso de adornos pelas pessoas.

b) Os cristãos estão livres para se adornarem, mas observando o principio da modéstia. Devem saber que são diferentes, que devem ser santos. Se o que usam os transforma em motivo de escândalo ou de descrédito para com sua vida espiritual, estão em erro. Glorificar a Deus com seu corpo este é o critério básico para o comportamento cristão. Faça isso.

APÊNDICE:

a. Dt. 22: 5 – Igrejas têm usado esta passagem para condenar o uso de calças compridas por mulheres. A explicação que dão é que calças são roupas de homem, e, portanto, são proibidas aqui para as mulheres. O que estas pessoas não dizem é que na época em que este texto foi escrito as roupas eram semelhantes para homens e mulheres. Os judeus todos usavam vestidos e túnicas, homens e mulheres, a distinção dos sexos não estava no tipo de roupa, pois todos usavam vestidos, mas nos tamanhos e cores.

b. A palavra hebraica no texto que é traduzida por roupa é o hebraico “simlâh”, a mesma palavra que é traduzida por “capa’ em Gn. 9: 23. Esta palavra significa: capa, manto, envoltório, vestuário, de homem ou de mulher; especialmente uma grande roupa exterior. [1] Assim , o texto não se refere a calças, mas a estilos de capas, vestimentas que se distinguiam por tamanho, cores, detalhes, e não por tipo. Portanto, não se proíbe aqui o uso de calças por mulheres, pois se ela usa uma calça de modelo feminino não há problema, assim como na Bíblia os homens usavam vestido, mas de modelo masculino. O texto proíbe o travestismo, homem como mulher e mulher como homem.

c. Mt. 10: 16 – Este texto não fala nada sobre usos e costumes. Fala dos problemas que os apóstolos enviados por Jesus iam passar e Jesus está mostrando como eles deveriam enfrentar estes problemas. É só ler todo o capitulo 10 de Mateus. Portanto quem usa este texto para tentar falar de usos e costumes na igreja está falsificando as Escrituras.

[1] Veja: TREGELLES, Samuel Prideaux. Geseniu’s Hebrew and Chaldee Lexicon (Grand Rapids: Eerdmans, 1954), p. 791.

[1] EATON, Michael A. e CARR, G. Lloyd. Eclesiates e Cantares (São Paulo: Vida Nova, 1989), pp. 62-63.

[2] Disponível em: http://www.searchgodsword.org/enc/isb/view.cgi?number=T9052 Acesso 18/09/2009

[3] Esta palavra enfatiza algo vão, vazio. Falta de objetivos, o caminho que não leva para lugar nenhum. ROGERS, Cleon e RIENECKER, Fritz. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego (São Paulo: Vida Nova, 2006), p. 218.

sexta-feira, 9 de março de 2012

COSTUME NÃO É DOUTRINA

Costume não é doutrina

Em nossos dias, é muito comum observarmos vários costumes dentro de algumas igrejas evangélicas, tais como:

• Mulher não pode usar saia.
• Mulher não pode cortar o cabelo.
• Mulher não pode usar cosmético.
• Mulher não pode se depilar.
• Crente não pode ir à praia.
• Crente não pode jogar futebol.

Todos estes costumes são tratados como doutrinas; no entanto, vale salientar que:

• Costume é algo humano e que muda com o tempo. Por exemplo: antigamente, o homem usava chapéu como parte de sua vestimenta; hoje isso não é mais praticado em nosso país. Observe que costume é algo que varia com o tempo.

• Doutrina é algo bíblico e não muda com o tempo. Por exemplo: matar era pecado no Antigo Testamento e continua sendo pecado em nossos dias. Observe que doutrina é algo que não muda com o passar do tempo; é algo imutável.

Então, todos os costumes citados acima (e tantos outros que existem por aí) não são e nunca serão doutrinas. O que muitas igrejas chamam erroneamente de “cultos de doutrina”, são na verdade, “cultos de costumes”.

Eu já ouvi as seguintes justificativas (que não justificam nada) dos defensores destes costumes:

• Igreja que não tem “doutrina” (na verdade, não é doutrina, e sim, costume) é uma igreja de porta larga, que pode tudo. Irmãos amados, o fato de alguém não seguir os costumes citados acima, NÃO significa que este alguém esteja desviado e também não significa que ele (a) esteja freqüentando uma igreja do tipo “porta larga”. O comportamento e a conduta cristã não têm NADA A VER com os costumes citados anteriormente. Na realidade, as igrejas que adotam estes e tantos outros costumes, deveriam ler mais a Bíblia e parar com toda esta baboseira que nada tem a ver com as Escrituras. O que acontece nestas igrejas que dizem não ser de “porta larga” é o seguinte: os líderes destas igrejas DETURPAM as Escrituras e tentam justificar todos estes costumes citados acima, como se estes costumes fossem bíblicos. Pelo que me consta, deturpar as Escrituras é pecado e isso sim, deveria ser observado pelos defensores de costumes humanos. Para os defensores de costumes, eu digo o seguinte:

 E assim por causa da vossa tradição INVALIDASTES a Palavra de Deus (Mateus 15:6).

 Não julgueis pela aparência, mas julgai segundo o RETO JUÍZO. (João 7:24).

• A Igreja precisa dos costumes para manter a identidade denominacional. Esta é outra justificativa que eu já ouvi por parte dos defensores de costumes. Pelo que me consta, a identidade do cristão é o AMOR e não o fato de alguém usar ou não uma calça comprida, por exemplo. O cristão não tem de se preocupar em parecer com a sua denominação, e sim, se parecer com Cristo, no que se refere ao testemunho pessoal. Infelizmente, tem muita igreja ensinando suas ovelhas a se preocuparem mais com os costumes do que com a Palavra de Deus. Eu só tenho uma coisa para dizer a estes irmãos metidos a santos: vocês precisam ler mais as Escrituras e também precisam amadurecer mais espiritualmente. A meu ver, quem defende costume é superficial e é alguém infantil espiritualmente; ou seja, estas pessoas precisam olhar mais para o próprio umbigo e necessitam crescer mais no conhecimento da Palavra de Deus.

Eu gostaria de terminar este texto dizendo o seguinte: costume não é mandamento bíblico que precisa ser seguido e o que importa realmente na vida do cristão é o seu caráter e o seu testemunho diante do Senhor. Há pessoas que se preocupam com os costumes da igreja a que pertencem; eu prefiro me preocupar com o meu testemunho diante de Deus… a meu ver, é só isso que importa. Espero que tenham gostado deste texto e até o próximo estudo.

Por Bereshit

EU VI RASGAREM A BÍBLIA

Eu vi rasgarem a Bíblia!

Um dia um amigo me convidou para visitar uma igreja chamada “Igreja Global de Cristo Brasileira”. Fiquei um pouco desconfiado pelo nome do lugar, mas aceitei o convite.

Chegamos e fui surpreendido por sorridentes jovens bem aparentados, e aparentemente bem treinados que me fizeram lembrar daqueles vendedores que ao verem um cliente querem que você se sinta à vontade para deixar todo seu dinheiro ali.

Nos assentamos e na hora determinada, com um atraso irrelevante, começou uma música muito agradável aos ouvidos. Cantavam sobre como eu era importante e como Deus queria realizar todos os meus sonhos. Depois, cantaram outras que falavam coisas parecidas e também sobre a derrota dos meus inimigos.

Após esse momento, um pastor descontraidamente falando sobre a programação semanal da igreja ressaltou um evento que iriam fazer no carnaval. Confesso que fiquei muito interessado em ir. Ele também agradeceu ao grupo de voluntariado que auxiliava nas atividades eclesiásticas dando a eles um grande destaque; talvez, pra que eles se sentissem reconhecidos e continuassem atuantes.

Depois esse pastor chamou um outro, referindo-se a ele como seu grande amigo, o qual, ao assumir o microfone, passou a discursar. Muito interessante era o que ele falava. Dizia sobre como Deus era poderoso e me amava. Assim, bastava eu pedir qualquer coisa a Deus que Ele me daria, inclusive um carro novo, uma casa… Também disse que eu podia pedir uma Mercedes se tivesse fé, pois Deus realmente queria realizar meus sonhos! Eu nunca havia sonhado em ter uma Mercedes, mas diante dessa ousada palavra eu até pedi uma pra Deus, mas acho que me faltou fé, porque já faz uns meses e não consegui nada. Aliás, preciso voltar àquela igreja, pedir ao pastor pra orar por mim. Necessito de uma oração forte, pois acho que vou perder o emprego por faltar muito.

Continuando, o que mais me chamou atenção naquela pregação, é que em determinado momento o pastor pediu que abríssemos a Bíblia em I Timóteo capítulo três e rasgássemos esse capítulo da bíblia, pois ali falava que um pastor deve ser marido de uma só mulher. Com uma entonação adequada a um imperativo, esbravejou que aquela palavra não era de Deus! Podíamos rasgar essa parte, porque isso contradiz o texto que ele leu sobre o amor de Deus por nós. Ele disse que um Deus que é amor não irá fazer uma pessoa sofrer toda a vida com um casamento ruim. Esse Deus é pai e entende o divórcio, fazendo nova todas as coisas. Basta pedir perdão e casar de novo para sermos felizes. Terminou a pregação em tom emocional e deixou o púlpito ao som dos aplausos e lágrimas dos ouvintes.

Essa foi a primeira vez que fui naquela igreja. Achei bem confortável estar ali, as pessoas são legais e a mensagem não é nada fundamentalista como imaginava. O pastor é empresário e o outro que pregou tem umas ideias bem de acordo com a vida moderna. Como disse, vou falar com meu amigo que quero voltar lá.

Em minha opinião, essa história reflete a maioria das igrejas evangélicas do nosso país: igrejas que funcionam em lógica de mercado, com fim em si mesmas, com pregações contrárias à bíblia e promovendo o egocentrismo.

Nunca vi no Brasil um pastor rasgar a bíblia literalmente, mas vejo muitos fazerem isso em suas pregações quando, com discursos contrários à Palavra de Deus, vivem uma vida segundo seus próprios interesses.

Isso não é uma crítica pela crítica, escrevo com um coração quebrantado diante de tantas calamidades no meio gospel brasileiro. Não sou contra recepcionistas e introdutores, sou contra como eles são preparados a estarem ali para interpretar um papel que a igreja não está interessada a fazer. Sou contra o “grupo de voluntariado”, sou a favor do serviço cristão para glória de Deus, antigamente conhecido como ministério.

Sou contra pastores animadores de auditório, embora não veja pecado no riso e na descontração quando estas não são o centro da mensagem. Sou contra pastores que pregam autoajuda. Quero ir à igreja para ouvir somente a palavra de Deus. Não sou contra alguém ter um carro importado, sou contra falsos mestres ensinarem a Teologia da Prosperidade. Sou contra deturpações bíblicas e homens que ignoram as verdades da Escritura em benefício próprio.

O crivo bíblico pelo qual deve passar todo pastor para saber se está apto ou não para o ministério é o que encontramos em I Timóteo 3.1-7: Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo.

Sou a favor da bíblia e somente dela como padrão que rege nossas atitudes e percepções acerca do Cristo e da fé.

Também acredito que dentro dessas instituições humanas está a verdadeira e santa Igreja de Cristo, a quem o Senhor está vindo remir. A essa igreja dirijo esse texto, com o propósito de conclama-la a diligentemente se opor aos falsos mestres de nosso tempo.

Não acredito na possibilidade de outra reforma, seria absurdo algo do tipo na pós- modernidade… mas acredito em avivamento, que é melhor que qualquer reforma.

SOLA SCRIPTURA!

Por RICARDO COELHO MOREIRA.

domingo, 4 de março de 2012

Parábola do mordomo infiel



(Lc 16:1-13)

Esta outra parábola, peculiar a Lucas, é ainda uma parte daquela memorável conversa de sábado à tarde na casa de um fariseu, que vem desde o capítulo 14 até 17:10. A sim­ples palavra kai (gr., também), omi­tida em algumas traduções (16:1), revela que essa parábola foi dirigida particularmente aos discípulos de Cristo. A sua mensagem também teve o propósito de chegar aos ricos dentre os escribas e fariseus, como aos ricos dentre os cobradores de impostos e pecadores que decidiram tornar-se seus discípulos. Vemos pela reação dos fariseus, amantes do di­nheiro, que a parábola afetou a sua consciência. "Os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas essas coi­sas, e zombavam dele" (16:14). O ter­mo avarentos usado aqui e por Pau­lo (2Tm 3:2), literalmente significa "amantes do dinheiro". Aqueles fariseus sentiram o peso da parábo­la de Cristo e mostraram sinais visí­veis de escárnio, aos quais ele retru­cou com uma repreensão eficaz. "Um pequeno grão de consciência os fez azedar". O amor ao dinheiro, e não o dinheiro em si mesmo, é a raiz de todos os tipos de males, e era a moti­vação que movia os fariseus. A pará­bola de Cristo expôs essa motivação.

Por ser incomum, essa parábola é submetida, mais do que todas as outras, a interpretações e explica­ções variadas e divergentes. O literalismo excessivo tem converti­do a parábola num labirinto de suti­lezas. Teorias fantásticas têm sido extraídas de cada expressão, deixan­do atrás de si um registro patético de desperdício da imaginação —pa­tético, porque muitas dessas inter­pretações representam um abuso lamentável da justa reverência de­vida a todas as palavras de Cristo. Através dessa parábola, Jesus de­nunciou uma transação fraudulen­ta. Por ser a personificação da Ver­dade, Honestidade e Justiça ele não poderia usar um bandido, como o mordomo infiel, a fim de chamar a atenção para a moral da narrativa ou enfeitar uma fábula. Cristo não elogiou a trapaça, mas sim a astúcia daquele mordomo. Butterick diz que o nosso Senhor usou aquele homem como um "exemplo de recurso, não como um exemplo em matéria de corrupção [...] Ele preencheu a sua paisagem com um desfile variado de tipos, nem todos de bom caráter. Uma história terrena, mesmo possuindo como objetivo um signifi­cado celestial, tem de usar pessoas da terra, e essas não são modelos de perfeição".

O ponto central da parábola é que um rico, talvez um de quem Jesus já ouvira falar antes, era alguém mui­to astuto que prestava bastante atenção aos seus negócios e manti­nha os seus empregados sob contro­le vigilante. Os infiéis eram imedia­tamente despedidos, e ele elogiava os que eram astutos no crime, sem repreendê-los severamente. O mordomo era alguém que cuidava de si mesmo, pois era sábio em sua ge­ração. Os devedores concordaram com as suas espertas providências, pois contribuíam para os seus pró­prios bolsos. A explicação mais sim­ples dessa parábola é que Jesus a usou em referência à astúcia do mundo, e ensinar uma lição de pru­dência espiritual. Quanto aos deta­lhes da fraude do mordomo, esses não têm importância intrínseca. Tudo o que Jesus realizou, foi dar a capacidade daquele homem de pre­ver as coisas e a sua agilidade no agir —que foram ímpias em sua aplica­ção— como ilustração das qualida­des que devem existir na vida dos verdadeiros discípulos.

A imagem de um mordomo, que Jesus já usara anteriormente (Lc 12:42), é utilizada em referência à função dos apóstolos e de todos os que são chamados para ministrar a Palavra de Deus. Todos esses são "despenseiros dos mistérios de Deus" e têm de ser achados fiéis (ICo 4:1,2). Os fariseus, como intérpretes ofici­ais da lei, eram supostamente os mordomos, e todos os verdadeiros discípulos devem se comportar como tais nessa função. Os bens do Mes­tre não devem ser desperdiçados. Talvez os fariseus não tivessem "des­perdiçado os seus bens numa vida rebelde", mas aqui lhes é mostrado que havia outras formas, não com meretrizes, de desperdiçarem os "bens" que lhes foram confiados.

Quando desdobramos a parábo­la, vemos que o Senhor condena os fariseus pelo mau uso das responsa­bilidades que lhes foram dadas por Deus. Eles eram culpados do mes­mo pecado do filho pródigo, à medi­da que deixavam de usar o que o Todo-Poderoso lhes havia confiado, para a sua glória e o bem dos ho­mens. Como mordomos, não apenas dos mistérios, mas do dinheiro, dos privilégios e oportunidades que os bens materiais trazem, eles teriam de prestar contas a Deus no futuro. Na primeira parte da parábola (versículos 1-4), o nosso Senhor en­sina que as riquezas e a influência podem ser usadas de tal maneira que, ao chegar as adversidades e al­guém se empobrece, aqueles que fo­ram socorridos por essa pessoa quan­do ela estava em dias de prosperida­de, agirão como amigos, no momen­to de seu aperto. Deus requer que os seus mordomos e servos ajam com verdade e retidão em todos os seus afazeres. Somente assim poderão receber a recompensa quando forem prestar o último acerto de contas.

A negociação que o mordomo fez com os devedores de seu senhor re­velou o seu verdadeiro caráter. Ele não tinha integridade e fidelidade quando exercia a sua função. Ao pro­curar redimir-se da vergonha de ter sido despedido, reduziu os débitos que deviam ao seu senhor, para que então ficassem gratos a ele. Esse mordomo prudente não se importa­va com os interesses de seu senhor, nem pelo que ele reclamava, com justiça, de seus devedores (versículos 5-8). Jamais esqueçamos que não foi Jesus quem elogiou o ato fraudulen­to do mordomo, mas o senhor men­cionado na parábola. O Senhor Je­sus não pode tolerar alguma prática contrária aos seus caminhos santos e justos. Hoje em dia os homens são culpados de reduzir o que Deus re­quer, com respeito à santidade e à verdade, porque fazem uma falsa avaliação das exigências divinas, e assim ensinam aos outros. Os ho­mens podem nos louvar quando fa­zemos o bem para nós mesmos, mas aquilo que o mundo pode ter em alta estima, pode ser uma abominação aos olhos de Deus, pela falta do prin­cípio de justiça.

Ao aplicar essa parábola aos seus discípulos, o Senhor lhes disse que aprendessem uma lição sobre a prudência e o prevenir-se de antemão atitudes essas muitas vezes presen­tes nos homens bem-sucedidos do mundo. Porém, ao mesmo tempo eles deveriam constantemente evi­tar agir baseados em princípios de conduta que fossem obscuros. "Granjeai amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando essas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos" (Lc 16:9). O que exatamente significa riquezas ou mamom? Na Versão Síria a palavra significa "dinheiro", ou "riquezas", e é usada para contrastar o culto de adoração ao dinheiro com o de ado­ração devida a Deus (Mt 6:24). Mamom, o símbolo da riqueza, era o que o rico na parábola possuía, mas "o mamom da injustiça (i.e., a ausên­cia da bondade) não é nem moral nem imoral, mas amoral. Jesus não disse aos seus discípulos que fizes­sem amigos que tivessem riquezas materiais, mas que usassem dessas riquezas para fazerem amigos. Eles deveriam usar o dinheiro de tal for­ma, que não fosse somente para si próprios, mas para ganharem ami­gos pessoais. Daí, então, quando olhassem para além desse mundo, no qual os homens podem acumular ri­quezas, se eles as perdessem, aque­les amigos que tinham feito através das riquezas os receberiam nos tabernáculos eternos. Aqueles, cujas vidas foram enriquecidas pelo uso prudente das riquezas, saudariam os que as deram, quando estivessem do outro lado da vida. Muitos homens ricos não deixariam tanto para trás, se apenas tivessem feito mais ami­gos através de seu dinheiro.

A lição aqui, então, é clara. As ri­quezas, a influência, a posição, o con­forto ou as oportunidades devem ser usadas aqui na terra de maneira que nunca sejam esquecidas na eterni­dade. Os mordomos de Deus, gene­rosos, nunca perderão a sua recom­pensa. Terão amigos pela eternidade porque usaram prudentemente os seus recursos desse mundo no espírito do amor cristão. Basica­mente devemos prestar contas ao nosso Senhor divino por todos os dons, sejam terrenos ou espiritu­ais, que ele nos tenha confiado para que os administremos como mordomos. Campbell Morgan nos relata uma experiência que teve quando ficou uma vez na casa de um cristão rico. Uma manhã, du­rante as orações em família, aque­le devotado membro da igreja orou eloqüente e ternamente pela salva­ção dos pagãos e pelos missionári­os. Quando terminaram as orações, o pai ficou bastante assustado quando um de seus filhos, um me­nino de dez anos, lhe disse:

"Pai, eu gosto de ouvi-lo orar pe­los missionários". O pai, satisfeito, replicou: "Fico contente que você goste, meu filho". Então, deixando o seu pai um tanto constrangido, dis­se: "Sabe o que eu pensei enquanto o senhor orava? Se eu tivesse a sua conta no banco, eu responderia a metade das suas orações".

Nossa escolha fica entre duas motivações —amor pelas posses em si mesmas, que é amor a si mesmo e resulta no esquecimento dos outros, ou o uso delas como algo que nos foi confiado por Deus, para beneficiar outras pessoas, e para a glória do Doador de todos os excelentes dons. Muitos não conseguem desfrutar do seu mamom, porque o relacionamen­to que têm com ele é deteriorado pelos escrúpulos e repreensões de sua consciência. Essas pessoas tam­bém não conseguem desfrutar de Deus, porque a missão que ele deu é atrapalhada pela indulgência dos seus desejos ilícitos.

A última lição de nosso Senhor é a de que a manifestação do bom sen­so ou prudência constitui-se no tes­te da fé. Se o que temos, seja muito ou pouco, for usado por nós com fidelidade, como servos, e for também utilizado como um exercício de fide­lidade, então aquilo que temos será suficiente para nos prover dos recur­sos de valor eterno. O critério para a recompensa na eternidade será a fidelidade (Ap 2:10). Nosso Senhor elogia a fidelidade, porque produz a prudência e também a conduz. Em todo o tempo os discípulos devem se comportar como responsáveis peran­te um Mestre divino, com relação tanto às coisas pequenas como as grandes; tanto nos negócios desse' mundo como nos dons espirituais. E, na eternidade, os que forem benefi­ciados pelo seu ministério, ou seu dinheiro, ou ambos, serão a sua ale­gria e coroa de regozijo. "Os que fo­rem sábios (astutos como o mor­domo), resplandecerão como o fulgor do Armamento, e os que a muitos ensinam a justiça, refulgirão como as estrelas sempre e eternamente" (Dn 12:3). Dons e graças, usados na obra de Deus, trazem uma satisfação no presente e servem para construir um memorial na eternidade.

(Todas as Parábolas da Bíblia - Herbert Lockyer , Editora Vida, pág 371)

sábado, 3 de março de 2012

Uma Breve Definição da Trindade

Uma Breve Definição da Trindade

por

James White

Uma das perguntas mais frequentemente repetidas com a qual tenho que tratar é: “Como alguém explica, ou até mesmo entende, a doutrina da Trindade?”. Quando os cristãos são confrontados com uma pergunta com respeito à Trindade, como ela poderia ser mais bem explicada?

Para mim, eu sei que simplificar a doutrina aos seus elementos mais básicos tem sido muito importante e muito útil. Quando reduzimos a discussão aos três claros ensinos bíblicos que fundamentam a Trindade, podemos mover nossa discussão da informação bíblica abstrata para a concreta, e podemos ajudar aqueles envolvidos em falsas religiões a reconhecer quais dos ensinos bíblicos eles estão negando.

Devemos lembrar primeiramente que pouquíssimos têm uma boa idéia do que a Trindade é em primeiro lugar – por conseguinte, a precisão na definição será muito importante. A doutrina da Trindade é simplesmente que há um ser eterno de Deus – indivisível, infinito. Esse um ser de Deus é compartilhado por três pessoas co-iguais e co-eternas, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito.

É necessário aqui distinguir entre os termos “ser” e “pessoa”. Seria uma contradição, obviamente, dizer que há três seres dentro de um ser, ou três pessoas dentro de uma pessoa. Assim, qual é a diferença? Reconhecemos claramente a diferença entre ser e pessoa todos os dias. Reconhecemos o que algo é, todavia, reconhecemos também indivíduos dentro de uma classificação. Por exemplo, falamos do “ser” do homem – ser humano. Uma rocha tem um “ser” – o ser de uma rocha, bem como de um gato, de um cachorro, etc. Todavia, nós sabemos também que há atributos pessoais também. Isto é, reconhecemos tanto “o que” como “quem” quando falamos sobre uma pessoa.

A Bíblia nos diz que há três classificações de seres pessoais – Deus, homens e anjos. O que é personalidade? A capacidade de ter emoção, vontade, de se expressar. Uma rocha não pode falar. Gatos não podem pensar sobre si mesmos com relação a outros, e, digamos, trabalhar para o bem comum da “espécie dos gatos”. Portanto, estamos dizendo que há um ser eterno e infinito de Deus, compartilhado plena e completamente por três pessoas, Pai, Filho e Espírito. Um o que, e três quem.

NOTA: Não estamos dizendo que o Pai é o Filho, ou o Filho o Espírito, ou o Espírito o Pai. É muito comum as pessoas compreenderem incorretamente a doutrina como significando que estamos dizendo que Jesus é o Pai. A doutrina da Trindade não diz isso de forma alguma!

As três doutrinas bíblicas que fluem diretamente para o rio que é a Trindade são as seguintes:

1) Há um e somente um Deus, eterno e imutável.

2) Há três Pessoas eternas descritas na Escritura – o Pai, o Filho e o Espírito. Essas Pessoas nunca são identificadas uma com a outra – isto é, elas são cuidadosamente diferenciadas como Pessoas.

3) O Pai, o Filho e o Espírito são identificados como sendo plenamente Deus – isto é, a Bíblia ensina a divindade de Cristo e a divindade do Espírito Santo.

Alguém poderia possivelmente representar isso da seguinte forma:

Os três lados do triângulo representam as três doutrinas bíblicas, como rotuladas. Quando alguém nega qualquer um desses três ensinos, os outros dois lados apontam para o resultado. Por conseguinte, se alguém nega que há Três Pessoas, ela é deixada com os dois lados da Plena Igualdade e do Um Deus, resultando no ensino “Oneness” (unidade, unificação, união) da Igreja Pentecostal Unida e outras. Se alguém nega a Plena Igualdade, ela é deixada com as Três Pessoas e Um Deus, resultando no “subordinacionismo” como visto nas Testemunhas de Jeová, o Caminho Internacional, etc. (embora para ser perfeitamente preciso, as Testemunhas de Jeová negam todos os três lados de alguma forma – elas negam a Plena Igualdade (isto é, Jesus é o Arcanjo Miguel), as Três Pessoas (o Espírito Santo é uma “força” ativa impessoal, como a eletricidade) e o Um Deus (eles dizem que Jesus é “um deus” – uma divindade menor do que Jeová; por conseguinte, eles não são na realidade monoteístas, mas henoteístas). E, se alguém nega o Um Deus, ela é deixada com o politeísmo, a crença em muitos deuses, como claramente visto na Igreja Mórmon, a religião mais politeísta que já encontrei.

Com esperança, esses três breves pensamentos serão de ajuda para você “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.

IMPOSSÍVEL RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO – HEBREUS 6



IMPOSSÍVEL RENOVÁ-LOS PARA ARREPENDIMENTO – HEBREUS 6

por Antônio Lazarini Neto

Resumo: O presente artigo examina o texto de Hebreus 6.4-8, utilizando-se de instrumentos exegéticos para analisar as hipóteses de interpretação levantadas acerca dessa complexa passagem que faz parte da composição literária de Hebreus, definida pelo autor da mesma como “palavra de exortação” (13.22) e considerada pelos estudiosos um escrito cujo estilo é muito elevado dentre a literatura neotestamentária. Por essa razão, leva em conta o vocabulário próprio de Hebreus, com toda sua linguagem dualista e sacrificialista, as circunstâncias do autor e seus leitores, e seu modo singular de repensar o Antigo Testamento a partir de uma interpretação que se aproxima à tradição alexandrina ligada à Filo, para elucidar o texto objeto do estudo. Analisa ainda as expressões gregas que compõem a passagem a fim de entender a identidade, condição e limitações daqueles ali considerados “iluminados em queda”.

Palavras-chave: Hebreus, soteriologia, iluminados.

1. Introdução

A problemática que envolve o texto de Hb 6.4-8 (de forma mais específica 6.4-6) está ligada a inegável singularidade do livro de Hebreus. Para Fiorenza, “nem a exegese histórico-crítica conseguiu lançar um pouco de luz nas sombras que envolvem a sua formação e a sua origem”.1 Esse texto enigmático não possui dificuldades apenas relacionadas ao “grego literário” (um estilo muito elevado comparado ao estilo dos melhores escritos gregos e superando a linguagem fina e culta do Evangelho de Lucas2) ou à autoria e procedência. A complexidade de Hebreus tem a ver também com sua natureza, ou seja, é uma carta? É uma homília? Os primeiros versículos de Hebreus se aproximam mais do estilo dos ditos de sabedoria do que das tradicionais aberturas das epístolas, contendo a identificação usual do remetente, apresentação dos destinatários, saudações, ações de graças, etc.:

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.” (Hb 1.1-4)

Em 13.22b encontramos: “eu vos escrevi resumidamente”, que aparece assim mesmo no texto grego, sem nenhuma referência à carta ou epístola. “Foi dito muitas vezes que Hebreus começa como um tratado, continua como um sermão e termina como uma carta”.3 O próprio autor chama seu escrito de “palavra de exortação” (13.22a.: tou lógou tês paraklêseos). Para Ben Witherington III “é provável que seja uma homília”4 , e Donald A. Hagner o chama de “sermão exortativo”5.

Hebreus, com seu caráter parenético-pastoral, conta com a eloquência formidável de um pregador usando uma linguagem “sacrificialista” para combater o “sacrificialismo”, não com a pretensão de conduzir uma polêmica cultual antijudaica, mas renovando e infundindo novo vigor à lealdade à fé cristã — aparentemente já adormecida — de seus leitores, fazendo com que o livro não seja necessariamente um tratado doutrinário, mas uma “palavra de exortação” — como o próprio autor o chama em 13.22 — envolvendo temas relacionados ao sacerdócio e ao sacrifício.

Na ótica de MacArthur, é necessário compreender que “três grupos básicos de pessoas estão em vista em toda esta epístola. Se não mantiver um destes grupos em mente, o livro se torna bastante confuso.”6 Em linhas gerais, os leitores eram judeus, que mantinham uma compreensão razoável da Torá, e pelo menos parte desses judeus devia ser composta de “cristãos de terceira geração”7. Todavia, o texto parece estar endereçado basicamente a três grupos dentre esses judeus (ou hebreus), ou seja, um primeiro composto por judeus que eram cristãos de fato; um segundo, composto por judeus não cristãos que estavam intelectualmente convencidos; e, um último, composto por judeus não cristãos que não estavam convencidos. Talvez, se seguirmos a compreensão de MacArthur, “aqui está a base crítica para a compreensão da epístola, e é aqui onde as pessoas frequentemente se confundem, especialmente na interpretação dos capítulos 6 e 10”.8

Todavia, a “hipótese da diversidade” entre os leitores de Hebreus, proposta por MacArthur, dificilmente pode ser atestada a partir do exame do próprio texto9. Em 13.24 o autor pede que os seus destinatários saúdem aos seus líderes e demais membros da Igreja, o que pode indicar que a epístola não fora dirigida a uma comunidade ou igreja local como um todo (muito menos à sociedade hebraica), mas a um grupo ou, até mesmo, uma família. A partir daí tornariam mais compreensíveis as elevadas exigências espirituais que espera conscientemente de seus leitores (cf. 5.12-14). É possível que justamente esse grupo, que segundo Guthrie era composto de pessoas com um maior “calibre intelectual”10, estivesse abandonando a congregação (10.25) e tendo dificuldades com a liderança local (13.17). Longe de ser uma carta universal direcionada a judeus cristãos em geral, trata-se de um texto encaminhado a um “grupo específico para satisfazer uma necessidade específica”.11

Sobretudo, é preciso manter claro na mente que “o clima em que se move o pensamento de Hebreus deve situar-se no mundo judaico-helenístico, de cujo sincretismo se aproveita para reinterpretar e reformular o querigma cristão”.12

2. A hipótese de uma herança alexandrina

Hebreus é um documento marcado por uma elevada cristologia centralizada no sofrimento vicário e na obediência de Cristo, recorrendo a uma linguagem tipicamente “dualista”, como encontrada nos escritos joaninos. Considerado um “tratado cristológico” tem sido visto por estudiosos como um texto afinado com Filo de Alexandria, um contemporâneo de Jesus13. Este, como filósofo neoplatônico (viveu entre 20 a.C. e 50 d.C.), “harmonizou e sistematizou a filosofia grega e a teologia dos hebreus em um sistema compacto e bastante consistente de crenças e práticas religiosas”14 e desenvolveu uma “perspectiva singular a respeito de arquétipos e cópias terreais”15 para repensar o Antigo Testamento a partir de uma interpretação “alegórico-espiritualística”16.

Cabe lembrar que Hebreus recorre muitas vezes a uma exegese mais tipológica, atentando-se para pessoas, eventos, lugares e instituições como objetos da sua exegese e não apenas aos textos aos quais o escrito se refere, como por exemplo, o “tractatus de fide de Hb 11, um catálogo de figuras veterotestamentárias em sua maioria, que tem o propósito de demonstrar o que é fé”.17 Hebreus cita o Antigo Testamento de um jeito que remete ao modo de expressar-se das sinagogas helenísticas, fazendo “falar Deus, Cristo, o Espírito Santo, como sujeitos diretos”18 sem determinar de modo exato o autor ou a fonte da citação, o que pode indicar certa coerência com a ênfase dada no primeiro verso do texto acerca das variadas formas como Deus fala (cf. 1.1-2), além de demonstrar considerável independência do seu contexto histórico, somada ao emprego de tradições cristãs litúrgicas.

Outros escritos cristão-primitivos como 1Clemente e Barnabé (documento preservado na íntegra no codex sinaiticus) também pertencem a tradição Alexandrina ligada a Filo e chamada por alguns estudiosos de “escolasticismo cristão-judaico”. Todavia, quando comparado a eles, Hebreus tem bem mais semelhança com Filo no modo de pensar do que aqueles. “Os estudos mais recentes mostram em todo caso que, do ponto de vista histórico-comparativo das religiões, Hebreus se encontra num complexo sistema de referências em que alternativas simplórias não bastam.”19


3. Iluminados em queda: Hebreus 6.4-6

Os problemas na compreensão de Hebreus 6 acaloraram ao longo dos anos a discussão soteriológica e uma quantidade muito significativa de interpretações do texto tem surgido. Sendo, como na concepção de Barclay, “uma das mais terríveis passagens nas Escrituras, que começa com uma espécie de lista dos privilégios da vida cristã”20 , sem dúvida essa é uma das porções neotestamentárias que mais tem desafiado os estudiosos.


A. A identidade dos iluminados

A identidade daqueles que o autor de Hebreus tem em mira na passagem precisa ser identificada. Eles são descritos “em cinco orações subordinadas consecutivas”21, identificados como “aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” (cf. Hb 6.4-5). Deve-se notar, no entanto, que o autor distancia tais declarações dos seus leitores, ou seja, se tais características descrevem o grupo para o qual ele escreve, o faz discretamente e de modo muito indireto. Observe que no final do capítulo 5 o texto foca diretamente os leitores originais:

“A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido.” (cf. Hb 5.11-12)

Após o texto alvo de nosso exame aqui, o autor se volta novamente de forma mais direta aos destinatários de sua parenética: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira” (cf. Hb 6.9). Não que a experiência em pauta não seja a dos leitores, mas que o autor se utiliza da experiência “daqueles”, que parecem pessoas imaginárias como meio de ilustrar, para exortar a vida “destes”, a quem o texto é endereçado. Assim, deve-se entender que a decisão do escritor foi a de não declarar abertamente que os seus leitores originais haviam caído e estavam impossibilitados de serem renovados para arrependimento, e sim, de despertá-los para um perigo iminente e motivá-los à perseverança na vida cristã. Todavia, ainda que a queda não fosse a experiência plenamente concreta daqueles leitores, o autor admitia tal possibilidade, seja na vida destes ou de quaisquer outros.

No juízo de MacArthur, “devemos notar que esta passagem não faz qualquer referência a salvação de todos. Não há menção de justificação, santificação, novo nascimento, ou regeneração. Daqueles que uma vez foram iluminados não se falou de como nasceram de novo, se fizeram santos, ou foram feitos justos”22. Para ele, nenhuma terminologia habitual do Novo Testamento para salvação é aqui usada. Assim, conclui que a “iluminação aqui falada tem a ver com a percepção intelectual do espiritual, a verdade bíblica”23. Chafer também considera que as expressões utilizadas no texto são “sem dúvida (…) totalmente inadequadas para descrever o verdadeiro filho de Deus”24.

Todavia, é preciso levar em conta que Hebreus tem o seu “caminho próprio” no que tange ao vocabulário e que o autor, com toda sua enérgica pastoral, “está ansioso pelo bem-estar final de seus leitores”25 demonstrando claramente que deseja vê-los restaurados do estado em que naquele momento se encontravam. Encontramos a expressão “iluminados” (photizo, que conta com 11 ocorrências no NT) outra vez em Hebreus 10.32 aplicada diretamente aos leitores: “Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos”. Nesse contexto, a expressão parece estar relacionada à experiência concreta de fé em Cristo, o que não é de forma alguma uma ideia estranha ao Novo Testamento se for observado textos como João 1.9, Efésios 1.18 e 2 Timóteo 1.10. Ademais, segundo o Apóstolo Paulo em Atos, sua vocação apostólica às nações tinha por propósito “lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (26.18). Assim, a iluminação da qual Hebreus trata “não pode de forma alguma ser confinada a uma mera convicção ou um entusiasmo religioso temporário”.26

Ser “iluminado”, mesmo antes do Novo Testamento e a parte do contexto judaico-cristão, indicava uma experiência e uma relação com o universo das divindades que, mormente estava relacionado à metáfora da luz. Na antiga religião grega, sustentava-se a crença de que os deuses viviam num mundo de brilho, justamente no mundo de onde Prometeu furtou o fogo. “Corridas com tochas eram feitas como parte da veneração cultual dos deuses, e, em certas seitas de mistérios, o efeito purificador e refinador do fogo (como o da água) desempenhava um papel de destaque”.27

Posteriormente, o gnosticismo tornou-se religião da luz, pois “via uma diferença básica e essencial entre a luz e as trevas que se opunham mutuamente como potências hostis, sendo que cada uma era suprema na sua própria esfera”28 , sendo a luz considerada matéria de outro mundo que se derramava sobre as pessoas desejosas de recebê-la, libertando-as das trevas e fazendo-as ter contato com o mundo sobrenatural ao qual realmente pertencem para alcançar a verdadeira vida.

Finalmente, também é importante considerar que no segundo século, “pelo menos na época de Justino, a palavra ‘iluminado’ veio a ser usada como sinônimo de batismo”29 e parece ser esta a razão pela qual a versão “peshita siríaca” traduz a expressão como “aqueles que de uma vez por todas desceram ao batismo” 30. Champlin ainda considera que o uso de “iluminação” em alusão ao batismo, era bastante comum na época de Tertuliano (160-220 a.D.), “talvez como termo tomado por empréstimo das religiões misteriosas, que assim denominavam seus ritos de abluções e lavagens”.31

As demais expressões “provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” (cf. 6.4-5) só não podem ser entendidas como descrição de uma experiência cristã concreta com relativo esforço. Em 3.1, o autor de Hebreus chama seus leitores de “santos irmãos” (adelfoi hagioi), reconhecendo-os como cristãos genuínos e ali afirma que eles foram participantes da “vocação celestial” (kleseos epouraniou), expressão essa que lembra “dom celestial” (doreas epouraniou) que o grupo chamado de “aqueles” em 6.4 provou, sendo que o termo metochos, traduzido como “participantes” é o mesmo utilizado na próxima expressão relacionada ao Espírito Santo.

A afirmação de que “provar” tanto o dom celestial, quanto a boa palavra e os poderes do mundo vindouro significa tão somente “sentir o gosto ou experimentar” e não uma experiência cristã vivenciada na sua totalidade e de forma plena, parece não levar em conta a semântica deste verbo no próprio escrito de Hebreus. É certo que o verbo provar (geuomai) traz esse sentido de um experimento parcial e não completo, como se pode ver em Mateus 27.34, em que aqueles que crucificaram Jesus “deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber”. Mas em Hebreus 2.9 o mesmo verbo é utilizado para afirmar que a Jesus convinha que, “pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” e, evidentemente, a morte é um estado impossível de ser pensado como um experimento de modo parcial (cf. também João 8.52). Além disso, deve-se considerar que geuomai, segundo Champlin (citando Moffatt), é uma “metáfora grega helenista contemporânea para indicar experiência” e “o termo provar, nos escritos rabínicos, significa ‘participação’, ‘experiência em’,”32 o que impõe mais dificuldade à aceitação de uma interpretação que proponha apenas um contato superficial ou uma experiência rasa das pessoas que o autor de Hebreus tinha em mente. No Antigo Testamento, na maioria das passagens, geuomai é usada no sentido literal e encontramos poucas ocorrências da palavra no sentido figurado, mais precisamente em três: Sl 34.8; Jó 20.18 e Pv 31.18. “No AT, o sentido figurado sempre expressa o elemento da experiência. Traduz o Heb. tâ‘am, ‘provar’, ‘perceber’.”33

Um último termo a ser considerado na composição da descrição da experiência daqueles a quem o autor de Hebreus se refere em 6.4-5 é “participantes”. É dito que eles “se tornaram participantes do Espírito Santo”. Como já mencionado acima, a expressão grega utilizada foi metochos (participante), um termo quase exclusivo de Hebreus que conta com cinco ocorrências (2.14, 3.1, 3.14, 6.4 e 12.8), havendo apenas mais uma em todo Novo Testamento34, em Lucas 5.7, traduzido como “companheiros”. A palavra possui “uma ampla gama de significados e pode sugerir participação e apego bem íntimos, ou então meramente uma associação mais tênue com a outra pessoa ou pessoas citadas”.35 Além de 3.1 onde se considerava os leitores “participantes de uma vocação celestial”, encontramos em 3.14 o autor dizendo que “temos tornado participantes de Cristo” (metochoi toû christoû), o que dificilmente torna a descrição a que se refere 6.4 de pessoas que, sem uma experiência mais profunda com a fé cristã, apenas “se associaram ao Espírito Santo”, isto é, tiveram da parte dele alguma influência. O verbo metecho, segundo Eichler, “se emprega virtualmente como sinônimo de koinoneo”36, verbo amplamente usado no Novo Testamento para expressar comunhão, sociedade e parceria (cf. por exemplo 2Co 6.14, em que se usa a forma substantiva de koinoneo — “koinonia”).

Portanto, parece razoável concluir que o autor de Hebreus usou uma terminologia em 6.4-5 que no seu contexto imediato caracterizava fé genuína e experiência real com o cristianismo daquela geração justamente por conhecer o mortiço estado da fé em que se encontravam seus leitores. Quanto a este estado de fé, Elizabeth Fiorenza o resume muito bem:

“As mãos se entorpeceram, os joelhos se enfraqueceram (12.2). Os cristãos, que já deviam ser ‘mestres’ e, como adultos, capazes de distinguir o bem e o mal, tornaram-se tardos para ouvir e têm necessidade de serem novamente instruídos nos rudimentos da palavra de Deus (5.11-14). O sofrimento e a perseguição, a dificuldade em divisar o caminho a trilhar e, sobretudo, a incompreensibilidade e aparente ineficácia da mensagem, na qual creem, fizeram vacilar a sua firme confiança e convicção (12.12). A comunidade corre, pois, o risco de recusar o oferecimento da graça de Deus, de prevaricar (6.6) e de perder, como Esaú, os direitos de primogenitura (12.16). A ameaça, como se vê, não é constituída pela pressão positiva de alguma heresia agressiva ou pela fascinação do culto judaico, mas pela atrofia geral da fé e pelo conformismo, que a acompanha: a tensão escatológica da primeira geração se afrouxou, o ativismo da primeira hora esmoreceu. Tentam de novo inserir-se no mundo e conformar-se com ele. O autor procura, como “pastor”, trazer remédio a essa fraqueza profunda da comunidade na sua fé e, para isso, exorta e censura, adverte e ameaça, louva e promete, mas também, e sobretudo, analisa a situação com profunda agudeza teológica, para manifestá-la aos leitores.”37

B. A condição dos iluminados

Aos leitores, “cuja fé entrou em crise por causa da contradição entre realidade vivida e crida”38, o autor de Hebreus escreve que há uma impossibilidade de renovar para arrependimento “aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” porque os tais experimentaram uma queda, isto é, “caíram” (do grego parapipto).

Kistemaker considera que “este composto no aoristo ativo particípio [parapesóntas, de parapipto] ocorre uma vez no Novo Testamento (… e) é um sinônimo do verbo apostenai (desviar-se) em Hebreus 3.12”39 aparecendo na LXX duas vezes em Ezequiel 14.13 e 15.8, sendo traduzido geralmente nas versões em português por “rebeldia” ou “graves transgressões”. Por se tratar de uma ocorrência única, é natural encontrar certa dificuldade por entender o uso do verbo aqui. No entanto, a expressão faz parte do grupo de palavras cuja raiz é pipto, verbo utilizado até mesmo na descrição de colapsos de construções (cf. Hb 11.30). Em 4.11, o leitor é exortado a se esforçar para entrar “naquele descanso” para que, fugindo daquele exemplo negativo de Israel desobedecendo a Deus no deserto, “ninguém caia (pipto)”. Uma vez que parapipto é usada como equivalente de apostenai — de onde se deriva nossa palavra apostasia — entender a queda como “deserção da fé” parece ser consensual entre os estudiosos do Novo Testamento.

Todavia, tal queda não deve ser tomada numa esfera hipotética, traduzindo o particípio grego como condicional, mas seguir a forma como o autor se expressa mediante uma série de particípios por todo o texto (“foram iluminados, provaram, tornaram”, etc.) que comumente se traduz no passado. Desse modo, devemos adotar a tradução “caíram” mesmo e não “se caírem”. Lightfoot conclui que “parece mais razoável, portanto, que o autor esteja descrevendo uma condição que ele considera perfeitamente possível, apesar de persuadido ‘das cousas que são melhores’ com respeito a seus leitores (v. 9)”.40


C. A impossibilidade de renovação dos iluminados

Acerca daqueles apresentados pelo autor de Hebreus como “iluminados, e que provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” e caíram (parapipto) de fato, apostatando da fé cristã, como já abordamos acima, é dito ser “impossível” (adynaton) renová-los para arrependimento.

Na verdade, adynaton é o ponto de partida do texto. O verso 4 se inicia com a expressão para compor uma frase consideravelmente longa que se estende até o verso 6. É por essa razão que as versões em português trazem diferenças no modo de construção dessa extensa passagem. A versão do Almeida Revista e Atualizada (ARA) precisou repetir a expressão “impossível” no verso 6 para facilitar ao leitor a compreensão: “É impossível, pois, (v. 4) … sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento” (v. 6). A Nova Versão Internacional (NVI), por sua vez, jogou a expressão “impossível” para o verso 6, reorganizando totalmente a forma em que o texto grego se expressou: “Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, (v. 4)… é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento” (v. 6). A versão do Almeida Revista e Corrigida (ARC) preservou como no texto grego, mantendo “é impossível” apenas no verso 4.

O importante nesse caso é a compreensão de que adynaton aparece uma vez apenas no verso 4 e trata-se da primeira palavra da passagem e que o complemento ou a exposição acerca do que o autor de Hebreus considera “impossível” está no verso 6. Desse modo, o adjetivo adynaton (impossível) está ligado ao infinitivo anakainizein (renovar), separados tanto pela descrição daqueles aos quais é impossível uma renovação, quanto pela causa em que existe tal impossibilidade, ou seja, é porque caíram. Tudo isso eleva a importância de adynaton na passagem, pois ao que parece, o autor de Hebreus ao escrever desse modo quis de forma enfática chamar a atenção para tal impossibilidade.

A expressão adynaton pertence à família de palavras gregas que tem sua origem em dynamis (poder), tendo o sentido de “impotente”, “sem poder”, utilizada para apontar para um fato insólito e improvável na natureza, como a incapacidade para andar do coxo de nascença em Listra, curado por Paulo em Atos 14.8. Por 4 vezes o autor de Hebreus se utiliza dessa expressão: 6.4; 6.18; 10.4 e 11.6. Dentro do mesmo capítulo 6, no verso 18, adynaton foi usada em contraste a “não permanência” dos iluminados (6.4) e denotando a impossibilidade de haver em Deus tal “não permanência”, por ele se mostrar sempre fiel.

O verbo anakainizein que junto à metanoia (v. 6) compõe a expressão “renovar para arrependimento”, sendo este o escopo do que é impossível, ocorre tão somente aqui em 6.6 em todo Novo Testamento. O verbo mais próximo deste é anakainoo que ocorre no NT apenas em duas passagens e, em ambas na voz passiva. Em 2Coríntios 4.16, Paulo escreveu que “o nosso homem interior se renova de dia em dia” e em Colossenses 3.10 que “vos revestistes do novo homem que se refaz [ou se renova]41 para o pleno conhecimento”.

No caso de anakainizein, o verbo está no infinitivo presente e na voz ativa, fazendo com que a melhor opção de tradução permaneça assim: “renovar para arrependimento” e não: “ser renovado para arrependimento” ou “renovar-se para arrependimento”. Não estamos afirmando que a preferência do autor pela voz ativa neste caso significa que desejasse dizer que aos iluminados, por eles mesmos, fosse impossível a renovação, mas tão somente que sua opção nos parece ter a intenção de evitar transparecer que seja impossível “serem renovados” por um agente externo (e, sem dúvida, Deus!) ou “se renovarem” a partir de uma iniciativa própria de mudança interna.

Desse modo, alguns estudiosos têm notado que o infinitivo anakainizein não tem sujeito e até sugerem a adição de palavras para cunhar um sentido. No entanto, adynaton (nominativo na voz ativa que pode fazer a função de sujeito) acaba funcionando como sujeito da renovação, querendo ele somente dizer que é “impossível renovar”, não porque Deus não possa fazê-lo ou porque os iluminados não tenham condições em si mesmos para uma mudança de opinião, mas que em face das próprias circunstâncias torna-se impossível uma transformação. Tais circunstâncias estão descritas a seguir, ou seja: “visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.” Lightfoot pondera que “existe uma linha além da qual, quando ultrapassada pelo indivíduo, ele não pode ser recuperado”.42 Pessoas com uma fé genuinamente cristã podem tomar caminhos sem volta, a semelhança de Himeneu43 e Alexandre, os quais Paulo “entregou a Satanás, para serem castigados” (cf. 1Tm 1.20), pois certamente estavam dentre aqueles que “tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1Tm 1.19). Os leitores originais de Hebreus já haviam sido alertados acerca desse perigo:

“Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos.” (3.12-14)

É necessário, pois, que haja um entendimento de que metanoia não precisa ser tomada rigidamente, relacionando-a a experiência salvífica. As preocupações do autor de Hebreus parecem estar muito mais relacionadas à vivência diária e as consequências das práticas no cotidiano, do que em divisar o destino dos leitores. Pelo conteúdo de sua parenética, pressupomos que sua inquietação tinha a ver com a desobediência (4.6-11), com a imaturidade que os caracterizava (5.11-14), com a fraqueza profunda da fé, expressa na falta de perseverança mui especialmente no convívio com a congregação (10.23-25) e com destemor e retrocesso em face da terrível possibilidade do julgamento de Deus (10.29-39). Visto que tais debilidades poderiam levá-los a um estágio vivencial, de onde encontrar o caminho de volta poderia ser algo impossível, o autor “continua exortando e requerendo, pois não considera tudo perdido e ainda pode lhes ajudar”44 já que somente “aqueles” que caíssem na apostasia é que de fato estariam totalmente impossibilitados de retornar ao caminho.

4. CONCLUSÃO:

Nossa abordagem procurou mostrar que, a semelhança da compreensão de Charles Trentham, o autor de Hebreus “estava procurando instruir os cristãos no contexto de uma situação específica”45 e, para tanto, lança mão de um vocabulário bem característico do universo do seu escrito e peculiar aos seus leitores, que primariamente precisa ser considerado na exegese, a despeito do campo semântico neotestamentário envolto nas palavras no texto objeto deste exame.

Por mais que se tenha tentado suavizar a severidade de Hebreus 6.4-6, “ao minimizar e enfraquecer a experiência anterior destes apóstatas, fazendo parecer que foram apenas simpatizantes do Evangelho”46, os indícios apontam para o fato de que o autor considerava as pessoas caracterizadas como “iluminadas” como portadoras de uma experiência genuína de fé.

Faz-se importante ter a percepção de que tais “iluminados” são “imaginários”, não no sentido de que o fato em questão fosse hipotético, mas que ainda não se tratava da experiência concreta dos leitores de Hebreus e, além da fé ter sido tomada como pressupostamente veraz, a queda também o foi. Os iluminados de fato caíram, um indício de apostasia.

Finalmente, a expressão adynaton é fundamental na compreensão do texto, pois acerca “daqueles” de fé genuína e que se apostataram, diz o autor ser “impossível” renová-los para arrependimento. Torna-se importante entender que o autor de Hebreus, presume-se que propositadamente, buscou distanciar 6.4-6 dos leitores originais, referindo-se a “aqueles” (diferente de “vós, amados”, por exemplo) porque toda sua linguagem na passagem visava “chocar” seus leitores, a fim de que não continuassem trilhando por um caminho que culminasse num lugar sem volta. A perseguição e o sofrimento tornaram sua fé anêmica, fazendo “balançar” a firme confiança e convicção na mensagem que outrora haviam aderido, o que justifica o uso de uma abordagem tão “chocante”, tendo em vista que o autor se mostra desejoso por ver seus leitores alcançarem, através de resistente perseverança, a completa cura: “Por isso, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado.” (12.12-13)

Destarte, os versos seguintes fazem analogia à frutificação: “Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada” (6.7-8). A associação desta passagem com João 15 torna-se inevitável, pois ali Jesus teria asseverado num discurso a seus discípulos: “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam” (João 15.6).

As considerações do autor de Hebreus em 6.4-6 teve, por meio da exposição de uma possibilidade real, impulsionar seus leitores à permanência no caminho de Deus. A partir do verso 9 seu olhar se volta diretamente para aqueles a quem estava se dirigindo como “pastor”:

“Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira. Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos. Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a plena certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas.” (6.9-12)

Ele sabia que seu modo de se expressar iria “chocar” o grupo em mira (observe: “ainda que falamos desta maneira”), porém, o anseio maior que movia sua exortação era fazê-los entender que o efeito do sacrifício de Jesus deveria incidir sobre a sua vida cotidiana, levando-os a uma nova relação com Deus, “relação que o culto precedente, com as suas instituições, não estava em condições de estabelecer. Por isso também esta relação não se efetua no culto, mas na prática da vida cristã”47, para qual deveriam buscar inspiração nos modelos de fé veterotestamentários (Cap. 11), imitando a conduta de seus líderes (13.7) e renunciando a segurança e a santidade que os ritos cultuais procuravam conferir para tão somente se agarrarem à esperança de uma cidade celestial e futura (13.14).

Autor: Antonio Lazarini Neto, que é Coordenador Acadêmico e professor de Grego, Exegese do Novo Testamento e Teologia do NT na Faculdade Teológica Batista de Campinas. Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião, pastoreia a Igreja Batista Jardim Planalto em Nova Odessa desde 1999, sendo também autor da MK Editora (RJ).

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Notas

1FIORENZA, Elisabeth in: SHREINER, J. e DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. São Paulo: Teológica e Paulus, 2004, p. 327.
2Cf. GILLIS, Carroll Owens. Comentario sobre la Epístola a los Hebreos. Buenos Aires: Casa Publicadora Bautista, ____.
3LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1981, p. 46.
4WITHERINGTON III, Ben. História e histórias do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005, p. 73.
5HAGNER, Donald A. Novo comentário bíblico contemporâneo: Hebreus. São Paulo: Editora Vida, 1997, p. 23.
6MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Comentary. Chicago, USA: Moody Press, 1983, p. viii.
7HENRICHSEN, Walter A. Depois do sacrifício: estudo prático da carta aos Hebreus. São Paulo: Editora Vida, 1985, p. 8.
8MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Comentary. p. ix.
9MacArthur faz tal distinção evidentemente para fundamentar sua posição quanto aos “iluminados” de 6.4.
10GUTHRIE, Donald. Hebreus: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984, p. 18.
11LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1981, p. 31.
12SHREINER, J. e DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. São Paulo: Teológica e Paulus, 2004, p. 330.
13“Nos tempos deste Imperador (Tibério) floresceu Filo, varão tido em máxima estima, não somente por muitos dos nossos, senão também dos gentios…” (Eusébio de Cesareia, História eclesiástica, II, 5).
14Cf. Livro de Urantia. Chicago, USA, Urantia Foundation, documento 121, p. 1338.
15HAGNER, Donald A. Novo comentário bíblico contemporâneo: Hebreus. São Paulo: Editora Vida, 1997, p. 28.
16SHREINER, J. e DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. p. 331.
17VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva. São Paulo: Academia Cristã, 2005, p. 274.
18SHREINER, J. e DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento. p. 331.
19VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva. São Paulo: Academia Cristã, 2005, p. 279.
20BARCLAY, William. The Letter to the Hebrews. Filadélfia (USA): The Westminster Press, 1976, p. 56.
21HAGNER, Donald A. Novo comentário bíblico contemporâneo: Hebreus, p. 107.
22MACARTHUR, John. The MacArthur New Testament Comentary. p. 123.
23Ibid.
24CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática — vol. 3 e 4. São Paulo: Editora Hagnos, 2003, p. 289.
25HAGNER, Donald A. Novo comentário bíblico contemporâneo: Hebreus, p. 107.
26TAYLOR, Richard S. in: Comentário bíblico Beacon — vol.10. São Paulo: CPAD, 2006, p. 58.
27COENEN, Lottar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2004, p. 1220.
28Ibid.
29JUSTIN, Apology 1.61.65 apud: LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus, p. 145.
30Cf. CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Millenium, 1985, p. 539 e LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus, p. 145 (nota de rodapé nº 10).
31CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo, p. 539.
32Ibid.
33COENEN, Lottar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. p. 851.
34Em Efésios 5.7 encontramos a expressão symmetochos, composta de metochos e da preposição syn [com]
35GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 1ª Edição. São Paulo, Edições Vida Nova, 1999. p. 664-671.
36COENEN, Lottar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. p. 376.
37SHEREINER, J. e DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento, p. 338.
38Ibid, p. 349.
39KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 233.
40LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1981, p. 148.
41N.A.
42LIGHTFOOT, Neil R. Epístola aos Hebreus. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1981, p. 149.
43Em 2Tm 2.17-18, Himeneu é apontado dentre os que “se desviaram da verdade, asseverando que a ressurreição já se realizou, e estão pervertendo a fé a alguns.”
44KUSS, Otto e MICHEL, Johann. Carta a Los Hebreos e Cartas Catolicas. Barcelona, Editorial Herder, 1977. p. 112.
45ALLEN, Clifton J. (Editor Geral). Comentário bíblico Broadman – vol.12. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p. 60.
46TAYLOR, Richard S. in: Comentário bíblico Beacon, p. 58.
47SHEREINER, J.; DAUTZENBERG, G. Forma e exigências do Novo Testamento, p. 347.