segunda-feira, 30 de julho de 2012

Teologia como ciência especial I O método científico e as concepções de teologia em Hodge, Bavinck, Dooyeweerd e Van Til


André Luiz Geske1
Alvin Plantinga em seu artigo intitulado “Religion and Science”2  traça uma série de definições sobre ciência. Junto com estas definições, ele aponta para a fraqueza de cada uma delas mostrando que aquilo que identifica um campo de estudo como “científico” não faz justiça ao que ele realmente é. Ou seja, Plantinga mostra que os critérios usados para denominar algo como ciência não abarcam todo o campo científico. Então, Plantinga tenta demonstrar quais critérios poderiam identificar algo como ciência afirmando:
Talvez, o melhor que possamos fazer, em caracterizar algo como científico, é dizer que o termo “ciência” aplica-se a uma atividade que é (1) um empreendimento sistemático e disciplinado objetivando encontrar verdade sobre o mundo e (2) tenha um envolvimento empírico significativo. Isso, é claro, é muito vago (Quão sistemático? Quão disciplinado? Quanto envolvimento empírico?) e talvez, indevidamente permissivo. (Astrologia seria contada como ciência mesmo se fosse apenas uma ciência ruim?) Ainda, temos muitos excelentes exemplos de ciência e excelentes exemplos de não ciência. 3
Plantinga reconhece que mesmo propondo estes critérios ainda não se poderia ter uma definição do que realmente é ciência. A principio, quando comparada com as demais ciências, a teologia parece inadequada e incoerente. Entretanto, cada ciência possui suas próprias especificidades, métodos, objetos de estudo e pressupostos. Isso não é diferente para a teologia e é com base em uma análise destes elementos que a ciência teológica deve ser delineada. A filosofia, por exemplo, não tem elementos empíricos para certificar que alguma proposta sua seja de fato verídica, todavia, ninguém trata filosofia como incoerente ou uma não ciência desprovida de valor.

Portanto, a definição de Keller sobre ciência parece ser aproveitável. Ele afirma que ciência é “um sistema de expressões que pode ser justificado em relação a todos os elementos competentes, sistema que serve para angariar e ordenar conhecimentos sobre determinado âmbito de coisas segundo determinada perspectiva.”4  Dessa maneira, cada ciência define seus campos de pesquisa, sua metodologia e quais paradigmas serão usados nesta inquirição, a fim de angariar e elencar determinados conhecimentos sob uma determinada perspectiva e, então, emitir uma conclusão objetiva que sirva para explanar aquele conhecimento ordenado metodicamente. Então, para exemplificar a amplitude desta abordagem, Keller cita Karl Rahner e sua respectiva definição de teologia que se trata do “auto-enunciar-se reflexivo do homem sobre si mesmo, a partir da revelação divina.”5  O único elemento ausente nesta perspectiva de Keller é o padrão pelo qual determinada ciência será avaliada para ser justificável ou não. No caso, a teologia protestante afirma as Escrituras Sagradas como este padrão. No entanto, Keller faz uma distinção muito proveitosa quando afirma “e, assim, [teologia] como ciência humana, que deve ser distinta das outras ciências por uma perspectiva de questionamento própria.” 6 

No entanto, podemos notar em Hodge que a teologia é comparada com as outras ciências. Na visão dele “a Bíblia é para o teólogo o que a natureza é para o cientista.”7  O caráter sistêmico permeia todas as ciências, mas ele é dependente do método que será utilizado. Seguindo o pensamento de Hodge, inevitavelmente o método indutivo seria o método que o teólogo deve utilizar. Isto é, coletar os dados das Escrituras e organizá-los sistematicamente.8
  
Neste respeito, três proposições estão sendo deixados de lado. (1) a teologia trabalha com questões metafísicas e que são anteriores a qualquer raciocínio propriamente. Ou seja, a teologia trabalha com pressuposições básicas interpretadas previamente e (2) o raciocínio humano tem um papel fundamental neste processo, pois dependerá dele que a coleta e análise dos dados sejam satisfatórias. (3) a teologia teria de ser uma ciência estanque sem comunicação com as demais. Hodge faz uma distinção importante para abarcar este último ponto. Ele aponta para a tarefa da teologia bíblica como aquela que deve asseverar e declarar os fatos das Escrituras e a teologia sistemática como aquela responsável em fazer a relação com outras verdades cognatas em outros campos.  Entretanto, a teologia bíblica também deve trabalhar com verdades cognatas de outras áreas, sendo assim, ela não está inerte dedicando-se unicamente a Escritura Sagrada. Logo, qualquer área da teologia terá por obrigação se relacionar com as demais ciências. Quanto ao ponto dois, verifica-se constantemente que a razão humana falha em captar, organizar e analisar dados em qualquer área. Não seria diferente da teologia. Isso não elimina a razão humana, mas aponta para sua limitação e para a necessidade da teologia ser revista sempre a luz das Escrituras Sagradas. A subjetividade humana necessariamente precisa estar debaixo da objetividade das Escrituras. Esta subjetividade liga-se com o primeiro ponto tratando da metafísica da própria criação e das pressuposições que estão envolvidas na construção da teologia. A teologia analisa a realidade última das coisas que a Escritura revela. As Escrituras também mostram os pressupostos que estão envolvidos na construção teológica. Pressupostos anteriores a teologia oriundos do coração humano – subjetividade – que influenciam a forma que a teologia terá quando se confronta com seu objeto de estudo – a revelação de Deus manifesta no horizonte temporal, isto é, as Escrituras Sagradas [objetividade].

Millard Erickson argumenta em favor da cientificidade da Teologia, mas não tão estritamente como a Hodge. Hodge afirma que “o teólogo deve guiar-se pelas mesmas regras do que o cientista.”10  Enquanto isso, Erickson coloca que o cristianismo para ser estudado adequadamente precisa ser uma ciência. No entanto, não precisa ser uma ciência no sentido mais restrito das ciências naturais. Ele cita o conceito europeu de ciência, no qual os alemães fazem diferença entre Naturwissenschaft – ciência da natureza eGeisteswissenschaft – ciência do espírito.11  Nesta última, a teologia se adequaria, pelo fato de tratar com as questões últimas quanto a Deus e sua criação revelada nas Escrituras Sagradas e não com fatos propriamente empíricos e observáveis na natureza. Toda vez que uma ciência, seja ela qual for, especifica seu campo de pesquisa e aprofunda em sua busca por conhecimento buscando o fim último de algo, então ela chega a uma realidade filosófica que está além do campo da verificação. Dessa maneira, Erickson propõe alguns parâmetros científicos para a elaboração da ciência teológica. Muito próximo de Hodge, Erickson afirma que a teologia precisa comportar alguns dos critérios tradicionais do conhecimento científico: (1) Um objeto definido de estudo; (2) um método para investigar o objeto em questão e para verificar suas declarações; (3) objetividade no sentido de que estudo lida com fenômenos externos à experiência imediata do pesquisador, sendo, portanto, acessível a investigação de outros; (4) coerência entre proposições do objeto em questão, de modo que o conteúdo forme um corpo definido de conhecimento, não uma série de fatos desconexos ou pouco relacionados entre si.12  

No entanto, Erickson afirma que a teologia aceita as mesmas regras da lógica que as outras disciplinas. Surgindo dificuldades, a teologia não invoca simplesmente um paradoxo ou a incompreensibilidade. 13Apesar do pensamento teológico de Erickson ser sofisticado, quando ele trata de trindade, ele reconhece mistério e a limitação da mente humana e, com isso, a limitação da lógica para a compreensão deste ponto da teologia.14  O mesmo ocorre quanto a doutrina da dupla natureza de Cristo.15  Provavelmente, ele esteja se referindo a neo-ortodoxia que utiliza o conceito de paradoxo em sua elaboração seguindo a filosofia de Kierkegaard e o conceito de alteridade divina que lança ao longe a possibilidade de se conhecer a Deus. Por isso, Erickson cita a incompreensibilidade junto com o paradoxo.16  Pode-se verificar que a lógica das outras ciências não pode ser aplicada irrestritamente a tudo na teologia.17  Erickson, em contrapartida, argumenta que a teologia ainda é comunicável, pois se utiliza de elaborações proposicionais, aponta para sua semelhança metodológica com a filosofia e a história e finaliza mostrando que ela partilha alguns objetos de estudo com outras disciplinas. Portanto, existe a possibilidade de pelo menos algumas de suas proposições serem confirmadas ou refutadas por outras disciplinas.18 

A tendência de métodos como o de Hodge e Erickson é direcionar-se à uma compreensão mais racional de certa maneira. Fazer teologia indutivamente é considerar a razão livre dos efeitos do pecado.19  Devido à ênfase na razão humana em estruturar os dados coletados das Escrituras Sagradas e engendrar um sistema com base em uma metodologia lógica, a teologia ganha traços de analiticidade em sua construção buscando uma organização toda coerente e livre de aparentes contradições, paradoxos e antinomias. No entanto, na teologia existem questões subjetivas como em toda ciência que devem ser levadas em conta na construção do pensamento teológico. Elementos como a interpretação dos textos das Escrituras e sua elaboração em proposições muitas vezes não se coadunam de maneira perfeita. Não se trata de uma ciência exata e sim de uma ciência mais flexível e que trabalha com questões últimas e espirituais as quais transcendem a capacidade humana. Além disso, mesmos as ciências exatas, as biológicas bem como as humanas devem verificar a existência das pressuposições básicas que norteiam todo o pensamento daquele que trabalha com estas ciências. Estes pressupostos devem ser analisados e trazidos como parte do trabalho de maneira explícita. Isso foi deixado de lado nas ciências. Polanyi afirma:
Temos, então, mostrado que os processos de conhecimento (e também das ciências) de nenhuma maneira assemelham-se a uma conquista impessoal de objetividade abstrata. Eles estão enraizados completamente (desde a seleção de um problema à verificação de uma descoberta) em atos pessoais de integração tácita. Eles não estão fundados em operações explicitas de lógica. A pesquisa científica é, portanto, um exercício dinâmico da imaginação e está enraizada em compromissos e crenças sobre a natureza das coisas.20 
Assim, a ciência teológica precisa fazer justiça às pressuposições que estão por trás de si e que norteiam toda sua construção. O que em um método como proposto por Hodge não teria seu devido espaço. 

 Outro ponto mais importante é que o objeto de estudo da teologia, a revelação de Deus no horizonte temporal - as Escrituras Sagradas - é autoritativa sobre todo raciocínio humano, ou seja, as Escrituras Sagradas não se submetem a estrutura de raciocínio humana. Não é a construção lógico-coerente que atribui à teologia sua validade, mas sim quão próximo do texto bíblico o sistema é construído, fazendo-lhe justiça ao seu respectivo ensino. Pois não é intenção da teologia ter o mesmo valor e o mesmo caráter das Escrituras, pois se assim fosse, não seria necessário teologia, apenas se repetiria a Escritura Sagrada. Além do mais, a teologia não pode almejar ter este caráter preciso, pois as próprias Escrituras Sagradas não almejam tal.21  

Outra concepção sobre a cientificidade da teologia pode ser encontrada em Bavinck. Ele argumenta que a teologia não pode ser apartada da fé, somente quem tem fé pode realmente fazer teologia. Bavinck parte do pressuposto que a “dogmática é o conhecimento que Deus revelou em sua Palavra para sua Igreja acerca de si mesmo e todas as criaturas que se relacionam com ele.”22  Dessa maneira, nunca pode ser deixado de lado o fato de que este conhecimento de Deus só pode ser adquirido através da fé. 23 Assim, teologia é a organização sistêmica desse conhecimento da fé. A Fé é elemento fundamental para se fazer teologia e, por isso, a dogmática não é a ciência da fé e nem da religião e sim a ciência sobre Deus. A tarefa do teólogo é pensar os pensamentos de Deus após ele e investigar sua unidade. Esta é a tarefa a ser feita na confiança de que Deus falou, em humildade e submissão ao ensino tradicional da Igreja e para comunicar a mensagem do evangelho ao mundo. Bavinck busca mostrar que Teologia não é mera especulação, não é uma ciência que qualquer um pode fazer. Ela não é uma ciência como as outras. Sua diferença reside no fato de que aquele que faz teologia precisa necessariamente crer que Deus existe e se revelou em sua Palavra e esta Palavra é a verdade. Teologia não é conhecimento de Deus, pois a fé leva ao conhecimento de Deus, fé fundamenta-se na relação entre Deus e o homem. O propósito da teologia é mediar a fé de seu objeto: “Deus em sua viva autorrevelação. Dogmática não desenvolve doutrinas que nós, então, temos que aceitar com o nosso intelecto, mas mostra as pessoas como a Palavra de Deus deve ser proclamada de modo que leve seus ouvintes à fé verdadeira e os eduque ao um conhecimento interior da fé que corresponde a verdade.”24  

Bavinck, então, mostra que teologia não é mera coleta de dados das Escrituras Sagradas, sua organização e conclusões lógicas. Ele reconhece sua importância fundamental para o desenvolvimento da vida cristã e para o progresso da Igreja em sua tarefa de proclamação. Bavinck reconhece que nem a objetividade científica nem a completa subjetividade são possíveis. Todo conhecimento é arraigado na fé, e para fé ser real ela deve ter um objeto que é conhecível. Isso requer uma divina revelação a qual é mais do que cumprimento de desejos subjetivos. Religião deve ser verdade e prover sua própria trajetória para o conhecimento e certeza.25  

Portanto, a teologia possui um caráter subjetivo e um caráter objetivo simultaneamente e a fé desempenha um papel fundamental neste processo. Logo, a busca por uma rigidez no sistema que não leve em conta elementos humanos nesta construção ou postule algum critério que não seja as Escrituras Sagradas para apontar para a verdade é ingenuidade. Com esta concepção de teologia Bavinck abre um novo horizonte para o pensamento teológico.

A teologia, então, não intenciona ser assertiva em todo tempo, mas uma ciência que contempla outros aspectos da realidade criada e aplica os ensinos propostos pelas Sagradas Escrituras. Teologia é uma ciência fundamentalmente multidisciplinar e dinâmica em seu campo de ação, ou seja, teologia procura aplicar os ensinos das Escrituras Sagradas às demandas de sua época. Dessa maneira, a concepção de Herman Dooyeweerd e Cornelius Van Til acerca da Teologia traz alguns insights pertinentes que precisam ser expostos.

Para Dooyeweerd, a fé é um elemento inerente à criação. No entanto, uma diferença deve ser pontuada: fé salvífica apenas os eleitos por Deus para salvação possuem, aqueles que respondem afirmativamente à chamada do evangelho por intermédio da obra do Espírito Santo. Os outros também possuem fé, mas não no sentido salvífico e por isso forjam ídolos a partir dos elementos da criação para adorar. É essa fé mal direcionada a origem das religiões pagãs. O pecado mal direcionou a fé, que o homem possui, para a criação. Ou seja, fé é um elemento estrutural da criação divina, o que há é um direcionamento negativo ou positivo. 26 Dooyeweerd argumenta que existe a tendência religiosa estrutural do eu humano fazendo referência ao sensus divinitatis exposto por Calvino nas Institutas da Religião Cristã [I.3.I]. Esta fé pode ser apóstata como também devota a Deus, tudo depende da direção.27  

Uma vez que este aspecto estrutural da criação [fé] é confrontado com outro aspecto da criação [lógica] surge, então, a ciência teológica.  Nesta concepção, Dooyeweerd aponta para a possibilidade de haver uma teologia que não seja cristã necessariamente. Isso não quer dizer que seja correta. Contudo, uma vez que a fé é estrutural, as várias manifestações religiosas como um todo, sejam estas cristãs ou não cristãs, podem ser analisadas e sistematizadas. Assim, Dooyeweerd aceita a ideia de que haja, por exemplo, uma “teologia espírita”, o que validará esta teologia é o paradigma pelo qual ela é construída. Pois somente as Escrituras Sagradas são a revelação de Deus e estão aptas para ser este paradigma na formação de boa teologia. Do contrário, esta teologia se mostraria inválida, pois não se baseia na revelação de Deus. De onde vem tal primazia das Escrituras Sagradas? Esta pergunta muito pertinente surge e sua resposta é facilmente encontrada. A primazia das Escrituras Sagradas surge do fato que ela testifica de Jesus Cristo encarnado que é a revelação de Deus ao homem. Nenhuma outra religião trabalha dessa maneira, pois tal é exclusividade do cristianismo e das Sagradas Escrituras. 

Frente a uma possível objeção a este conceito concernente ao caráter sobrenatural da fé, Dooyeweerd argumenta que a fé em seu caráter sobrenatural não pode se originar na experiência humana, mas é exclusivamente o resultado da operação do Espírito Santo através da pregação da Palavra de Deus. 29Aqui, encontra-se o papel da teologia para Dooyeweerd, pois ela é responsável por buscar a compreensão da fé através da Revelação nas Escrituras Sagradas. Dooyeweerd coloca:
Além disso, a teologia dogmática não pode ter outro objeto senão a palavra-revelação divina, a qual contém a doutrina completa da Igreja. A Sagrada Escritura não pode ser entendida sem a exegese de seus textos. E essa exegese requer o conhecimento teológico dos textos originais.30

O estudo científico da teologia é de suma importância para compreender a Revelação divina nas Escrituras Sagradas em sua elaboração nos artigos da fé de modo a evitar distorções e esclarecer seu sentido.31  Visto que a fé está sujeita a norma da fé, isto é, as Escrituras Sagradas. 32 A pregação é feita no horizonte temporal com base nos artigos da fé, utilizando uma linguagem humana estruturada dentro de uma perspectiva lógica aplicada as demandas de determinada época e fruto de um depósito histórico da tradição cristã. Assim, para que não haja equívocos, é necessária uma ciência que estude e esclareça toda esta dinâmica entre as Escrituras Sagradas, os artigos da fé, a história da Igreja, a experiência religiosa e a pregação da Palavra. Dessa maneira, para Dooyeweerd, a teologia é uma ciência do significado da realidade revelada nas Escrituras. O que, automaticamente, leva à consideração de que se a fé tem caráter estrutural e está presente em todos os seres humanos, logo todas as ciências e considerações humanas em certo sentido possuem um elemento teológico. A teologia, então, ganha uma interação com todas as outras ciências preocupando-se com a análise destas crenças que se encontram por trás da elaboração das mesmas.

De forma um pouco diferente, Van Til pensa acerca da teologia. Van Til assume que o ponto último de referência de toda a criação é o próprio Deus.32  Essa referência pode ser positiva quanto negativa. Davi Charles Gomes cunha o termo “Teo-Referência” para indicar que Deus é o ponto de referência último de toda a realidade, com base nas ideias de Van Til. Quando esta Teo-referência é negativa indica o estado de apostasia do ser humano. Mesmo não crendo em Deus, o homem crê em algo, coloca sua esperança em algo, faz deste algo seu ídolo de culto.34  Essa é condição mais básica onde o ser humano se encontra e é a partir deste ponto que o ser humano inicia sua investigação científica. Van Til argumenta:
Nós desejamos conhecer tudo o que Deus deseja que conheçamos. A Bíblia tem muito a dizer sobre o universo. Mas, isso é ocupação da ciência e da filosofia lidar com esta revelação. Indiretamente, mesmo a ciência e a filosofia deveriam ser teológicas. 35
Dessa forma, para Van Til, Teologia é a ciência que lida com a revelação especial de Deus nas Escrituras. Ela tenta organizar todo o ensino das Escrituras em um sistema para expô-lo de maneira adequada evitando, assim, erros e para defender a integridade da doutrina oriunda das Escrituras. 37 

Robert Reymond, em seu livro, The Justification of Knowledge, elenca resumidamente o pensamento vantiliano da seguinte forma:
As insistentes exortações de Van Til são: (1) Não há nenhum fato no universo que seja não-teísta; (2) Todos os fatos são o que eles são por causa do lugar que ocupam no plano todo-inclusivo de Deus; (3) O conhecimento do homem só é possível por causa do conhecimento exaustivo prévio de Deus; (4) O conhecimento do homem, se verdadeiro, é na verdade um pensar do pensamento de Deus diante dEle; (5) A não ser que o teísmo cristão seja verdadeiro, o descrente não pode encontrar significado de nenhum fato e (6) a ilegitimidade da autonomia humana deve ser desafiada em nome do Cristo auto-autenticável das Escrituras. 
A contribuição de Van Til para o pensamento teológico é com respeito ao método que ele emprega. Ele defende que no universo criado por Deus não há fatos brutos, ou seja, neutros. Tudo na criação é criado tendo Deus por referência última e, por isso, esses fatos são previamente interpretados.38 Dessa maneira, para uma compreensão adequada de tudo o que está ao redor é necessário um conhecimento bíblico-teológico, pois todo conhecimento humano é analógico, pois é análogo ao referencial último. Assim, Van Til afirma que “todo conhecimento analógico pode ser chamado de conhecimento teológico.”39  Se a teo-referência for negativa tenderá a colocar o homem como referencial e, disso construir seu pensamento teórico. Por exemplo, o naturalismo é uma concepção norteadora para muitas das ciências atuais senão todas, e tem sua referência na realidade fenomenal e, assim, não transcende para outras questões que não possam ser averiguadas empiricamente. Uma Teo-referência positiva parte do princípio que Deus criou todas as coisas e que o que existe, existe por vontade de Deus e é o que é, pois o próprio Deus atribui o significado de cada coisa desde a criação. Van Til com este raciocínio pretende mostrar a necessidade da teologia como ciência responsável pelo significado da realidade, visto ela ocupar-se diretamente com as Escrituras Sagradas. Ou seja, as coisas antes de ser o que são, são significado. Deus pré-interpreta os fatos do universo, sendo analógico o conhecimento humano, o homem re-interpreta o significado destes fatos. Van Til não está negando as verdades que a ciência já alcançou apesar de serem feitas contra Deus, pois o homem inevitavelmente “tropeça” nas estruturas da criação, mas que o pensamento verdadeiro sempre encontra o significado em última instância em Deus. Nas palavras de Van Til “toda predicação humana é uma re-interpretação analógica da pré-interpretação de Deus.” 40 Quando o método indutivo é empregado, reconhece a razão humana como um não cristão geralmente a reconhece, ou seja, a razão não foi afetada pelo pecado e os efeitos noéticos da queda não teriam efeito sobre a mente, equiparando-a, então, com a mente de Deus.41  Assim, desconsideraria a enfermidade da razão humana e quão turva ela se encontra. Essa pressuposição introduzida juntamente com o método indutivo leva a concepção da autonomia da razão. 

Tanto Dooyeweerd quanto Van Til apontam para uma elaboração teológica científica, no entanto, com uma proposta hermenêutica em sua abordagem. Ambos os teólogos enfatizam a significação ao invés da metafísica o que não acontece com muitos outros. A preocupação deles não permanece apenas no nível da doutrina propriamente ensinada nas Escrituras. Suas propostas contemplam as pressuposições que estão por de trás da construção de determinada teologia. Eles tentam evitar que a razão humana ou qualquer outro elemento seja autônomo, pelo contrário, que todo o pensamento teológico seja levado cativo a Cristo. Assim, a teologia acaba ganhando novos matizes em sua elaboração e sofisticando-se para evitar conceituações equivocadas como aquelas que nascem à luz de dualismos. Esse reconhecimento leva a uma reflexão mais detida acerca de outros elementos presentes nesse processo de elaboração da teologia. 

Portanto, qualquer estudioso que pretenda pensar em questões teológicas precisa inevitavelmente refletir sobre as colocações que pensadores como esses citados fizeram a fim de produzir uma teologia sadia em conformidade com as Escrituras Sagradas e auto-avaliando os pressupostos de seu pensamento. Nenhuma ciência tem autonomia a questão é: a que cada ciência está atrelada ou mais especificamente qual real fundamento sobre o qual cada teologia tem sido feita?
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Candidato ao Sagrado Ministério da Igreja Presbiteriana do Brasil. Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev.  2PLANTINGA, A., Religion and Science, Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2007. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/religion-science/#ConCon acessado em: 21 de Janeiro de 2012 às 10:10.
3PLANTINGA, A., Religion and Science, Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2007. Disponível em:http://plato.stanford.edu/entries/religion-science/#ConCon acessado em: 21 de Janeiro de 2012 às 10:10.
4KELLER, A., Teoria Geral do Conhecimento, São Paulo: Loyola, 2006. P. 52.
5KELLER, A., Teoria Geral do Conhecimento, São Paulo: Loyola, 2006. P. 56.
6KELLER, A., Teoria Geral do Conhecimento, São Paulo: Loyola, 2006. P. 56.
7HODGE, C., Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001. P. 8.
8HODGE, C., Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001. P. 8.
9HODGE, C., Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001. P. 1.
10HODGE, C., Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001. P. 9.
11ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 18.
12ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 18.
13ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 18.
14Ver: ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 139.
15Ver: ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 306-308.
16Esta suposição é feita com base nos Escritos de Barth e suas influências oriundas da filosofia existencial de Kierkegaard. 17 Pode ser visto algo assim em CLARK, G.H., Em Defesa da Teologia, Brasília: Editora Monergismo, 2010. P. 53. 
18A questão da lógica será tratada em um momento oportuno a fim de dedicar espaço suficiente a uma discussão tão importante. Por enquanto, nota-se a limitação desta ciência quando utilizada na elaboração teológica. Isso não implica na desconsideração dela como uma ferramenta apropriada e de grande utilidade na teologia. No entanto, há a necessidade de se localizá-la de modo que possa cumprir seu papel sem ser absolutizada ou mesmo descartada. A própria filosofia e a ciência de maneira geral já identificaram sua limitação e, assim, verifica-se o surgimento de outros sistemas lógicos não aristotélicos.
19ERICKSON, M., Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997. P. 18.
20Ver. VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 21. Este colocação será melhor trabalhada no pensamento de Van Til.
21POLANYI, M., & PROSCH, H., Meaning, Chicago: University of Chicago Press, 1975. P. 63.
22FRAME, J., A Doutrina do Conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. P.198.
23BAVINCK, H., Reformed Dogmatics – Prolegomena, Vol. 1, Grand Rapids: Baker Academic Press, 2003. P. 25.
24BAVINCK, H., Reformed Dogmatics – Prolegomena, Vol. 1, Grand Rapids: Baker Academic Press, 2003. P. 25.
25BAVINCK, H., Reformed Dogmatics – Prolegomena, Vol. 1, Grand Rapids: Baker Academic Press, 2003. P. 59.
26Cf. DOOYEWEERD, H., No Crepúsculo do Pensamento Ocidental – Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, São Paulo: Hagnos, 2010. P. 201.
27DOOYEWEERD, H., No Crepúsculo do Pensamento Ocidental – Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, São Paulo: Hagnos, 2010. P. 83.
28Dooyeweerd elenca quinze aspectos da criação irreduzíveis que compõe a realidade criada. A fé é um destes aspectos sendo o mais alto de todos em uma escala de complexidade. Quando qualquer um destes aspectos é contraposto ao aspecto da lógica forma-se então uma ciência. Por exemplo, quando o aspecto biótico da criação é contraposto com o aspecto lógico, logo, se obtém a ciência da biologia ou quando o aspecto psíquico da criação é contraposto ao aspecto lógico se obtém a psicologia.
29DOOYEWEERD, H., No Crepúsculo do Pensamento Ocidental – Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, São Paulo: Hagnos, 2010. P. 197.
30DOOYEWEERD, H., No Crepúsculo do Pensamento Ocidental – Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, São Paulo: Hagnos, 2010. P. 197.
31DOOYEWEERD, H., No Crepúsculo do Pensamento Ocidental – Estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, São Paulo: Hagnos, 2010. P. 213. Nota 185.
32OLIVEIRA, F. A., Uma Introdução ao Pensamento de Herman Dooyeweerd, São Paulo: CPAJ, 2011. P. 96. Apostila de curso ministrado. Material não publicado.
33VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 12.
34GOMES, D. C., A Metapsicologia Vantiliana: Uma incursão preliminar. In: Fides Reformata XI:1 (2006), P. 116, nota 4. 
35VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 1.
36VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 4-7. Passim.
37REYMOND, R. L., The Justification of Knowledge, An Introductory Study in Christian Apologetic Methodology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1998. P. 70.
38VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 15. Passim.
39VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 14
40VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 171.
41VAN TIL, C., An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg: P&RP Pub, 1974. P. 21

TODO CRISTÃO É TEÓLOGO


Roger E. Olson
 
Um influente cristão, professor de Bíblia e pregador de rádio, ironizou: “Feliz é o cristão que nunca se encontrou com um teólogo!”. Que ele quis dizer? Não são poucos os mal-entendidos, estereótipos, mitos e falsas impressões que cercam a teologia – até mesmo nas comunidades cristãs. Na realidade, parece haver um preconceito crescente contra a teologia e os teólogos em alguns círculos cristãos.
 
Todo teólogo sabe disso e sente-se frustrado com essa concepção negativa. Numa manhã de domingo, eu (Roger) cheguei a uma igreja para falar a uma classe de escola dominical de adultos sobre o tópico “Teologia do século XX” e recebi uma carta anônima enviada ao endereço da igreja, mas dirigida a mim. O remetente vira o anúncio da série de palestras na coluna da igreja no jornal da cidade e escreveu duas páginas com fortíssimas objeções. Lançava imprecações contra a teologia, dando a entender que ela não passa de um substituto precário ao relacionamento pessoal com Deus!
 
Teólogos Anônimos
 
A impressionante ironia das afirmações do professor de Bíblia e da diatribe do autor da carta é esta: ambos são teólogos – cada um à sua maneira! Teologia é qualquer reflexão sobre as questões essenciais da vida que aponte para Deus. Por conseqüência, tanto o professor quanto o missivista são teólogos. Nós os chamaremos “teólogos anônimos”, porque, como a maioria das pessoas, não se dão conta de que o são.
 
Ninguém que reflita sobre as perguntas cruciais da vida escapa de fazer teologia. E qualquer um que reflita sobre as questões fundamentais da vida – incluindo perguntas sobre Deus e nossa relação com ele – é teólogo.
 
Uma jovem, sentada em meu escritório, compartilhava seus sonhos e aspirações. Depois de alguns estudos bíblicos e cursos teológicos, interessara-se em explorar melhor as questões acerca de Deus, da salvação e da vida cristã. Numa guinada crucial da conversa, ela fitou-me com algum receio nos olhos e disse: “Sabe, acho que gostaria de ser teóloga – se conseguir chegar lá!”.
 
Descobri por trás do medo uma concepção errônea, que faz do teólogo uma criatura temível, preocupada apenas em elaborar pensamentos profundos e perturbadores, incompreensíveis à maioria das pessoas. Minha resposta tentava aliviar aquela ansiedade. Disse-lhe: “Você já é uma teóloga!”. Expliquei-lhe que ela poderia ser chamada por Deus para fazer carreira por essa trilha da existência cristã – refletir sobre as questões cruciais da vida, inclusive sobre Deus –, mas que atender ou não a esse chamado não mudaria sua condição de teóloga.
 
Cresce entre os cristãos a concepção errônea de que existe um grande abismo entre “cristãos comuns” e “teólogos”. Para alguns, a percepção desse abismo gera medo; para outros, suspeita e ressentimento. É nosso propósito fechar o vão e mostrar que cada pessoa – especialmente o cristão – é um teólogo e que o profissional da teologia é simplesmente o cristão vocacionado para fazer o que de certa maneira fazem os demais cristãos: pensar e ensinar acerca de Deus.
 
Ao longo deste livro, portanto, tentaremos mostrar duas coisas. Primeira: a teologia é inevitável ao cristão que pensa, e a diferença entre teólogos profissionais ou não é apenas de posição, não de qualidade. Segunda: profissionais ou não, os teólogos (todos os cristãos que pensam, independentemente da denominação) precisam uns dos outros. Teólogos profissionais existem para servir à comunidade de fé, não para ditar-lhe as crenças ou para dominá-la intelectualmente. Os teólogos leigos precisam dos profissionais, pois estes fornecem àqueles as ferramentas para o estudo da Bíblia, a perspectiva histórica e a articulação sistemática, meios que lhes permitem aprimorar a prática da teologia.
 
O termo “teologia” é formado pela combinação de duas palavras gregas: theos, que significa “Deus”, e logos, que significa “razão”, “sabedoria” ou “pensamento”. Portanto, “teologia” significa literalmente “pensamento de Deus” ou “raciocinar sobre Deus”. Alguns dicionários, de modo mais formal e específico, a definem como “a ciência de Deus”. Nessa acepção, porém, “ciência” significa simplesmente “reflexão sobre algo”. Logo, no nível mais básico, “teologia” é qualquer pensamento que reflita ou contemple a realidade de Deus – até mesmo o debate sobre ele.
 
Deus está presente em todas as questões básicas da vida. Sempre e em todo lugar que alguém reflete sobre os grandes porquês da vida, há pelo menos uma reflexão indireta acerca de Deus ou direcionada a ele. Deus é o horizonte de toda indagação humana. Isso significa que, de forma surpreendente, até mesmo autores populares, compositores, novelistas, poetas e as mentes criativas da cultura popular atuam como teólogos.
 
Um exemplo eminente é o famoso cineasta e ator Woody Allen. Alguns de seus filmes estão centrados na psicologia. Muitos deles, porém, dão o mesmo tratamento à teologia. Em Crimes e Pecados, Allen explora a grande pergunta, repetidas vezes levantada pelo salmista: “Por que os maus prosperam e os íntegros sofrem?”. Embora não ocorra com freqüência a pergunta explícita acerca de Deus nesse filme, o tema “Deus” está implícito na pergunta aflitiva “Por quê?”. Por quê? Obviamente porque, não existindo Deus, a pergunta deixa de ser aflitiva! Por que afligir-se com algo que pode ser simplesmente uma lei natural – a assim chamada sobrevivência dos mais aptos? “Por que os maus prosperam e os íntegros sofrem?” somente será uma pergunta aflitiva se Deus for o horizonte derradeiro da existência humana. Em última análise, portanto, a pergunta é uma indagação acerca de Deus: “Por que Deus permite que essas coisas aconteçam?”. Woody Allen e outros teólogos anônimos da cultura popular levantam a questão, muitas vezes de modo surpreendente e proveitoso.
 
Teologia de Cosmovisão
 
Em determinado momento da vida, toda pessoa tem de defrontar e debater-se com questões que apontam para a pergunta fundamental acerca de Deus. Reconheçamos que nem todos a formulam explicitamente. Não obstante, até mesmo onde é ignorado ou negado, Deus continua sendo o último horizonte – pano de fundo e alvo – em relação ao qual surgem e para o qual apontam todas as perguntas fundamentais da vida. Nesse sentido, toda pessoa reflexiva é um teólogo.
 
Um modo de o iniciante captar a universalidade da teologia, portanto, é vê-la como a indagação e a reflexão sobre as perguntas fundamentais da vida. Arthur Holmes, professor de filosofia da Universidade de Wheaton, rotula essa teologia mais elementar e universal “teologia de cosmovisão” (visão de mundo). Ou seja, desde tempos imemoriais, pessoas comuns, homens e mulheres nas ruas e no mercado, bem como pensadores profissionais em suas torres de marfim, refletem sobre certas perguntas permanentes da vida.
 
Em momentos menos meditativos, tais perguntas talvez soem tolas para muitos de nós. Por exemplo, um filósofo moderno argumenta que a pergunta mais importante de todas é: “Por que existe algo, ao invés de não existir nada?”. Contudo, até mesmo essa pergunta aparentemente abstrata e irrespondível possui certa atração, por ser simplesmente a expressão maior da indagação mais comum, que todo ser reflexivo levanta vez por outra: “Por que estou aqui?”. Outras perguntas cruciais da vida são: “Que devo fazer com minha existência?”; “Que é verdadeiramente viver bem?”; “Será que existe algo após a morte?”.
 
A mais importante dentre as perguntas fundamentais da vida é aquela acerca de Deus, porque para ela apontam as demais. Se existe Deus – o Criador “do céu e da terra” –, então todas as outras interrogações adquirem significado novo e obtêm eventuais respostas, que de outro modo conduziriam somente a becos sem saída.
 
A teologia de cosmovisão (visão de mundo) é comum a todas as pessoas que pensam, porque indagar das questões fundamentais da vida faz parte da existência humana. Isso poderia ser em si mesmo um indicativo de que existe Alguém além de nós.
 
Teologia Cristã
 
Que diremos, porém, sobre a teologia cristã? Iria além da teologia de sentido vago e genérico mencionada acima? Ela de fato faz isso. Como definir, então, de forma apropriada, a teologia cristã? Uma definição de longa data é “fé em busca de entendimento”. A despeito das interpretações equivocadas, a teologia cristã não diz: “Entenda e depois creia”. Pelo contrário, procura entender com o intelecto o que o coração – o cerne do caráter de uma pessoa – já crê e com o qual está comprometido.
 
Essa definição de teologia remonta no mínimo ao grande teólogo medieval Anselmo de Cantuária. Anselmo foi monge, teólogo, filósofo e arcebispo de Cantuária no século XII. Ele é famoso por formular o que muitos supõem ser a prova racional perfeita da existência de Deus – o chamado argumento ontológico, cuja intenção é demonstrar, acima de qualquer dúvida possível, que Deus precisa existir, com base na definição de Deus como “o Ser, maior que o qual ninguém pode ser concebido”.
 
Por causa de seus escritos, Anselmo conquistou a reputação imerecida de ser um racionalista radical – alguém que se recusava a crer em qualquer coisa que não pudesse ser provada. Na realidade, Anselmo escreveu a maioria de suas grandes obras, incluindo as versões do argumento ontológico acerca da existência de Deus, em forma de oração! Numa dessas orações, deixou absolutamente claro que não estava tentando provar a existência de Deus para crer, mas porque já tinha fé. Seu lema era: Credo ut intelligam – “Creio para poder entender”.
 
A fé em busca de entendimento, portanto, é um modo diferente de expressar o cerne da teologia em Anselmo. Iniciamos com a fé, que em última análise é um misterioso presente da graça. No entanto, isso não significa que a pessoa não exerça nenhum papel. Mas a fé é mais que simplesmente optar por acreditar em algo e com certeza mais que um substituto precário a bons argumentos. Fé é ser cativado por alguém – Alguém! – que convoque e reivindique nossa vida.
 
É deste modo que a vida cristã começa: com graça e fé, não com a razão. A razão pode exercer um papel e ser um instrumento no chamado de Deus, no entanto ninguém se tomará cristão simplesmente por chegar ao fim de uma corrente puramente humana de argumentos e concluir: “Bem, penso que se quero ser racional tenho de acreditar em Deus e em Jesus Cristo”. Não, a gênese do cristianismo autêntico pode conter um processo racional, mas não pode ser reduzida a isso. Fé é o elemento misterioso que implica convicção pessoal, discernimento a partir de outra posição e coração transformado, que se inclina para Deus de maneira nova.
 
Ligando a Teologia de Cosmovisão à Teologia Cristã
 
Como conectar esses dois tipos de teologia – a que é própria dos que pensam (ou teologia de visão de mundo) e a que é comum a todos os cristãos? Parece que as questões fundamentais da vida servem como sinais ou pistas de transcendência. Ou seja, apontam para cima, para algo ou alguém atrás da existência finita da criatura. Podemos denominar “a busca da humanidade por Deus” o processo e a prática de refletir sobre as perguntas mais importantes da vida. É uma procura universal que se mostrará sempre frustrada, a menos que essa busca se torne “Deus procurando pela humanidade”.
 
Os cristãos acreditam que foi exatamente isso que aconteceu na história narrada pela Bíblia. Deus começou a enviar respostas às indagações humanas por intermédio de eventos históricos, grupos de pessoas, profetas, mensagens inspiradas e finalmente pela vinda de Deus em pessoa para conviver com os seres humanos. Os cristãos crêem que a narrativa bíblica responde às perguntas fundamentais da vida. Recebê-las e reconhecê-las como Palavra de Deus, todavia, são obras da graça de Deus e decorrência da fé. Por fim, reconhecer a Deus não é somente uma descoberta filosófica, embora a pessoa possa se abrir primeiro a Deus e à sua palavra, reconhecendo a correlação entre as respostas ali encontradas e as perguntas fundamentais e perenes da vida.
 
Este é o motivo por que a teologia cristã é superior à teologia de cosmovisão: a primeira completa e consuma a segunda. O cristão, portanto, não é apenas um teólogo limitado à reflexão sobre as perguntas cruciais da vida, como Woody Allen, e sim alguém capaz de refletir sobre o significado da Palavra de Deus e sobre como ela ilumina a vida, conferindo sentido e propósito à existência.
 
A fé cristã autêntica leva-nos a gravitar em torno do entendimento desse Deus que reivindicou nossa vida para si. E, à medida que procura entender o significado da fé para responder às perguntas extremas da vida ou simplesmente às questões básicas sobre o relacionamento com Deus, o cristão já faz teologia.
 
Logo, você é um teólogo cristão. Talvez nunca tenha pensado desse modo, por considerar a teologia misteriosa ou mesmo perigosa. Muitos cristãos julgam erroneamente que a teologia consiste em interrogar a Deus ou em questionar a autoridade da Bíblia e daí concluem que a teologia é uma ameaça à fé. Talvez você tenha sofrido com esse equívoco ou conheça alguém que sofreu. Talvez você tenha sido advertido por um cristão bem intencionado a tomar cuidado com o estudo da teologia “porque ela pode destruir sua fé”.
 
As advertências desestimulantes partem da família e dos amigos. Alguns de nossos mentores espirituais tentaram nos dissuadir do estudo da teologia impelidos pelo preconceito profundamente arraigado que a considera substituto da fé. Estamos felizes por haver superado essas objeções, porque para nós a teologia foi e continua sendo o estudo libertador e enriquecedor que nos aproxima cada vez mais de Deus.
 
Níveis de Teologia na Prática
 
Até aqui afirmamos que todo ser humano é teólogo e que todo cristão é ou deveria ser teólogo cristão. A forma como definimos teologia, teólogo e teólogo cristão pode dar a entender que embaralhamos as cartas a favor de nosso argumento. Mas não manipulamos as palavras. Pelo contrário, tentamos mostrar que há níveis distintos de teologia. Todo cristão pode ser teólogo, mas nem por isso as teologias se tomam iguais. Analisaremos os diferentes tipos e níveis de teologia no próximo capítulo, mas por ora fará bem antecipar algo dessa discussão.
 
Para esclarecer o pressuposto de que toda pessoa é teólogo, recorreremos a algumas analogias. Você acreditaria se disséssemos que todo cidadão é químico? Cientista político? Psicólogo? Matemático? Qualquer um que cozinhe utilizando receitas é, em certo sentido, químico. Sem conhecimento rudimentar – pelo menos intuitivo – de substâncias, medidas, combinações e efeitos de temperaturas, jamais conseguiríamos cozinhar nada.
 
Cozinhar, portanto, é talvez a forma mais básica de química leiga. Imagine agora o cozinheiro amador que decida melhorar suas habilidades para satisfazer o paladar dos convidados com delícias da culinária. O caminho mais seguro e acertado é fazer um curso e ler alguns livros. O cozinheiro torna-se chefe de cozinha desenvolvendo suas habilidades e seu conhecimento de química. Obviamente isso ainda está muito distante da ciência química tal como é estudada e praticada nos laboratórios universitários! Não obstante, há certa continuidade entre a prática do cozinheiro nas artes culinárias e a ciência do químico.
 
Qualquer cidadão que participe de uma assembléia da cidade, de uma reunião com a direção da escola ou da convenção de seu partido é cientista político. Suponhamos que o eleitor instruído decida candidatar-se ao conselho escolar. No processo, ele necessariamente afiará seu conhecimento e sua habilidade para a prática da ciência política. Talvez leia bons livros sobre teoria política e daí desenvolva a filosofia da polis (“comunidade”). Sem dúvida, isso está muito longe da disciplina altamente teórica e às vezes especulativa tal como ensinada nas universidades. Não obstante, há continuidade real entre o envolvimento do participante informado acerca de política partidária e as teorias do cientista político.
 
Analogias idênticas podem ser estabelecidas nas áreas da psicologia e da matemática. De algum modo, cada um de nós é psicólogo amador. Mas sempre que alguém decide ir além da interpretação intuitiva de sonhos e investigar o funcionamento do subconsciente, ele caminha em direção à ciência da psicologia. Controlar um talão de cheques constitui-se uma forma rudimentar de matemática, embora haja obviamente águas bem mais profundas a serem atravessadas por quem optar por ela.
 
Suponha que você ouviu um cozinheiro amador queixar-se da ciência formal da química por não ser possível praticá-la exaustivamente na cozinha, por demandar ferramentas especializadas, vocabulário e conceitos em geral encontrados apenas em laboratórios bem equipados e bibliotecas: “Feliz é o cozinheiro que nunca se encontrou com um químico!”. Absurdo? Sem dúvida.
 
Imagine que você escutou o delegado de uma convenção política do bairro queixar-se dos cientistas políticos pelo fato de suas teorias serem difíceis de entender e “tirarem a vitalidade da política”. Suponha que o intérprete leigo de sonhos reclame dos psicólogos por serem tão intelectuais, ou imagine o caixa de banco criticando a matemática por ser abstrata. Todos esses absurdos podem acontecer – e talvez aconteçam! Mas a maioria das pessoas franziria a testa e diria algo como: “Sabe, você poderia ser um cozinheiro melhor se conhecesse um pouco mais de química e equipasse melhor sua cozinha” ou: “Lidar com dinheiro pode ser mais divertido que a matemática, mas sem ela você prejudicará os clientes ou o banco”.
 
Nosso argumento é óbvio: “Pelo fato de crerem em Deus e acreditarem que ele se relaciona com eles de diversas maneiras (pela Palavra, pela graça, pela fé, pela oração etc.), os cristãos fariam bem em aprofundar-se no significado de Deus e em tentar conhecê-lo da forma mais completa possível, com todas as forças de seu ser – tanto com a mente quanto com o coração. Deveriam reconhecer que são teólogos leigos e valorizar a ajuda recebida da teologia formal. É óbvio que, como teólogos profissionais, admitimos que o verdadeiro motivo de nossa profissão é ajudar cristãos ordenados ou não a aumentar sua compreensão acerca de Deus. A continuidade e a correlação deveriam substituir a hostilidade, o medo ou a suspeita entre teólogos leigos e profissionais. Na descoberta da verdade acerca de Deus e de seu relacionamento conosco eles são interdependentes e trazem benefícios um ao outro.
 
O título deste livro é uma pergunta: Quem precisa de teologia? A resposta que elaboramos de ponta a ponta é semelhante à que poderia aparecer num livro análogo intitulado Quem precisa de química?, direcionado a cozinheiros e donas de casa. Podemos imaginar outro livro, Quem precisa de psicologia?, destinado a pessoas que buscam compreender a si mesmas.Quem precisa de matemática? poderia ser um bom livro para caixas de banco, escriturários e contadores. A resposta à pergunta expressa no título de cada livro seria a mesma: todo o mundo!
 
Cada uma dessas obras provavelmente salientaria que todo leitor já é químico ou psicólogo ou matemático – em algum nível. E é provável que os leitores respondessem com entusiasmo a essa declaração.
 
Nossa esperança é que você responda entusiasticamente à declaração de que já é teólogo – e que até mesmo ela o atinja como um choque. Obviamente, não pretendemos afirmar que você já é ou será um teólogo profissional – nem todos devem sê-lo. É nosso desejo, porém, que, ao perceber que é teólogo, você resista às alegações, mesmo as provenientes de cristãos devotos, que tentam convencê-lo de que a teologia é nociva ou simplesmente um devaneio ou ainda uma ameaça à verdadeira fé.
 
Agora, porém, transportamo-nos da teologia em sentido mais geral para a teologia em “sua melhor forma”. O que se pretende ao discorrer sobre diferentes tipos e níveis de teologia e sustentar que nem todas as teologias são iguais? Essas são as questões sobre as quais nos debruçaremos em seguida.