quinta-feira, 26 de julho de 2012

O CALCANHAR - DE - AQUILES DO CONHECIMENTO





 Por Edgar Morin
A educação deve mostrar que não há conhecimento que
não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão.

A teoria da informação mostra que existe o risco do erro sob o
efeito de perturbações aleatórias ou de ruídos (noise), em qualquer
transmissão de informação, em qualquer comunicação de
mensagem.
O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo
externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e
reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados
e codificados pelos sentidos. Daí resultam, sabemos bem, os
inúmeros erros de percepção que nos vêm de nosso sentido mais
confiável, o da visão. Ao erro de percepção acrescenta-se o erro
intelectual. O conhecimento, sob forma de palavra, de idéia, de
teoria, é o fruto de uma tradução/reconstrução por meio da linguagem
e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro.
Este conhecimento, ao mesmo tempo tradução e reconstrução,
comporta a interpretação, o que introduz o risco do erro na subjetividade
do conhecedor, de sua visão do mundo e de seus princípios
de conhecimento. Daí os numerosos erros de concepção e
de idéias que sobrevêm a despeito de nossos controles racionais.
A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações
mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos
de erro.
Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro,
recalcando toda afetividade. De fato, o sentimento, a raiva, o
amor e a amizade podem-nos cegar. Mas é preciso dizer que já
no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o desenvolvimento
da inteligência é inseparável do mundo da afetividade,
isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da
pesquisa filosófica ou científica. A afetividade pode asfixiar o
conhecimento, mas pode também fortalecê-lo. Há estreita relação
entre inteligência e afetividade: a faculdade de raciocinar
pode ser diminuída, ou mesmo destruída, pelo déficit de emoção;
o enfraquecimento da capacidade de reagir emocionalmente
pode mesmo estar na raiz de comportamentos irracionais.
Portanto, não há um estágio superior da razão dominante
da emoção, mas um eixo intelecto ↔ afeto e, de certa maneira, a

capacidade de emoções é indispensável ao estabelecimento de
comportamentos racionais.
O desenvolvimento do conhecimento científico é poderoso
meio de detecção dos erros e de luta contra as ilusões. Entretanto,
os paradigmas que controlam a ciência podem desenvolver
ilusões, e nenhuma teoria científica está imune para sempre contra
o erro. Além disso, o conhecimento científico não pode tratar
sozinho dos problemas epistemológicos, filosóficos e éticos.
A educação deve-se dedicar, por conseguinte, à identificação
da origem de erros, ilusões e cegueiras.
1.1 Os erros mentais
Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação
da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjetivo
do objetivo.
A importância da fantasia e do imaginário no ser humano é
inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema
neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o
mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto, enquanto
98% se referem ao funcionamento interno, constituiu-se um
mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam
necessidades, sonhos, desejos, idéias, imagens, fantasias, e
este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo
exterior.
Cada mente é dotada também de potencial de mentira para
si próprio (self-deception), que é fonte permanente de erros e de
ilusões. O egocentrismo, a necessidade de autojustificativa, a tendência
a projetar sobre o outro a causa do mal fazem com que
cada um minta para si próprio, sem detectar esta mentira da qual,
contudo, é o autor.
A própria memória é também fonte de erros inúmeros. A
memória, não-regenerada pela rememoração, tende a degradar

se, mas cada rememoração pode embelezá-la ou desfigurá-la.
Nossa mente, inconscientemente, tende a selecionar as lembranças
que nos convêm e a recalcar, ou mesmo apagar, aquelas desfavoráveis,
e cada qual pode atribuir-se um papel vantajoso. Tende
a deformar as recordações por projeções ou confusões inconscientes.
Existem, às vezes, falsas lembranças que julgamos ter vivido,
assim como recordações recalcadas a tal ponto que acreditamos
jamais as ter vivido. Assim, a memória, fonte insubstituível
de verdade, pode ela própria estar sujeita aos erros e às ilusões.
1.2 Os erros intelectuais
Nossos sistemas de idéias (teorias, doutrinas, ideologias) estão
não apenas sujeitos ao erro, mas também protegem os erros
e ilusões neles inscritos. Está na lógica organizadora de qualquer
sistema de idéias resistir à informação que não lhe convém ou
que não pode assimilar. As teorias resistem à agressão das teorias
inimigas ou dos argumentos contrários. Ainda que as teorias científicas
sejam as únicas a aceitar a possibilidade de serem refutadas,
tendem a manifestar esta resistência. Quanto às doutrinas,
que são teorias fechadas sobre elas mesmas e absolutamente
convencidas de sua verdade, são invulneráveis a qualquer crítica
que denuncie seus erros.
1.3 Os erros da razão
O que permite a distinção entre vigília e sonho, imaginário e
real, subjetivo e objetivo é a atividade racional da mente, que
apela para o controle do ambiente (resistência física do meio ao
desejo e ao imaginário), para o controle da prática (atividade
verificadora), para o controle da cultura (referência ao saber comum),
para o controle do próximo (será que você vê o mesmo
que eu?), para o controle cortical (memória, operações lógicas).
Dito de outra maneira, é a racionalidade que é corretiva.

A racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão.
Por um lado, existe a racionalidade construtiva que elabora teorias
coerentes, verificando o caráter lógico da organização teórica, a
compatibilidade entre as idéias que compõem a teoria, a concordância
entre suas asserções e os dados empíricos aos quais se aplica:
tal racionalidade deve permanecer aberta ao que a contesta
para evitar que se feche em doutrina e se converta em racionalização;
por outro lado, há a racionalidade crítica exercida particularmente
sobre os erros e ilusões das crenças, doutrinas e teorias.
Mas a racionalidade traz também em seu seio uma possibilidade
de erro e de ilusão quando se perverte, como acabamos de indicar,
em racionalização. A racionalização se crê racional porque
constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou
na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e
nega-se à contestação de argumentos e à verificação empírica. A
racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. A racionalização
nutre-se nas mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui
uma das fontes mais poderosas de erros e ilusões. Dessa maneira,
uma doutrina que obedece a um modelo mecanicista e determinista
para considerar o mundo não é racional, mas racionalizadora.
A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com
o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância
lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado
das idéias, e não a propriedade de um sistema de idéias. O
racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e
a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de
afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade
conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo;
sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a
realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o
obscuro, o irracionalizável. É não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-
se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar
suas insuficiências.
A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas
as mentes dos cientistas e técnicos e de que são desprovidos os

demais. Os sábios atomistas, racionais em sua área de competência
e sob a coação do laboratório, podem ser completamente
irracionais em política ou na vida privada.
Da mesma forma, a racionalidade não é uma qualidade da
qual a civilização ocidental teria o monopólio. O ocidente europeu
acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade,
vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava
qualquer cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico.
Entretanto, devemos saber que em qualquer sociedade, mesmo
arcaica, há racionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia
da caça, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo,
ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião. Em nossas
sociedades ocidentais estão também presentes mitos, magia, religião,
inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso.
Começamos a nos tornar verdadeiramente racionais quando
reconhecemos a racionalização até em nossa racionalidade e
reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o mito de nossa
razão toda-poderosa e do progresso garantido.
Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro
um princípio de incerteza racional: a racionalidade corre risco
constante, caso não mantenha vigilante autocrítica quanto a cair na
ilusão racionalizadora. Isso significa que a verdadeira racionalidade
não é apenas teórica, apenas crítica, mas também autocrítica.
1.4 As cegueiras paradigmáticas
Não se joga o jogo da verdade e do erro somente na verificação
empírica e na coerência lógica das teorias. Joga-se também,
profundamente, na zona invisível dos paradigmas. A educação
deve levar isso em consideração.
Um paradigma pode ser definido por:
• Promoção/seleção dos conceitos-mestres da inteligibilidade.
Assim, a Ordem, nas concepções deterministas, a Matéria,

nas concepções materialistas, o Espírito, nas concepções
espiritualistas, a Estrutura, nas concepções estruturalistas, são
os conceitos-mestres selecionados/selecionadores, que
excluem ou subordinam os conceitos que lhes são antinômicos
(a desordem, o espírito, a matéria, o acontecimento). Desse
modo, o nível paradigmático é o do princípio de seleção das
idéias que estão integradas no discurso ou na teoria, ou postas
de lado e rejeitadas.
• Determinação das operações lógicas-mestras. O paradigma
está oculto sob a lógica e seleciona as operações lógicas que
se tornam ao mesmo tempo preponderantes, pertinentes e
evidentes sob seu domínio (exclusão-inclusão, disjunçãoconjunção,
implicação-negação). É ele quem privilegia
determinadas operações lógicas em detrimento de outras,
como a disjunção em detrimento da conjunção; é o que atribui
validade e universalidade à lógica que elegeu. Por isso
mesmo, dá aos discursos e às teorias que controla as características
da necessidade e da verdade. Por sua prescrição e
proscrição, o paradigma funda o axioma e se expressa em
axioma (“todo fenômeno natural obedece ao determinismo”,
“todo fenômeno propriamente humano se define por oposição
à natureza...”).
Portanto, o paradigma efetua a seleção e a determinação da
conceptualização e das operações lógicas. Designa as categorias
fundamentais da inteligibilidade e opera o controle de seu emprego.
Assim, os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo
paradigmas inscritos culturalmente neles.
Tomemos um exemplo: há dois paradigmas opostos acerca
da relação homem/natureza. O primeiro inclui o humano na natureza,
e qualquer discurso que obedeça a esse paradigma faz do
homem um ser natural e reconhece a “natureza humana”. O
segundo paradigma prescreve a disjunção entre estes dois termos
e determina o que há de específico no homem por exclusão
da idéia de natureza. Estes dois paradigmas opostos têm em

comum a obediência de ambos a um paradigma mais profundo
ainda, que é o paradigma de simplificação, que, diante de qualquer
complexidade conceptual, prescreve seja a redução (neste
caso, do humano ao natural), seja a disjunção (neste caso, entre
o humano e o natural). Um e outro paradigmas impedem que se
conceba a unidualidade (natural ↔ cultural, cerebral ↔ psíquica)
da realidade humana e impedem, igualmente, que se conceba a
relação ao mesmo tempo de implicação e de separação entre o
homem e a natureza. Somente o paradigma complexo de implicação/
distinção/conjunção permitirá tal concepção, mas este ainda
não está inscrito na cultura científica.
O paradigma desempenha um papel ao mesmo tempo subterrâneo
e soberano em qualquer teoria, doutrina ou ideologia.
O paradigma é inconsciente, mas irriga o pensamento consciente,
controla-o e, neste sentido, é também supraconsciente.
Em resumo, o paradigma instaura relações primordiais que
constituem axiomas, determina conceitos, comanda discursos
e/ou teorias. Organiza a organização deles e gera a geração ou
a regeneração.
Deve-se evocar aqui o “grande paradigma do Ocidente”,
formulado por Descartes e imposto pelo desdobramento da história
européia a partir do século XVII. O paradigma cartesiano
separa o sujeito e o objeto, cada qual na esfera própria: a filosofia
e a pesquisa reflexiva, de um lado, a ciência e a pesquisa
objetiva, de outro. Esta dissociação atravessa o universo de um
extremo ao outro:
Sujeito/Objeto
Alma/Corpo
Espírito/Matéria
Qualidade/Quantidade
Finalidade/Causalidade
Sentimento/Razão
Liberdade/Determinismo
Existência/Essência

Trata-se certamente de um paradigma: determina os conceitos
soberanos e prescreve a relação lógica: a disjunção. A nãoobediência
a esta disjunção somente pode ser clandestina, marginal,
desviante. Este paradigma determina dupla visão do mundo
— de fato, o desdobramento do mesmo mundo: de um lado,
o mundo de objetos submetidos a observações, experimentações,
manipulações; de outro lado, o mundo de sujeitos que se questionam
sobre problemas de existência, de comunicação, de consciência,
de destino. Assim, um paradigma pode ao mesmo tempo
elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se esconde
o problema-chave do jogo da verdade e do erro.

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