domingo, 4 de março de 2012

Parábola do mordomo infiel



(Lc 16:1-13)

Esta outra parábola, peculiar a Lucas, é ainda uma parte daquela memorável conversa de sábado à tarde na casa de um fariseu, que vem desde o capítulo 14 até 17:10. A sim­ples palavra kai (gr., também), omi­tida em algumas traduções (16:1), revela que essa parábola foi dirigida particularmente aos discípulos de Cristo. A sua mensagem também teve o propósito de chegar aos ricos dentre os escribas e fariseus, como aos ricos dentre os cobradores de impostos e pecadores que decidiram tornar-se seus discípulos. Vemos pela reação dos fariseus, amantes do di­nheiro, que a parábola afetou a sua consciência. "Os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas essas coi­sas, e zombavam dele" (16:14). O ter­mo avarentos usado aqui e por Pau­lo (2Tm 3:2), literalmente significa "amantes do dinheiro". Aqueles fariseus sentiram o peso da parábo­la de Cristo e mostraram sinais visí­veis de escárnio, aos quais ele retru­cou com uma repreensão eficaz. "Um pequeno grão de consciência os fez azedar". O amor ao dinheiro, e não o dinheiro em si mesmo, é a raiz de todos os tipos de males, e era a moti­vação que movia os fariseus. A pará­bola de Cristo expôs essa motivação.

Por ser incomum, essa parábola é submetida, mais do que todas as outras, a interpretações e explica­ções variadas e divergentes. O literalismo excessivo tem converti­do a parábola num labirinto de suti­lezas. Teorias fantásticas têm sido extraídas de cada expressão, deixan­do atrás de si um registro patético de desperdício da imaginação —pa­tético, porque muitas dessas inter­pretações representam um abuso lamentável da justa reverência de­vida a todas as palavras de Cristo. Através dessa parábola, Jesus de­nunciou uma transação fraudulen­ta. Por ser a personificação da Ver­dade, Honestidade e Justiça ele não poderia usar um bandido, como o mordomo infiel, a fim de chamar a atenção para a moral da narrativa ou enfeitar uma fábula. Cristo não elogiou a trapaça, mas sim a astúcia daquele mordomo. Butterick diz que o nosso Senhor usou aquele homem como um "exemplo de recurso, não como um exemplo em matéria de corrupção [...] Ele preencheu a sua paisagem com um desfile variado de tipos, nem todos de bom caráter. Uma história terrena, mesmo possuindo como objetivo um signifi­cado celestial, tem de usar pessoas da terra, e essas não são modelos de perfeição".

O ponto central da parábola é que um rico, talvez um de quem Jesus já ouvira falar antes, era alguém mui­to astuto que prestava bastante atenção aos seus negócios e manti­nha os seus empregados sob contro­le vigilante. Os infiéis eram imedia­tamente despedidos, e ele elogiava os que eram astutos no crime, sem repreendê-los severamente. O mordomo era alguém que cuidava de si mesmo, pois era sábio em sua ge­ração. Os devedores concordaram com as suas espertas providências, pois contribuíam para os seus pró­prios bolsos. A explicação mais sim­ples dessa parábola é que Jesus a usou em referência à astúcia do mundo, e ensinar uma lição de pru­dência espiritual. Quanto aos deta­lhes da fraude do mordomo, esses não têm importância intrínseca. Tudo o que Jesus realizou, foi dar a capacidade daquele homem de pre­ver as coisas e a sua agilidade no agir —que foram ímpias em sua aplica­ção— como ilustração das qualida­des que devem existir na vida dos verdadeiros discípulos.

A imagem de um mordomo, que Jesus já usara anteriormente (Lc 12:42), é utilizada em referência à função dos apóstolos e de todos os que são chamados para ministrar a Palavra de Deus. Todos esses são "despenseiros dos mistérios de Deus" e têm de ser achados fiéis (ICo 4:1,2). Os fariseus, como intérpretes ofici­ais da lei, eram supostamente os mordomos, e todos os verdadeiros discípulos devem se comportar como tais nessa função. Os bens do Mes­tre não devem ser desperdiçados. Talvez os fariseus não tivessem "des­perdiçado os seus bens numa vida rebelde", mas aqui lhes é mostrado que havia outras formas, não com meretrizes, de desperdiçarem os "bens" que lhes foram confiados.

Quando desdobramos a parábo­la, vemos que o Senhor condena os fariseus pelo mau uso das responsa­bilidades que lhes foram dadas por Deus. Eles eram culpados do mes­mo pecado do filho pródigo, à medi­da que deixavam de usar o que o Todo-Poderoso lhes havia confiado, para a sua glória e o bem dos ho­mens. Como mordomos, não apenas dos mistérios, mas do dinheiro, dos privilégios e oportunidades que os bens materiais trazem, eles teriam de prestar contas a Deus no futuro. Na primeira parte da parábola (versículos 1-4), o nosso Senhor en­sina que as riquezas e a influência podem ser usadas de tal maneira que, ao chegar as adversidades e al­guém se empobrece, aqueles que fo­ram socorridos por essa pessoa quan­do ela estava em dias de prosperida­de, agirão como amigos, no momen­to de seu aperto. Deus requer que os seus mordomos e servos ajam com verdade e retidão em todos os seus afazeres. Somente assim poderão receber a recompensa quando forem prestar o último acerto de contas.

A negociação que o mordomo fez com os devedores de seu senhor re­velou o seu verdadeiro caráter. Ele não tinha integridade e fidelidade quando exercia a sua função. Ao pro­curar redimir-se da vergonha de ter sido despedido, reduziu os débitos que deviam ao seu senhor, para que então ficassem gratos a ele. Esse mordomo prudente não se importa­va com os interesses de seu senhor, nem pelo que ele reclamava, com justiça, de seus devedores (versículos 5-8). Jamais esqueçamos que não foi Jesus quem elogiou o ato fraudulen­to do mordomo, mas o senhor men­cionado na parábola. O Senhor Je­sus não pode tolerar alguma prática contrária aos seus caminhos santos e justos. Hoje em dia os homens são culpados de reduzir o que Deus re­quer, com respeito à santidade e à verdade, porque fazem uma falsa avaliação das exigências divinas, e assim ensinam aos outros. Os ho­mens podem nos louvar quando fa­zemos o bem para nós mesmos, mas aquilo que o mundo pode ter em alta estima, pode ser uma abominação aos olhos de Deus, pela falta do prin­cípio de justiça.

Ao aplicar essa parábola aos seus discípulos, o Senhor lhes disse que aprendessem uma lição sobre a prudência e o prevenir-se de antemão atitudes essas muitas vezes presen­tes nos homens bem-sucedidos do mundo. Porém, ao mesmo tempo eles deveriam constantemente evi­tar agir baseados em princípios de conduta que fossem obscuros. "Granjeai amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando essas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos" (Lc 16:9). O que exatamente significa riquezas ou mamom? Na Versão Síria a palavra significa "dinheiro", ou "riquezas", e é usada para contrastar o culto de adoração ao dinheiro com o de ado­ração devida a Deus (Mt 6:24). Mamom, o símbolo da riqueza, era o que o rico na parábola possuía, mas "o mamom da injustiça (i.e., a ausên­cia da bondade) não é nem moral nem imoral, mas amoral. Jesus não disse aos seus discípulos que fizes­sem amigos que tivessem riquezas materiais, mas que usassem dessas riquezas para fazerem amigos. Eles deveriam usar o dinheiro de tal for­ma, que não fosse somente para si próprios, mas para ganharem ami­gos pessoais. Daí, então, quando olhassem para além desse mundo, no qual os homens podem acumular ri­quezas, se eles as perdessem, aque­les amigos que tinham feito através das riquezas os receberiam nos tabernáculos eternos. Aqueles, cujas vidas foram enriquecidas pelo uso prudente das riquezas, saudariam os que as deram, quando estivessem do outro lado da vida. Muitos homens ricos não deixariam tanto para trás, se apenas tivessem feito mais ami­gos através de seu dinheiro.

A lição aqui, então, é clara. As ri­quezas, a influência, a posição, o con­forto ou as oportunidades devem ser usadas aqui na terra de maneira que nunca sejam esquecidas na eterni­dade. Os mordomos de Deus, gene­rosos, nunca perderão a sua recom­pensa. Terão amigos pela eternidade porque usaram prudentemente os seus recursos desse mundo no espírito do amor cristão. Basica­mente devemos prestar contas ao nosso Senhor divino por todos os dons, sejam terrenos ou espiritu­ais, que ele nos tenha confiado para que os administremos como mordomos. Campbell Morgan nos relata uma experiência que teve quando ficou uma vez na casa de um cristão rico. Uma manhã, du­rante as orações em família, aque­le devotado membro da igreja orou eloqüente e ternamente pela salva­ção dos pagãos e pelos missionári­os. Quando terminaram as orações, o pai ficou bastante assustado quando um de seus filhos, um me­nino de dez anos, lhe disse:

"Pai, eu gosto de ouvi-lo orar pe­los missionários". O pai, satisfeito, replicou: "Fico contente que você goste, meu filho". Então, deixando o seu pai um tanto constrangido, dis­se: "Sabe o que eu pensei enquanto o senhor orava? Se eu tivesse a sua conta no banco, eu responderia a metade das suas orações".

Nossa escolha fica entre duas motivações —amor pelas posses em si mesmas, que é amor a si mesmo e resulta no esquecimento dos outros, ou o uso delas como algo que nos foi confiado por Deus, para beneficiar outras pessoas, e para a glória do Doador de todos os excelentes dons. Muitos não conseguem desfrutar do seu mamom, porque o relacionamen­to que têm com ele é deteriorado pelos escrúpulos e repreensões de sua consciência. Essas pessoas tam­bém não conseguem desfrutar de Deus, porque a missão que ele deu é atrapalhada pela indulgência dos seus desejos ilícitos.

A última lição de nosso Senhor é a de que a manifestação do bom sen­so ou prudência constitui-se no tes­te da fé. Se o que temos, seja muito ou pouco, for usado por nós com fidelidade, como servos, e for também utilizado como um exercício de fide­lidade, então aquilo que temos será suficiente para nos prover dos recur­sos de valor eterno. O critério para a recompensa na eternidade será a fidelidade (Ap 2:10). Nosso Senhor elogia a fidelidade, porque produz a prudência e também a conduz. Em todo o tempo os discípulos devem se comportar como responsáveis peran­te um Mestre divino, com relação tanto às coisas pequenas como as grandes; tanto nos negócios desse' mundo como nos dons espirituais. E, na eternidade, os que forem benefi­ciados pelo seu ministério, ou seu dinheiro, ou ambos, serão a sua ale­gria e coroa de regozijo. "Os que fo­rem sábios (astutos como o mor­domo), resplandecerão como o fulgor do Armamento, e os que a muitos ensinam a justiça, refulgirão como as estrelas sempre e eternamente" (Dn 12:3). Dons e graças, usados na obra de Deus, trazem uma satisfação no presente e servem para construir um memorial na eternidade.

(Todas as Parábolas da Bíblia - Herbert Lockyer , Editora Vida, pág 371)

Nenhum comentário:

Postar um comentário