quarta-feira, 11 de abril de 2012

A ÁGUIA E A GALINHA - LEONARDO BOFF


Por Leonardo Boff.

Vamos, finalmente, contar a história narrada por James Aggrey.
O contexto é o seguinte: em meados de 1925, James havia participado de
uma reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação
do domínio colonial inglês. As opiniões se dividiam.
Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política
do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah.
Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E
havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica* dos ingleses. Eram
favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande
mundo tido como civilizado e moderno.
James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada
intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a
causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos
sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma,
própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:
."Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro
para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o
no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas.
Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um
naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
– Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
– De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não
é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de
quase três metros de extensão.
– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um
coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como
águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem
alto e desafiando-a disse:
– Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra,
então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente
ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será
sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurroulhe:
-Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi
para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um
coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram
a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de
uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra,
abra suas asas e voe !
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não
voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que
seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau
das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para
o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.. até confundir-se com o azul do
firmamento... "
E Aggrey terminou conclamando:
– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e
semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E
muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos
águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos.
Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem
aos pés para ciscar.

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