terça-feira, 18 de setembro de 2012

Período mais tenebroso da Idade Média (800-1000)





Não podemos deixar de sentir uma certa tristeza ao pensarmos num período da história da igreja tão tenebroso como aquele que temos estado a tratar; contudo, alegra-nos podermos recordar que, apesar do desenvolvimento por toda a parte das trevas, o Evangelho nunca deixou in­teiramente de brilhar. É um princípio incontestável que pode sempre ser notado em toda a história sagrada: Deus nunca se deixa a si mesmo sem um testemunho no mundo. Vê-se isso: no caso de Noé e sua família, que foram salvos do Dilúvio (Gn 6.9); e também nos quatro solitários que re­cusaram tocar na comida de Nabucodonosor ou adorar a imagem dourada (Dn 3), e, bendito seja Deus, isso tam­bém se vê na história daquela época degenerada de trevas e vícios de que temos falado.

O IMPERADOR LUÍS, O PIEDOSO
No Ocidente, onde as trevas eram mais densas, estava-se levando por diante um verdadeiro trabalho por Cristo, devido em grande parte ao zelo cristão do sucessor de Car­los Magno, seu filho, Luís, o piedoso.
Luís era um verdadeiro cristão, porém brando demais para os seus soldados, e piedoso demais para os seus pa­dres. As reformas que ele projetava tiveram por isso a opo­sição tanto dos padres como dos militares e dos eclesiásti­cos. A sua situação por muitas razões não era feliz. Todas as tentativas feitas para purificar a corte se frustraram pe­los maus exemplos e conduta rebelde de seus filhos, dos soldados que viviam de pilhagem, e de violência. Eles não gostavam que o rei os reprimisse nos seus roubos e hábitos de devassidão. Os bispos orgulhosos das suas espadas e es­poras, ressentiram-se com ele por os ter privado destes acessórios guerreiros, e ao mesmo tempo a piedade pessoal do rei bondoso tornava-o alvo do escárnio de toda a gente. Quando seus filhos Pepino, Luís e Lutero se levantaram em rebelião aberta contra ele, o papa, Gregório IV, não deixou de animar este mau ato, indigno de filhos; e o clero, cujo verdadeiro dever teria sido aconselhá-lo e consolá-lo, juntou os seus esforços aos dos outros para o destronarem.
Fizeram-lhe as mais graves acusações, embora falsas, e tendo sido intimado a comparecer perante uma assembléia em Compeigne, foi ali sujeito aos mais dolorosos e humi­lhantes insultos. Foi-lhe colocado nas mãos um papel con­tendo a lista dos seus pretendidos crimes, e tendo-se-lhe exigido uma espécie de confissão, foi obrigado a fazer peni­tência da seguinte maneira: puseram um capacho áspero defronte do altar, no qual o fizeram ajoelhar e desposar-se do seu boldrié,da sua espada e das suas vestes reais, ves­tindo em lugar de tudo isso o hábito de um penitente. Se­guiu-se uma cerimônia religiosa para dar ao ato dos padres uma aparência de santidade, e depois disso foi o monarca aviltado conduzido à prisão na qual estava determinado que acabasse os seus dias. Mas os nobres e o povo desgosta­ram-se com este ato dos padres, e permitiram que o rei fos­se de novo colocado no trono. 0 clamor popular elevou-se de tal maneira que ele foi posto em liberdade e reintegrado nos seus direitos. No ano 840 veio-lhe a morte, e o fim ao seu benigno mas infeliz reinado, e o cansado espírito do piedoso rei encontrou descanso num país muito diferente do que aquele em que teve de governar.

INTRODUÇÃO DO EVANGELHO NA DINAMARCA E SUÉCIA
Ainda assim os esforços cristãos de Luís deram bons re­sultados. No seu próprio país, produziram frutos e em ou­tras localidades, com a introdução na Dinamarca e na Sué­cia do Evangelho, o que foi, sem dúvida, devido a ele. Numa disputa pelo trono da Dinamarca, entre o rei legíti­mo Heriold, e Godefredo, refugiou-se o primeiro na corte de Luís, cuja bondosa recepção animou-o a pedir auxílio ao seu hospedeiro real. Mas Luís só consentiu nisso com a condição de Heriold abraçar o cristianismo e permitir a pregação do Evangelho nos seus domínios.
O rei acedeu, e foi portanto batizado em Mentz, junta­mente com sua esposa e muitos da corte, no ano 826. Quando voltou para a Dinamarca levou consigo dois mon­ges missionários, Ansgarius e Auberto; este faleceu poucos meses depois da sua chegada, mas não sem ter visto alguns resultados da sua pregação. Ansgarius continuou traba­lhando ali por algum tempo, passando depois à Suécia, onde a Palavra de Deus foi muito abençoada e muitos se converteram. Foi mais tarde feito arcebispo de Hamburgo e de todo o Norte por Gregório IV, e foi gozar o descanso eterno, cheio de honras, no ano 865. A esfera dos seus tra­balhos abrangeu os territórios dos dinamarqueses, dos címbricos e dos suecos; mas é triste termos de acrescentar que o trabalho que ele começara, já bastante misturado com coisas supersticiosas, ficou quase enterrado nas asnei­ras do romanismo, durante o século seguinte.

MAIS TRIUNFOS DO EVANGELHO NA RÚSSIA, PO­LÔNIA, ETC.
O Evangelho foi levado também, com mais ou menos êxito, aos russos, poloneses e húngaros, devido em grande parte à conversão dos seus respectivos príncipes que, em alguns casos, parece ter sido real e acompanhada da fé que salva. E muito interessante notar os diferentes meios de que Deus se serviu para introduzir a mensagem do Evan­gelho nos territórios bárbaros. Umas vezes foi por meio de zelosos monges. Tais como Ansgarius e Auberto; outras pela união de um príncipe pagão com uma princesa cristã, como Valdemiro, príncipe russo, com Ana, irmã do impe­rador grego; outras ainda por meio da peste ou da fome, pois foi por este meio que o Evangelho chegou à Bulgária.

O EVANGELHO NA GRÃ-BRETANHA
Na Grã-Bretanha, por estar tão afastada de Roma, pouca oposição havia à pregação do Evangelho, apesar da luz estar muito escurecida pelos monges e pela supersti­ção. A história do glorioso reinado de Alfredo é muito inte­ressante, e a piedade deste rei, verdadeiramente cristão, foi tão notável como a sua bravura, e entre os cuidados do es­tado e os que lhe causaram as invasões dos dinamarqueses, a sua pena conservou-se ativa a favor de uma causa me­lhor. Além de compor alguns poemas de caráter moral e re­ligioso, traduziu os evangelhos na língua saxônia e pode-se, com justiça, considerar esta como a sua obra-prima.

O MONGE CLEMENTE NA ESCÓCIA
Na Escócia também o povo, pela bondade de Deus, lu­crou muito com o trabalho fiel de um monge chamado Cle­mente, que pregou o Evangelho de uma maneira notável pela sua clareza e pureza; mas a sua fidelidade trouxe-lhe a inimizade de Bonifácio, arcebispo das igrejas germâni­cas, o qual conseguiu que Clemente fosse a Roma, onde de­sapareceu repentinamente.
A Irlanda gaba-se da honra de ser berço de Duns Scotus Erigena, filósofo cristão daquela época, que é considerado pelo escritor Hallam como um dos homens mais notáveis da Idade Média; contudo, diz ainda Hallam que os excer­tos dos seus escritos contêm misturas de misticismos in­compreensíveis. Não podemos, porém, dizer se ele incluía nesta condenação o seguinte excerto, citado por D'Aubigné, e que diz: "Oh! Senhor Jesus, não te peço outra felicidade senão que faças compreender, sem a mistura de teo­rias enganosas, a Palavra que Tu tens inspirado pelo teu Santo Espírito. Mostra-te a todos aqueles que te procu­ram, a ti somente".
Se isto é misticismo, prouvera a Deus que houvesse ain­da mais, dele mesmo atualmente na igreja!

ARNULFO DE ORLEANS
Arnulfo, bispo de Orleans, parece ter sido um tanto pie­doso, mas pouco se sabe dele. Um dos seus discursos lança uma luz horrível sobre a condição de Roma no seu tempo. "Oh! deplorável Roma!" - exclama ele - "tu que no tempo dos nossos antepassados produziste luzes tão ardentes e brilhantes, só produzes agora trevas lúgubres, dignas do ó-dio da posteridade!" Do papa diz o seguinte: "Que pensais vós, reverendos, deste homem colocado num trono eleva­do, brilhante de púrpura e ouro? Por quem o tomais, se é destituído de amor, e apenas está enfatuado com o orgulho dos seus conhecimentos e como um anticristo sentado no templo de Deus?"


CLÁUDIO, BISPO DE TURIM
Mas o homem mais notável desta época foi, talvez, Cláudio, bispo de Turim, que foi elevado a essa dignidade (o"fardo de um bispo" como ele lhe chamava) por Luís, o Piedoso, pouco mais ou menos no ano 816. Tem sido consi­derado como "o protestante do século IX" e, bem merece o título. Diferia em muitos pontos da igreja de Roma, e ao manifestar seus pensamentos falava sem rodeios. Quando foi elevado ao bispado, disse que "encontrou todas as igre­jas de Turim completamente cheias de imagens vis e mal­ditas" e por isso começou a destruí-las, segundo ele mesmo diz, "aquilo que todos estavam adorando estultamente". 'Portanto", acrescentou, "aconteceu que todos começa­ram a injuriar-me, e, se não fosse o Senhor ajudar-me, ter-me-iam engolido". Falou de um modo fortíssimo contra a adoração da cruz dizendo: "Deus ordenou aos homens que a levassem, mas não que a adorassem" e lamentou que muitos, que não seriam capazes de levar a própria cruz, nem corporal nem espiritualmente, se curvavam em ado­ração a ela. "Se nós devemos adorar a cruz pelo fato de Cristo ter sido pendurado nela, por que não adoramos tam­bém a manjedoura e os cueiros, visto ter Ele estado numa manjedoura e ter sido envolto em cueiros? Por que não adoramos botes de pesca e burros, visto ter Ele dormido naqueles e montado nestes?" Mas isto era responder aos loucos conforme a sua própria loucura, e o bispo diz mais: "todas essas coisas são ridículas; mais para serem lamen­tadas do que apresentadas por escrito, mas somos forçados a escrever".
Os que se haviam afastado da verdade tinham caído no amor à vaidade, e ele avisa-os sinceramente, dizendo-lhes: "Por que crucificais novamente o Filho de Deus, expondo-o à vergonha clara, e tornando, por este meio, milhares de almas companheiras dos demônios, apartando-se do seu criador pelo horrível sacrilégio das vossas imagens e retra­tos, precipitando-as na condenação eterna?"
Passando deste assunto para as peregrinações a Roma, que muitos estavam ensinando serem equivalentes ao arre­pendimento, perguntou ele maliciosamente por que era que eles conservavam tantas pobres almas nos mosteiros para os servir, em lugar de mandá-las a Roma buscar o perdão dos seus pecados.
Ele então continuou a explicar que estas peregrinações a Roma eram inteiramente inúteis, e mostravam da parte de quem as empreendia uma falta de espiritualidade que só podia ser própria dos verdadeiramente ignorantes. Ou­tros estavam pondo a sua confiança no merecimento da intercessão dos santos, mas isso mostrava apenas que anda­vam em trevas, porque, ainda que os santos que eles invo­cavam fossem tão justos como Noé, Daniel e Jó, nunca daí poderia vir esperança nem salvação alguma. Até o próprio papa era um homem falível, e apesar de seu título de se­nhor apostólico, só era apostólico, até onde se mostrava ser o guarda das doutrinas dos apóstolos. O simples fato de es­tar sentado na "cadeira do apóstolo" nada prova. Também os escribas e os fariseus se sentaram na "cadeira de Moi­sés".
Mas não se deve deduzir disto que Cláudio fosse um simples polêmico. Era, por natureza, mais inclinado a aprender do que a ensinar ou a corrigir os outros, e os seus escritos estão cheios de um verdadeiro espírito de humil­dade e amor cristão.
Contudo, a influência de Cláudio foi sentida apenas numa área muito limitada; e no meio de tantas trevas não se pode esperar que seus adeptos fossem muitos. Ainda as­sim foram suficientes para atrair a atenção e para chamar sobre suas cabeças a maldição do papa. Este incitou os príncipes leigos contra eles, e assim vemos que foram ex­pulsos do país e obrigados a se refugiarem nas montanhas próximas, onde, fora da influência papal, progrediram como nunca.
Feliz condição a deste pequeno grupo, quando tudo em volta estava negro e desanimado! Felizes os que estavam assim com Deus entre as montanhas cujos cumes nevados estavam sempre apontando para o Céu, enquanto as planícieis se achavam envolvidas em névoas mundanas! Eram estes os cristãos de Piemonte.

TEMPOS TENEBROSOS
Mas como tudo era negro em volta! Eram trevas tão es­pessas que facilmente se podiam sentir, mas quem havia ali que as sentisse? Aquela condição era natural à maior parte deles, e preferiram-na à luz, porque seus atos eram maus. Quanto eles eram maus podemos ver pelos testemu­nhos contemporâneos, e pelas decisões dos seus concílios. No concilio de Paiva, no ano 850, foi necessário ordenar sobriedade aos bispos, e proibi-los de conservar ''cães e fal­cões para a caça, e de terem vestimentas ricas, simples­mente para fazerem vista".
Em dois concílios separados levantou-se a queixa de que "o clero inferior tinha mulheres em casa, com grande escândalo do ministério; "e dizia-se que os presbíteros se tornavam em meirinhos e freqüentavam as tabernas; eram usurarios... e não se envergonhavam de se entregarem ao vício e à embriaguez".
O cartuxo Seácrio falou deste período como sendo o pior de todos, lamentando que a caridade tivesse arrefeci­do, que abundasse a iniqüidade e que a verdade se fosse tornando rara entre os filhos dos homens.
Outro, que era bispo, afirmou: "Quase que se não en­contra um homem capaz de ser ordenado bispo, nem um bispo capaz de ordenar outros". Quanto aos papas, basta dizer-se que um deles, Estêvão VII, foi estrangulado, oca­sionando a sua morte a seguinte observação: "Ele entrou no aprisco como um ladrão, e foi justo que morresse pelo cabresto". Outro, Sérgio III, segundo o testemunho de um cardeal, era "um escravo de todos os vícios, e o pior dos ho­mens." Outro, João X, subiu ao trono pelo interesse da prostituta Teodora, sendo depois assassinado por influên­cia da filha dela; e, finalmente, um mancebo de dezoito anos, que abriu caminho à força para o trono papal e to­mou o nome de João VII, mandou tirar os olhos do padri­nho; bebia à saúde do Demônio; jurava pelos deuses pagãos, enquanto jogava os dados, e foi morto numa rixa da meia-noite, no ano 964.

NOVOS MALES
Outro fato que se salientou naquela época foi a exposi­ção em muitas igrejas de várias coisas vãs que, falsamente, diziam ter grande valor. Havia, por exemplo, uma pena da asa do anjo Gabriel, um bocado da arca de Noé, a camisa da bendita virgem, os dentes de Santa Apolônia (que dizia ser uma cura infalível para as dores de dentes e muitas ou­tras relíquias, que eram tão numerosas que pesavam mais de uma tonelada!
Também foi notável esta época por se ter cometido uma grande fraude, que, ao mesmo tempo que fazia au­mentar o poder de Roma, aumentava também o desenvol­vimento das trevas: Foi publicada uma coleção de decretos falsos intitulados "Decretos de Isidoro", com que se pre­tendia fazer crer serem decretos sobre importantes ques­tões eclesiásticas feitos pelos bispos romanos de tempos anteriores a Clemente. Nesta coleção os erros são tantos que saltam aos olhos: citaremos apenas um: as pretendidas citações dos papas foram tiradas da tradução latina da Bíblia escrita por S. Jerônimo, que viveu uns dois ou três séculos depois deles.
Por bastante tempo, prestou-se crédito a estes decre­tos, que fizeram muito mal à igreja, apesar das asneiras que continham e das provas que havia de sua falsidade. O papa, é claro, adotou-os e não teve escrúpulos de afirmar aos bispos da França (que duvidavam) que os decretos ti­nham estado muitos anos em Roma. Assim, pois, mais uma vez se nota no papismo a existência do espírito de mentira.

MAIS INVENÇÕES
Mas o clero ainda explorava a credulidade do povo por outros meios; e a este período pertence a instituição do ro­sário e da coroa da virgem Maria. Além disto, era generali­zada a crença absurda de que o arcanjo Miguel celebrava missa na corte do Céu todas as segundas-feiras; e o clero aproveitava a ignorância do povo, que enchia as igrejas de­dicadas a S. Miguel, a fim de obter a sua intercessão.
Outra invenção dessa época foi a doutrina da transubstanciação. Procedeu de um monge chamado Pascásio Radbert, mas só perto de três séculos mais tarde é que foi colo­cada entre as doutrinas adotadas por Roma. Pascásio asse­verou que o pão e o vinho da eucaristia eram convertidos no corpo e sangue de Cristo, e fundou sua nova doutrina numa interpretação muito literal das palavras do Senhor: "Tomai! comei! isto é o meu corpo". Ora, dar a essa pala­vra um tal sentido é um absurdo, e faz cair qualquer pes­soa num labirinto de absurdos. Um escritor moderno tem dito: "Cristo podia dizer: 'Este é o meu corpo que está quebrado', quando não estava de modo nenhum quebra­do, pois quando Ele segurou o pão na sua própria mão, es­tava vivo; 'Eu sou a porta' ; 'Eu sou a videira verdadei­ra' ; e outras mil coisas parecidas. Em todas as línguas se fala assim. Digo por exemplo de um retrato. Esta é a mi­nha mãe! Ninguém é enganado senão quem o quiser ser". Estamos sepultados com Cristo pelo batismo na morte", e apesar disto não estamos enterrados, nem morremos, e isso é certo. Assim a linguagem da Escritura quanto à ceia não apresenta dúvida alguma. Contudo em Roma há (e sempre houve) muitos que se deixam enganar, e é, portan­to, fácil de se compreender que o dogma da transubstanciação fosse logo recebido como uma doutrina principal e essencial.

TEMPO DE PÂNICO
Mas vamos adiante. "Seria possível", pode alguém perguntar: "que as coisas se tornassem tão negras e tristes, que os espíritos dos homens, repletos de preguiça e cegos pela superstição, se afundassem ainda mais em morbidez e miséria?" Infelizmente era isso mais que possível. Ao apro­ximar-se o ano 1000 da igreja, juntou-se o terror. Pela su­perstição do povo, apoderou-se de todos um tal pânico como de certo não se tinha visto até então. Não tinha, por­ventura, o Senhor dito que depois de mil anos Satanás sai­ria da sua prisão, e andaria por toda parte enganando as nações nos quatro cantos da terra? (Ap 20). E, em vista disto, muitos pensavam que o fim do mundo estava verda­deiramente próximo.
Houve um ermitão de Turíngia chamado Bernhard, que, mal compreendendo estas palavras da Bíblia, tomou-as para seu tema, e saiu no ano 960 a pregar a aproximação do julgamento. Havia alguma aparência da verdade nesta doutrina, e a ilusão influiu no ânimo dos supersticiosos de todas as classes. Monges e ermitões pregavam a doutrina e, muito antes do ano começar, soava este grito terrível por toda a Europa. O povo encaminhava-se para a Palestina, deixando as suas terras e as suas casas, ou legando-as, como expiação dos seus pecados, às igrejas ou aos mostei­ros. Os nobres vendiam os seus domínios, e até os príncipes e os bispos iam em peregrinação, preparando-se para o aparecimento do Cordeiro no monte Sião. Um eclipse do Sol e outros fenômenos no céu contribuíram para aumen­tar o terror geral, e milhares de pessoas fugiram das cida­des para se refugiar nas covas e cavernas da terra.
Os terríveis vaticínios, que se hão de realizar no dia do julgamento, pareciam ter-se já cumprido; havia "sinais no sol, e na lua e nas estrelas, e na terra aperto das nações em perplexidade, pelo bramido do mar e das ondas, homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobre­virão ao mundo" (Lc 2.25,26). Naquele ano nem as casas dos ricos, nem as dos pobres foram reparadas, e as terras e vinhas ficaram incultas. Não se recolheram searas, porque não se tinham feito sementeiras! Não se erigiam novas igrejas ou mosteiros, porque em poucos meses esperavam não haver sequer seres humanos para freqüentá-los.
Por fim começou o último dia do terrível ano. Quando chegou a noite, poucos eram os que estavam em condições de procurar as suas camas: os vestíbulos e pórticos das igrejas estavam apinhados de gente que esperavam ansio­samente e com medo esse julgamento tremendo. Foi uma noite sem sono para toda a Europa. Mas despontou o outro dia: o sol ergueu-se no firmamento como de costume e lan­çou o seu brilho sobre um mundo que não tinha acabado mas que estava cheio de fome; não havia sinais sinistros no céu, nem temores na terra: tudo continuava como dantes. De todos os corações saiu um suspiro de alívio. A multidão iludida voltou para as suas casas e todos se entregaram às suas ocupações habituais. O ano do terror tinha passado e o século onze da Era Cristã havia começado!

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