terça-feira, 3 de março de 2015

Mártires da igreja primitiva - ELEUTÉRIO O Jovem Bispo

Mártires da igreja primitiva - ELEUTÉRIO O Jovem Bispo

Mártires do Coliseu é a história da famosa arena de Roma, onde milhares de cristãos primitivos encontraram um fim cruel e sangrento. Porém muito mais que isto, é a história de famosos e santos heróis de Cristo, que aceitaram de bom grado a morte, testemunhando da verdade da fé apostólica.


O Jovem Bispo


1
Cerca de vinte anos após o martírio de Plácido, e no império de Adriano, temos registros de outro episódio extraordinário ocorrido no Coliseu. Demos o título de "jovem bispo" a este capítulo, porque o nosso herói tinha apenas vinte anos quando recebeu o cargo...

 Ele era um jovem e nobre romano, de distinção consular. A sua mãe era uma santa mulher, convertida através do apóstolo Paulo, e posteriormente submetida ao martírio juntamente com o filho. O rapaz chamava-se Eleutério. Trazido sob os cuidados de sua piedosa mãe e de Anacleto, fez rápidos progres­sos na vida de santidade. Tão grande eram a sua piedade e pureza, que aos dezesseis anos foi ordenado diácono; aos dezoito, pastor; e aos vinte, bispo de Aquiléia (Veneza).

As pregações do jovem bispo estavam resultando numa grande colhei­ta de almas, e o seu nome foi levado pelas asas da fama aos ouvidos de Adriano. A política hipócrita desse imperador era mostrar fidelidade aos deuses perseguindo os mais notáveis dentre os cristãos. Em seu retorno do leste, ouviu falar de Eleutério, e enviou um de seus generais, chamado Félix, com duzentos homens, para prenderem o bispo e trazê-lo a Roma.

Quando Félix chegou com os soldados, encontrou Eleutério na igreja, pregando a uma multidão. Postou os soldados em volta da igreja, e entrou com alguns dos mais confiáveis para agarrarem o pregador. Mal Félix entrara no templo, e a graça de Deus entrou-lhe no coração. Ele foi tocado pela solenidade da reunião. O silêncio e a devoção dos cristãos no templo do Altíssimo, a luz celeste brilhando à volta do bispo, a unção e a eloqüência com que ele falava, deixaram o soldado pagão preso ao solo, em temor e reverência. Ele esperou até que o sermão terminasse, mas em vez de se lançar sobre o servo indefeso de Cristo, e arrastá-lo ao martírio, pôs-se de joelhos no centro da igreja, orando ao Deus verdadeiro. O povo foi tomado de surpresa, e os soldados olhavam uns para os outros estupefatos.

O primeiro a tirá-lo de seus pensamentos foi o bispo, que, tocando-lhe o ombro, falou: — Levanta-te, Félix. Eu sei o que te trouxe aqui. É da vontade de Deus que eu vá contigo para glorificar o seu nome.

O general despertou como que de um sonho maravilhoso, e proclamou a sua crença no Deus dos cristãos.

Na jornada para Roma, ao chegarem a um grande rio (provavelmente o Pó), pararam à sua margem para descansar num lugar sombreado. Eleutério, cujo coração ardia de zelo e amor, agarrava cada oportunidade para trazer almas a Cristo. Reunindo o grupo à sua volta, falou por um bom tempo da fé cristã. Seu fervor e eloqüência não apenas os convenceu, como arrancou lágrimas de muitos daqueles soldados rudes e ignorantes. Quando ele acabou de pregar, o general Félix anunciou em alta voz: — Não comerei enquanto não for batizado!

O bispo, depois de lhe dar mais algumas instruções, batizou-o, bem como a alguns dos soldados, antes de deixarem as margens do rio.

Quando chegaram a Roma, o imperador ordenou que trouxessem Eleutério perante ele. 0 bispo foi conduzido a uma das salas do palácio do Palatino, onde ficava o trono de Adriano. Ao ver o mártir diante de si, o imperador foi tocado por sua beleza e modéstia; a peculiar doçura de sua fisionomia, combinada com a nobreza e a majestade, forçou o perseguidor pagão a olhar o servo de Cristo com um sentimento que beirava ao temor reverente. O imperador bem sabia que o pai de Eleutério três vezes envergara a dignidade consular em seu próprio reinado, e ele via na jovem vítima diante de si todo o induzimento à misericórdia e à compaixão que a riqueza, a linhagem e o talento podem oferecer. A princípio, dirigiu-se suavemente ao moço, pretendendo cativá-lo e seduzi-lo com sua amizade e uma posição no palácio imperial. Mas percebendo que o nobre mancebo era imutável em sua profissão ao cristianismo, deu expan­são a toda a cólera que o orgulho e o diabo podiam despertar-lhe na alma. Os Atos desse mártir oferecem uma porção da conversa de ambos; é tão bela e emocionante, que vamos traduzi-la:

"O imperador indagou: 'Como é possível que tu, um homem tão ilustre, te entregues à tola superstição de acreditar num Deus que foi crucificado pelos homens?'

"Eleutério permaneceu em silêncio. Novamente o imperador falou-lhe: 'Responde a per­gunta que te fiz. Por que te entregaste à escravidão da superstição, e serves a um homem morto, que sofreu a miserável morte de um criminoso?'

"Levantando os olhos ao céu, Eleutério respondeu: 'A verdadeira liberdade somente é encontrada no serviço do Criador do céu e da terra'.

"Num tom mais compassivo, Adriano prometeu: 'Obedece minhas ordens, e dar-te-ei um posto de honra em meu palácio'.

"'Tuas palavras', tornou Eleutério, 'estão envenenadas com engano e amargura'" (Bolandistas, 18 de abril).

Adriano enfureceu-se com esta resposta, e ordenou que a cama de cobre fosse preparada para o servo de Deus. Tratava-se de um instrumento de tortura largamente usado nessa época de perseguição. Será melhor compreendido se o chamarmos de grande grelha. Consistia de diversas barras de cobre ou latão cruzadas, sustentadas por pés de vinte e três centímetros de altura; sob a grelha ateava-se o fogo para consumir os mártires. De qualquer modo, é estranho o fato de Deus haver permitido que bem poucos mártires encontrassem a morte nesse medonho instrumento.1 Eleutério não seria vítima dele.

Fora estabelecido pelas leis de Augusto que a execução de criminosos e malfeitores fosse pública, e que um pregoeiro anunciasse ao povo os crimes que levaram o ofensor ao seu fim miserável. Esta lei, que era sabiamente destinada a coibir outros de cometerem o mesmo crime, estava em vigor no tempo de Adriano. Embora a sua aplicação se houvesse tornado arbitrária no governo de alguns tiranos que desgraçaram o trono de Augusto, no caso dos cristãos ela era cumprida além dos limites de suas exigências. O cristianismo era o maior crime contra o Estado; um homem poderia ser acusado de assassinato, conspiração, ou roubo, e ainda assim escapar com uma leve punição, ou ser condenado a lutar por sua vida com os gladiadores do Coliseu; contra os cristãos, porém, dirigiam-se todos os horrores da crueldade paga.

Em cumprimento desta lei, um pregoeiro foi trazido à cidade para anunciar a sentença pronunciada pelo imperador sobre o bispo Eleutério. Ajuntou-se imensa multidão; os Atos dizem que todo os moradores de Roma acorreram para testemunhar a execução.2 O grande Deus, a quem eles não conheciam, os estava convidando a reconhecer o seu poder, e a servi-lo, em vez de aos ídolos.

Quando o fogo foi ateado, e as chamas lambiam a grade de cobre, o mártir foi despido, levantado pelas mãos rudes dos soldados para a cama de tortura. Nenhum peregrino de pés feridos estendeu seus membros cansados num leito de musgo com tanto alívio e refrigério como fez o bispo Eleutério em sua cama de fogo. Os elementos da natureza são criação de Deus: obedecem ao seu comando. Depois de uma hora, durante a qual permaneceu acorrentado a grade, sem se queimar, e sem que um único fio de seu cabelo fosse chamuscado, o jovem foi solto.

Agarrando o momento oportuno, ergueu a voz e pregou um eloqüente sermão aos romanos trazidos ali pela curiosidade:

"Romanos", bradou o mártir, "ouvi-me! Grande e verdadeiro é o Deus Onipotente. Não há outro Deus além deste que vos foi pregado pelos apóstolos Pedro e Paulo, através de quem, muitas curas e outros milagres foram realizados entre vós, e por meio de quem o impiedoso mago Simão foi derrotado, e os ídolos surdos e mudos, como os que o vosso imperador adora, foram feitos em pedaços".

Adriano, que a tudo ouvia, espumou de raiva, e ordenou fosse preparado outro instru­mento de tortura ainda mais terrível. Uma imensa frigideira, cheia de óleo e piche, posta sobre uma grande fogueira. Quando a composição da caldeira estava fervendo e espumando, o imperador advertiu uma vez mais a Eleuterio: — Ao menos tenha pena de tua juventude e nobreza, e não mais incorras na ira dos deuses, ou logo estarás como esse óleo fervente.

Eleuterio sorriu à ameaça do imperador.

— Admira-me — proferiu ele — que tu, que sabes tanta coisa, nunca hajas ouvido falar dos três jovens lançados na fornalha ardente da Babilônia. As chamas subiram a mais de vinte metros, e no meio desse fogo, eles cantaram e regozijaram-se, porque estavam passeando com o Filho do Deus a quem eu adoro - indigno sacerdote seu que sou - e que nunca me abandonou, desde a minha infância.3

Havendo declarado isto, saltou para a panela em ebulição. No momento em que a tocou, o fogo extinguiu-se, e a massa espumante de óleo e piche esfriou e endureceu. O santo mártir, voltando-se ao imperador indagou: — Agora, quais são tuas ameaças? O teu fogo, a tua grelha, e a tua frigideira tornaram-se para mim cama de rosas, e não puderam me ferir. Oh, Adriano! Teus olhos acham-se escurecidos pela incredulidade, por isso não enxergas as coisas de Deus. Reconhece tua insensatez, arrependa-te de tuas más ações, e chora sobre tua infelicidade de não teres, até agora, conhecido o único e verdadeiro Soberano do céu e da terra.

Adriano não se converteu mediante este milagre; contudo, relaxou o rigor da perseguição aos cristãos, após a morte de Eleuterio. Ele deve ter ficado atônito diante do que viu. Os milagres acontecidos à maioria dos cristãos trazida diante dele, a ineficácia dos mais terríveis tormentos que ele podia imaginar, a candura e a retidão externadas na conduta dos cristãos devem ter-lhe aberto os olhos e suscitado dúvidas no coração com respeito à verdade do paganismo, pois, conforme afirmam alguns historiadores, poucos antes de sua morte, ele resolveu erigir um templo ao Deus dos cristãos.

Quando se deu com Eleuterio o milagre acima mencionado, e ele dirigiu-se a Adriano na sublime e destemida linguagem de reprovação à sua insensatez, o soberano, confuso, não foi capaz de replicar, e mordeu os lábios com raiva. Encontrava-se ali um dos bajuladores do palácio, o prefeito da cidade, que vendo a perplexidade e derrota do imperador, declarou:

— Grande Imperador! O mundo inteiro, de leste a oeste, está sob o vosso controle, e todos tremem sob vossas palavras, exceto este jovem insolente. Deixai vossa majestade orde­nar que seja levado à prisão, e eu prepararei um instrumento no qual ele não mais vos insultará. Amanhã, vereis o vosso triunfo em meu anfiteatro, perante todo o povo romano."

Estas palavras trouxeram alívio ao frustrado imperador, que imediatamente ordenou fosse Eleuterio entregue a Corribono, o prefeito, que o trataria conforme achasse melhor. Entretan­to, o servo de Deus ouvira o que fora dito e, cheio de inspiração divina, bradou aos ouvidos do imperador, bem como dos soldados que o estavam levando embora:

— Sim, Corribono, amanhã verás o meu triunfo, que será o triunfo de meu Senhor Jesus Cristo!

Corribono empreendera derrotar o poder do Altíssimo. Ele nada sabia do grande Ser contra quem estava contendendo. Em poucas horas, ele veria que, no Deus dos cristãos, a misericórdia é ainda maior que o poder. Esta misericórdia lançaria sobre ele o seu manto, e em resposta às orações de sua vítima, ele passaria de perseguidor a vaso escolhido. Ele não sabia que as últimas palavras do jovem bispo eram uma profecia da qual ele tomaria parte, e que antes de o sol se pôr no dia seguinte, ele estaria cantando os louvores eternais ao grande e misericordioso Deus dos cristãos, no reino do triunfo real e da felicidade verdadeira.

As cenas que se seguem são extremamente interessantes; chegamos a um dos mais extraordinários acontecimentos já testemunhados pelas velhas paredes do Coliseu.



2

Corribono fez tudo o que estava ao seu alcance para assegurar o sucesso de seu empreen­dimento. Como não houvesse jogos públicos marcados para o dia seguinte, pregoeiros saíram pela cidade anunciando um entretenimento especial. A fama do cristão invulnerável espalhara-se para longe. A mágoa do imperador desconcertado, e a promessa de Corribono de preparar uma nova e terrível máquina que asseguraria a destruição do cristão, despertaram o interesse do povo, que acorreu aos milhares na manhã seguinte, ao Coliseu. Isso fora arranjado pela providência de Deus, para que não apenas os romanos, mas o mundo, e as gerações futuras, reconhecessem-lhe o poder e glorificassem-lhe o nome.

Corribono passou algum tempo imaginando um instrumento de tortura. O imperador e o povo esperavam por algo terrível, que levasse à morte de um modo jamais visto no anfiteatro. Contudo, o resultado de seu labor foi um instrumento que revelava brutalidade e ignorância, mas não inovação e arte. Somos tentados a rir quando lemos que o seu invento nada mais era que uma enorme caldeira com tampa, onde despejariam óleo, piche, resina, e alguns ingredientes venenosos nausea­bundos. Então, quando o fogo houvesse aquecido a mistura à uma temperatura escaldante, o mártir seria jogado nela, e consumido, segundo calculara Corrobone, num instante.

O sol já vai alto no céu, e os gritos ensurdecedores vindos do Coliseu revelam-nos que as bancadas estão lotadas com a plebe impaciente. A imensa caldeira acha-se no centro da arena, e a lenha, ardendo sob ela. O ar está impregnado com os vapores do composto heterogêneo, e a fumaça espessa e negra sobe ao céu sem nuvens. Dois ou três homens seminus, e de aparência tenebrosa, alimentam as chamas com as achas, e mexem o conteúdo fervente e crepitante da caldeira. O quadro lembra as visões que alguns já tiveram do Inferno. Pode-se sentir os demônios à roda, clamando pela morte do cristão; há fogo, tormenta, e ódio contra Deus, O que mais haverá no Inferno, senão a sua maldição eterna?

O imperador e o prefeito chegaram, e alguns jogos entre os gladiadores e as bestas feras são assistidos com o deleite e a exaltação habituais. No entanto, a grande atração desse dia é a caldeira fumegante no centro da arena.

Após cada competição entre gladiadores e animais, as vozes agudas ecoam pelas arquiban­cadas, exigindo o cristão. O imperador e o prefeito submetem-se alegremente à importunação da ralé. E "na terceira hora", descrevem os Atos, Eleutério é trazido à arena. Ele parece jovem, belo e animado, enquanto caminha, com pesadas correntes nos pés e nas mãos, em direção ao tribunal do imperador e do prefeito. Quando ele chega sob o trono do imperador, Corribono pede silêncio com a mão, e fala em voz alta:

— Todas as nações obedecem ao poder de nosso grande imperador. Somente tu, jovem desprezas seus desejos. Porque não lhe obedeces às ordens, e não adoras aos deuses e deusas a quem ele adora, por Júpiter, serás lançado na caldeira fervente.

As últimas palavras, ele as pronunciou apontando à caldeira em ebulição. Ele conjeturara uma vitória sobre o mártir, e achara que bastaria empregar as ameaças com que costumava aterrorizar seus escravos covardes. Eleutério, sem demonstrar qualquer sinal de medo ou preocupação, respondeu sossegadamente ao prefeito:

— Corribono, ouve-me. Tu tens o teu rei, que te fez prefeito. Eu tenho o meu Rei, que me fez bispo. Agora, um dos dois há de vencer, e o vencedor há de ser adorado por ti e por mim. Se a tua caldeira suplantar-me a fé, servirei ao teu rei; mas se ela for vencida por meu Rei, tu deveras adorar ao Senhor Jesus Cristo.

Então os lictores o agarraram, e rasgaram-lhe as vestes. Enquanto o conduziam à caldeira, ele orou em voz alta: — Senhor Jesus, tu és a alegria e a luz de todas as almas que em ti crêem! Tu sabes que todos os sofrimentos, por causa do teu nome, são para mim prazeres. Mas para mostrar que todo elemento resiste àqueles que se te opõem, não permite que teu servo seja consumido nesta caldeira.

Ele foi arremessado dentro da massa borbulhante, e a grande tampa, posta em cima.

No anfiteatro, o silêncio era de morte. As pessoas inclinavam-se à frente, com a respiração suspensa; esperavam algo extraordinário. Outro minuto passou-se em silêncio. O fogo ainda crepitava, e a caldeira não se fizera em pedaços; o mártir devia estar morto. O imperador sorriu, e Corribono esfregou as mãos, antecipando a alegria de seu triunfo imaginário. Após alguns minutos de suspense, o imperador ordenou que a tampa fosse removida, para ver se restara alguma coisa do mártir...

Toda honra e glória ao Deus eterno! Ele ri de seus inimigos, e reduz a nada as suas maquinações. Eleutério estava ileso; nenhum fio de seu cabelo fora tocado, nenhuma fibra em seu corpo estava encolhida, movimento algum de suas feições demonstrava dor. Calmo, belo e recolhido, ele mais parecia ter estado em suas devoções diárias na capela episcopal, que mergulhado numa caldeira de óleo em ebulição, perante milhares de espectadores romanos. Quando ele empertigou-se na arena, um murmúrio de surpresa percorreu o anfiteatro. Estu­pefato, o imperador Adriano parecia fixo ao chão; ele olhou para Corribono com os olhos faiscando de raiva.

Naquele instante, porém, a graça de Deus alcançara o coração do prefeito. Correndo para o imperador, ele apelou com veemência:

— Oh, grande imperador! Creiamos neste Deus que protegeu seu servo desta maneira. Este jovem é de fato um sacerdote do Deus verdadeiro. Se um dos nossos sacerdotes de Júpiter, de Juno, ou Hércules, fosse jogado nesta caldeira, iriam os seus deuses salvá-los assim?

As palavras de Corribono caíram como estampido de trovão nos ouvidos de Adriano. Inconversível em sua superstição, e endurecido em sua impiedade, a repentina mudança operada pela graça no coração de Corribono elevou-lhe a indignação ao mais alto grau.

— O que?! — Bradou ele, após uma pausa momentânea. — Es tu mesmo, Corribono, que ousas falar assim? Teria a mãe deste miserável te subornado para trair-me? Eu te fiz prefeito, dei-te ouro e prata, e agora tu te voltas contra mim para ficares do lado deste cristão odiado! Agarrai-no, lictores, e deixai o sangue deste velhaco misturar-se ao óleo fervente da caldeira!

— Ouve-me por um instante, grande Imperador! — clamou Corribono. — As honras e favores que me tens conferido são efêmeras e temporais. Enquanto estive no erro, não pude ver a verdade que agora resplandece diante de mim. Se desejas escarnecer do Deus dos cristãos, e permanecer vítima de tuas tolices e impiedade, faze-o. Quanto a mim, a partir deste momento, creio que Cristo é o verdadeiro Deus. Nego que teus ídolos sejam deuses, e creio nEle, no único Deus grande e poderoso, a quem Eleutério prega.

Adriano bateu o pé no chão, enfurecido, e fez um sinal para que os lictores levassem de uma vez o prefeito à arena, para ser executado.

Ao chegar ao centro da arena, levado pelos lictores, Corribono lançou-se de joelhos e pediu a Eleutério:

— Homem de Deus, ora por mim, imploro-te, para que este Deus, a quem hoje confesso ser o único, me dê daquela proteção dada ao general Félix, para que eu possa desafiar os tormentos do imperador.

Eleutério vertia lágrimas de alegria. Agradeceu a Deus de todo coração pela conversão de Corribono, e pediu que o Todo-Poderoso o fortalecesse para suportar os tormentos que estava para sofrer.

O prefeito foi jogado dentro do caldeirão que ele mesmo preparara com a intenção de destruir Eleutério. A tampa foi fechada, e ele permaneceu no horripilante instrumento por vários minutos. Quando a caldeira foi destapada, ele ainda estava vivo, ileso, e sem dor; estava cantando louvores ao Deus verdadeiro, de cujo poder e divindade ele não mais duvidava. E, embora não se passara ainda dez minutos desde que deixara de ser um pagão, a sua fé já era inabalável como uma montanha.

O imperador, vendo que Corribono também escapara ao poder destrutível da caldeira, ordenou que os gladiadores os despachassem à vista da multidão.5

O nobre prefeito caiu na arena do Coliseu, sob o olhar e a bênção de Eleutério. A sua Pronta e generosa resposta ao chamado da graça o fez merecer a coroa inigualável do martírio. A riqueza, os amigos, a família, tudo fora abandonado sem um murmúrio ou adeus, e os tormentos e a morte, aceitos com animação. Que fé, que confiança, que amor expressados na confissão de um novo convertido! Que troca feliz ele fez!

Possamos nós, nascidos na fé, e nela criados, conhecê-lo nas mansões brilhantes da alegria eterna.



3

Quando contemplamos as maravilhosas obras de Deus, como se nos expande a mente, e como se nos aquece e eleva o coração! Alguém afirmou que a nossa razão pode, sozinha compreender todas as coisas dentro dos confins da vasta criação, e calcular tudo o que não está além do céu. Mas tolo e absurdo é o homem que não reconhece a influência sempre presente de Deus. Existem mistérios e maravilhas na natureza, e graça em cada momento que nos cerca, que não podem ser percebidos e explicados pelo intelecto humano.

É estranho que o homem se ache disposto a reconhecer o poder e as maravilhas de Deus na criação material, mas lhe negue a glória que Ele exige para obras similares na ordem espiritual. Há muitos, em todas as posições, entre os cristãos e os incrédulos, entre os instruídos, os ricos e os pobres, que são, inconscientemente, preconceituosos contra Deus na manifestação de seu poder através do homem. Ele pode suscitar portentos nas órbitas rotativas do firmamento; os animais brutos, e até as pedras da natureza inanimada, podem tornar-se instrumentos dos mais maravilhosos efeitos; mas no momento em que as leis ordinárias da natureza são suspensas a favor de nossos semelhantes - a favor de um ser racional, obra-prima de Deus - surgem dúvidas, receios, e uma inexplicável relutância em acreditar. A maioria das intervenções manifestas do poder divino é explicada como acaso, alucinação, ou destreza; e onde não há testemunha ocular, o fato é imediatamente negado. É isto o que ocorre com todas as coisas estranhas registradas na história do passado. Quando lemos sobre algum milagre na vida de um homem de Deus, predispomo-nos logo a duvidar; pensamos que, talvez, o registro surpreendente seja invenção para entreter-nos. Assim, alguns dos mais consoladores e maravilhosos traços da providência paternal de Deus por seus filhos sofredores são lançados ao vento, tão inacreditáveis quanto os mitos do paganismo. Não existirá alguma nódoa do espírito corrompido do mundo e do Diabo no sentimento de orgulho, desdém e incredulidade com que tratamos as obras de Deus?

Nem tudo o que a história conta é verdadeiro; nem tudo, porém, é falso. Há relatos sagrados e tocantes das provações e dos triunfes dos mártires, preservados nos arquivos da Igreja, e a nós transmitidos com seu selo e autoridade; são, de fato, prodigiosos, mas não impossíveis nem estranhos, se considerarmos os apertos dos terríveis dias de perseguição, Seria precipitado, desrespeitoso, e não condizente com os sentimentos filiais, se os filhos da Igreja jogassem fora os Atos de seus mártires, como se fossem histórias inúteis, simplesmente por serem estranhos. Por que pôr limites ao poder e a bondade de Deus?

Retornemos, então, com amor e respeito aos Atos de Eleutério. Temos milagres ainda mais maravilhosos e palpitantes para relatar. O Coliseu está para ser, novamente, testemunha de eventos surpreendentes na carreira desse mártir. É difícil dizer se somos mais afetados pela crueldade do imperador cego, ou pela impaciência incansável de Deus, em operar milagres após milagres através da juventude e santidade de Eleutério.

Após a morte de Corribono, o bispo foi levado à prisão. Enfurecido, Adriano rasgou seu manto purpúreo, e retirou-se para o salão imperial para dar vazão a sua raiva impotente. Convocou os cortesãos, e ofereceu uma grande recompensa a quem sugerisse um modo de acabar com o incômodo cristão. Os planos sugeridos foram numerosos e cruéis, mas Adriano selecionou um que causaria menos excitamento no povo, mas parecia levar inevitavelmente à morte.

O bispo foi confinado numa prisão repugnante, sem comida e sem iluminação, até que seu corpo exausto não mais pudesse realizar as funções vitais. O imperador ordenou que as portas do cárcere fossem trancadas, e as chaves trazidas ao palácio, para garantir que nenhum suborno ou traição lhe roubasse a vítima. Todavia, paredes de pedra e barras de ferro não podem impedir a entrada do Espírito de Deus.

A cela escura e subterrânea ficava abaixo do nível da cidade. A única luz ou ar que podia entrar ali vinha através de um pequeno buraco, mais ou menos do tamanho de um tijolo, num dos cantos do teto. O acúmulo de sujeira, o ar fétido, e a escuridão faziam a imaginação recuar diante da sorte terrível de ser condenado a passar dias e noites e semanas naquela prisão, para satisfazer à crueldade e à justiça do governo pagão. A história é repleta de cenas angustiantes, de demência, desespero e morte, que punham fim à carreira das vítimas desses lúgubres calabouços.

Alguns, esfomeados, comiam a carne dos próprios braços; outros, desesperados, batiam o crânio contra as paredes rochosas do cárcere, ou estrangulavam-se. Seus corpos insepultos eram deixados a deteriorar-se na masmorra, intensificando os horrores daquele lugar para as próximas vítimas do desagrado imperial. Não obstante, estas mesmas celas eram lar de luz e paz para os servos de Deus. A solidão, o escuro, e o confinamento eram fontes de alegria sobrenatural, que arrebatavam-lhes a alma no antegozo da felicidade celeste.

Quando as pesadas portas de ferro se fecharam sobre Eleutério, ele foi cheio da alegria celestial. Deus não apenas o acompanhou para dentro da cova, como proveu-lhe alimento todos os dias. A cada manhã, uma bela pomba entrava pela estreita abertura no teto, e deixava alguma delicada iguaria aos pés do mártir.6

Ao final de quinze dias - dias de felicidade e animação para o servo de Cristo - o imperador enviou as chaves do cárcere com uma ordem para que verificassem se a morte havia levado Eleutério. Ao ser informado de que ele ainda vivia, e até parecia feliz e contente com a sua vil prisão, Adriano foi uma vez mais possuído pela raiva. Mandou que lhe trouxes­sem Eleutério. Ele esperava encontrar o jovem reduzido a um esqueleto, e humilde e aterrori­zado, como alguns prisioneiros pagãos que ali ficaram por poucas horas. Qual não foi sua surpresa, ao vê-lo mais belo e saudável que nunca - "in flore primae juventutis velut ângelus fulgens"7 - e mais firme em sua resolução de adorar somente a Cristo, confrontando destemi­damente ao tirano, e reprovando-o por sua impiedade.

Adriano mandou então que o bispo fosse amarrado a um cavalo selvagem, e arrastado pelos pavimentos maciços das estradas romanas, e assim, esfolado e feito em pedaços. A sentença foi executada. Mas no momento em que o cavalo foi solto, um anjo desatou os nós que prendiam Eleutério, e levantando-o, colocou-o no lombo do animal.8 Sem demora, o cavalo lançou-se através dos campos, carregando sua preciosa carga, e só parou ao chegar ao topo da montanha mais alta e deserta da cordilheira Sabina, dos Apeninos. A liberdade da montanha, a brisa fresca que espalhava à sua volta o aroma de milhares de flores, e a extravagante visão dos vales verdes, formavam um enorme contraste com os horrores do calabouço, de onde ele viera.

Enquanto o bispo extravasava sua gratidão ao único e verdadeiro Deus, os animais selva­gens reuniram-se à sua volta, como que para dar as boas-vindas ao homem piedoso, enviado para viver entre eles. Eleutério passou algumas semanas em feliz solidão, alimentando-se de raízes e frutas, e entoando louvores a Deus. Ele almejou chegar aos jardins eternos do céu, que via palidamente refletidos na beleza terrena ao seu redor. Deus, porém, tinha outras provações e triunfes ainda maiores para o seu servo fiel.

Certo dia, alguns caçadores romanos estavam passando pela cordilheira Sabina, quando viram, à distância, um homem ajoelhado no meio dos animais selvagens. Voltaram correndo a Roma, e relataram a estranha visão. Pela descrição, o povo percebeu tratar-se de Eleutério, que mais uma vez escapara ao terrível destino que lhe preparara o imperador. Se um raio houvesse fendido a terra ao meio, e posto Adriano à beira do abismo, ele não teria ficado mais surpreso que ao ouvir esta notícia. Ordenou que um comandante do exército marchasse imediatamente para as montanhas, com mil homens, e agarrasse Eleutério.

Quando os soldados chegaram ao ponto indicado pelos caçadores, encontraram o santo homem cercado por um imenso grupo de feras, como guarda-costas, que os desafiavam a aproximar-se. Os soldados romanos eram corajosos, e lutavam desesperadamente contra inimi­gos da mesma espécie, mas havia algo sobrenatural naquela cena, que os enervava e acovardava.

Após muita exortação e intimidação por parte do general, alguns deles avançaram para agarrar Eleutério, mas teriam sido rapidamente despedaçados pelos lobos, se o bispo não lhes houvesse ordenado, em voz alta, que se aquietassem. Os animais obedeceram-no imediata­mente, e acomodaram-se aos seus pés, como se temessem uma punição. Eleutério ordenou-lhes que se retirassem para suas tocas nas montanhas, e agradeceu-os, em nome de Deus, pelos serviços que lhe prestaram. O bando de feras foi embora, deixando Eleutério a sós com os soldados.9

Reunindo aqueles homens à sua volta, Eleutério falou-lhes em linguagem bela e poderosa, convidando-os a reconhecer o poder do Deus verdadeiro, a quem até as bestas feras obede­cem. Fê-los ver a insensatez de adorar um pedaço de mármore esculpido, ou de madeira pintada, e explicou-lhes que somente Aquele que reina dos céus pode dar a vida e a felicidade eternas. Antes que o sol se pusesse nesse dia auspicioso, seiscentos e oito soldados robustos da guarnição romana foram regenerados, e passaram pelas águas batismais. Entre os convertidos havia alguns capitães de famílias nobres, favoritos do imperador. Eles propuseram deixar livre Eleutério, e voltarem a Roma sem ele. O santo bispo sabia, porém, que apenas atrairiam sobre si a indignação de Adriano, e suas famílias sofreriam uma perseguição que a sua fé iniciante ainda não seria capaz de suportar. Ademais, ele ansiava receber a coroa do martírio, que ele sabia, por inspiração, haveria de receber no final. Acompanhou animadamente os soldados, a fim de apresentar-se uma vez mais perante o imperador de coração duro e cruel.

A agitação na cidade, quando viram que Eleutério retornara, foi além da descrição. Não faltou nenhuma das cenas já dantes mencionadas; elas tiveram lugar diante de milhares de espectadores, e foram discutidas em todos os círculos. Os ociosos do Fórum permaneceram em demoradas conversas sobre o cristão milagroso. A causa do imperador tornara-se a causa deles. Havia muitos entre eles mais malvados e cruéis que o próprio Adriano, e que rivalizavam com ele no ódio aos cristãos. Não foi a simpatia, mas antes a curiosidade e a indignação que os reuniram à volta do mártir de Jesus Cristo.

Adriano bem sabia quais eram os sentimentos da turba, e desejava satisfazer-lhe as pai­xões; por isso, sentia-se obrigado a condenar Eleutério uma vez mais à execução pública. Contudo, sentia-se subjugado; sua mente fora mudada em relação aos cristãos. Embora sofresse tanto nas mãos de Adriano, o jovem bispo de Aquiléia seria a sua última vítima. A ordem foi emitida. O povo reuniu-se novamente no Coliseu para testemunhar a execução de Eleutério. Os eventos ocorridos no anfiteatro nessa ocasião foram tão terríveis quanto estra­nhos, e formaram um trágico final para esta maravilhosa história.



4

A manhã de dezoito de abril de 138 d.C. deve ser memorável nos anais da grande cidade, não apenas pela paixão de um dos maiores mártires, mas pela morte de milhares de pessoas, que tiveram um fim intempestivo, nesse dia, dentro dos muros do Coliseu. Os demônios foram soltos por uma hora no anfiteatro, e deixaram a mancha indelével de sua presença nos registros de blasfêmias, crueldade e carnificina.

Sem dúvida, os espíritos do mal estavam mais irritados que o imperador pagão diante da constância de Eleutério. Seus milagres e orações diárias estavam aumentando as fileiras do cristianismo; milhares de pessoas começavam a temer o nome do Deus verdadeiro. As execu­ções públicas, que objetivavam intimidar o povo, tornaram-se fontes de conversão. Elas eram evidências oculares do poder do Deus vivo, e do poder e da sublimidade da fé cristã, que elevava os homens acima da paixão e do medo, e os capacitava a sorrir, com a liberdade dos •«tires, diante daquilo que constituía para os pagãos a maior das catástrofes: a separação da alma e do corpo. O sangue dos mártires fertilizava o solo da Igreja, e a cada um que caía, bilhares eram ganhos.

No dia em que Eleutério caiu vítima da espada do executor na arena do Coliseu, diferentes emoções animaram a multidão que presenciou o assassinato. Alguns estavam agitados pela curiosidade diante dos milagres operados em favor do jovem bispo, enquanto outros se encolerizavam como as fúrias do inferno pelo sangue dos cristãos.

Havia também cristãos entre eles, alegres e orgulhosos de seu campeão, que conferia tanta honra à Igreja, e tanta glória ao nome de Deus. Sem dúvida, estavam misturados à multidão alguns dos soldados batizados por Eleutério, poucos dias antes, ao pé das montanhas Sabinas Como as lágrimas de gratidão e condolência devem ter rolado pelas faces bronzeadas daqueles guerreiros endurecidos, quando viram o jovem bispo maltratado pelos lacaios do imperador! A fé cristã amolece o coração no momento em que o penetra; transforma em brandura, simpli­cidade, e amor as tendências brutais da natureza mais feroz: o pagão que ontem encurvava-se deliciado sobre as cenas de carnificina e crueldade, vira hoje a face, cheio de horror e desgosto.

O sol está alto no céu, e derrama seus raios meridianos em ardente esplendor sobre a cidade. De todas as partes, o povo acorre aos magotes para o seu anfiteatro favorito. A maioria esteve presente quando Eleutério foi jogado na caldeira de Corribono, e espera ver, agora, algo igualmente milagroso. Eles não serão desapontados.

O imperador chega com toda a sua corte. Ele parece triste e ansioso. A idade avançada e as muitas viagens revelam-se em sua avantajada compleição. Ele senta-se pesadamente no diva carmesim, no estrado real. Adriano teme a repetição de suas derrotas ao contender com o anjo da Igreja, a quem seu coração cruel e a voz da turba trouxeram uma vez mais à arena. Levado pelo orgulho a idéias absurdas de poder, e demasiadamente fraco de espírito para sofrer desapontamentos, teria dado metade do Império para ver-se livre de Eleutério.

As trombetas soaram. Os jogos tiveram início. Alguns gladiadores desfilaram à roda da arena, e saudaram o imperador com as palavras usuais: — Salve, César! Aqueles que vão morrer te saúdam!10

Alguns leões e tigres foram exibidos, dando cambalhotas por alguns momentos. Os pobres animais cativos apreciaram a luz e o ar puro, ao saírem das escuras e fétidas covas do Coliseu. Então as trombetas soaram novamente, e os gladiadores puseram-se a lutar. Algum sangue é derramado - um cativo de Trácia cai ferido.



"E de seu lado, as últimas gotas, vazando lentamente

do talho vermelho, caem pesadamente, uma a uma,

como as primeiras de uma chuvarada; e agora

a arena flutua à sua volta. Ele se vai

antes que cessem os gritos inumanos que aclamam o vil vencedor."



Um brado agudo levantou-se da multidão, pedindo a execução de Eleutério. A ordem foi dada, e o jovem, trazido em cadeias. Seu semblante agradável e angelical brilha mais belamen­te que nunca. Ele olha animadamente para as bancadas repletas de gente. Os gritos terríveis foram substituídos por um silêncio aflito, enquanto ele se movia com passos firmes ao centro da arena. Um pregoeiro ia adiante dele, anunciando em alta voz: — Eis aqui Eleutério, o cristão!

Um mensageiro foi enviado pelo imperador para indagar se ele sacrificaria ao deus Júpiter. Uma resposta severa e cortante sobre os demônios representados por Júpiter provou que o mártir achava-se mais destemido e invencível que nunca. Adriano ordenou que algumas bestas feras fossem soltas para devorá-lo.

Uma das passagens subterrâneas foi aberta, e uma hiena entrou na arena. O animal parecia assustado, e pôs-se a correr de um lado para o outro; depois, encaminhou-se gentilmente para o local onde Eleutério estava ajoelhado, e deitou-se como se temesse aproximar-se do servo de Deus.

O guardador, percebendo a indignação e o desapontamento do imperador, soltou um leão faminto, cujo rugido aterrorizou a multidão. O rei da selva correu em direção a Eleutério, não para dilacerar-lhe as carnes, mas para afagá-lo. O nobre animal abaixou-se diante do mártir, e chorou como um ser humano. "Quando o leão foi solto", contam os Atos, "ele correu para o abençoado Eleutério, e chorou diante do povo como um pai que não via o filho após longa separação, e lambeu-lhe as mãos e os pés".11

Seguiu-se uma cena emocionante. Algumas pessoas gritaram que Eleutério era um mágico, mas um raio do céu atingiu-as, e elas foram mortas em seus assentos. Outros bradaram pela liberdade do bispo, enquanto muitos, no entusiasmo do momento, gritaram: — Grande é o Deus dos cristãos!

O espírito do mal entrou nos piores dentre os pagãos, e em louco frenesi, eles caíram sobre os que haviam aclamado ao Deus dos cristãos, e os mataram. Foram atacados, em desforra, pelos amigos de suas vítimas, e o que sucedeu foi um horrendo derramamento de sangue. O anfiteatro inteiro estava em comoção, e nada se ouvia além dos berros do populacho enfurecido, que se rasgava em pedaços, e dos gritos aterrorizados das mulheres, misturados aos gemidos dos que morriam.

Adriano mandou que as trombetas soassem altas e claras, exigindo atenção. Não surtiu efeito; a carnificina continuou, e o sangue já escorria de uma bancada para outra. Finalmente o imperador ordenou que os soldados esvaziassem as bancadas superiores; com muita dificul­dade, e com a perda de alguns homens, eles conseguiram acalmar a disputa fatal.

Eleutério continuou, o tempo todo, ajoelhado no mesmo lugar. Muita gente saltou a barreira de proteção da arena, e agrupou-se à sua volta, buscando ser protegida. Os animais selvagens não ousavam tocá-las.

O mártir orou a Deus, pedindo que o removesse desse cenário tão revoltoso e temível. Sua oração foi ouvida. O Todo-Poderoso revelou-lhe, por uma voz interior, que permitiria ao seu servo ser martirizado pela espada. Num arrebatamento de alegria, ele disse às pessoas ao PU redor que, se o imperador o mandasse matar a espada, seria bem-sucedido. A mensagem imediatamente levada a Adriano que, num acesso de ira, bradou: — Então, que ele morra leia espada! Ele é a causa de todo este tumulto!

As trombetas soam uma vez mais. A confusão e o terror logo se transformam em um silêncio sepulcral. Os espectadores inclinaram-se à frente, com a respiração suspensa, ansiosos por ver se o lictor teria êxito. Ele brande o aço poderoso, e o arremete... Eleutério já não vive. Seu sangue jorra na arena. A terra treme, e ouve-se um trovão no céu sem nuvem. Uma voz potente soa das abóbadas do céu, chamando Eleutério à bem-aventurança eterna.

Não obstante, Eleutério não foi a última vítima daquele dia. Havia outra mãe de Macabeu na multidão de espectadores: a mãe de Eleutério. Ela assistira, com a alegria de uma mãe cristã, tudo o que sofrerá o seu bravo filho. E quando ela o viu finalmente conquistar sua coroa, seu coração ardeu com os sentimentos naturais da compaixão materna, e com piedosa alegria. Quase se esquecendo de que estava no Coliseu, e cercada por uma multidão de pagãos, ela correu freneticamente à arena, e lançou-se sobre o corpo exangue de seu filho.

Um murmúrio de surpresa e dó chamou a atenção do imperador, que ainda não deixara o Coliseu. Ele mandou perguntar quem era ela, e por que abraçava o corpo do mártir. Quando lhe informaram tratar-se da mãe de Eleutério, e que ela também era cristã, e desejava morrer com o filho, o cruel imperador ordenou que fosse executada. A mesma espada que trouxe ao filho a coroa do martírio embebeu-se no sangue da mãe. Ela morreu abraçada ao corpo do rapaz, e suas almas virtuosas foram unidas no mundo da felicidade plena, onde a separação não mais existe.

Durante a noite, os corpos de ambos foram levados por alguns cristãos, e sepultados num vinhedo particular, fora da Porta Salara. Foram mantidos ali durante algum tempo, e depois transportados à cidade de Rieti, onde, no império de Constantino, uma suntuosa igreja foi erigida em sua memória.

A maravilhosa história desses fieis foi escrita por dois irmãos, testemunhas oculares da maioria desses fatos extraordinários. Eles concluem sua narrativa com as seguintes palavras: "Estas coisas que nós, os irmãos Eulogio e Teodoro, ordenados para este propósito, escreve­mos, foram vistas por nossos olhos e ouvidas por nossos ouvidos. Nós, que éramos sempre assistidos por sua santa admoestação, e com ele perseverávamos".12

Estes Atos, que citamos dos Bolandistas, acham-se preservados nos arquivos de sua igreja, em Rieti. Também foram escritos em grego, por outra testemunha ocular, com leves altera­ções, e por Metafrastes, cuja versão é dada por Sírio, em 18 de abril. Barônio, em seu martirológio, menciona os principais fatos da história, e refere-se a vários autores que são as nossas melhores autoridades para os registros da Igreja Primitiva.

Não poderíamos concluir sem dizer uma palavra sobre o imperador Adriano. Ele deixou o Coliseu, naquela manhã nefanda, silencioso e indisposto. Até a sua alma empedernida fora amaciada, mas não convertida. Ele recebera uma lição que o desencorajara de se opor novamente aos cristãos. Mas, como todos os perseguidores, ele teve, finalmente, o seu momento de retribuição. Enquanto ele estava no teatro, procurando destruir os servos de Cristo, seu organismo contraiu uma doença repugnante, da qual nunca se recuperou; tão miserável e desgraçado se tornou, que acabou morrendo voluntariamente de inanição.

Ele agonizou durante um ano, em horrível sofrimento; entregou-se à maior de todas as -nas superstições, na cega esperança de que os seus ídolos o curariam. As harpias do embuste reuniram-se à sua volta, e extorquiram-lhe imensas somas de dinheiro, alegando possuir habilidade ou magia para restaurá-lo. Contudo, a enfermidade só fez piorar, e o seu espírito ímpio foi tomado pelos horrores do desespero e do remorso.

A mão que escrevera o temível julgamento na parede de Belsazar já pesara o perseguidor da igreja, e a terrível sentença fora escrita perante ele, tão formidável em sua antecipação, que ele pensou evitá-la por meio da morte. Adriano tentou induzir alguém a assassiná-lo, mas não obteve resultado. Finalmente, cheio de remorsos e desespero, recusou tomar qualquer ali­mento, e morreu no dia 6 de julho, de 140 d.C. (segundo relata Barônio). Sua morte ocorreu em Baja, e seu corpo foi posteriormente removido por Antônio Pio, para o imenso mausoléu edificado às margens do Tibre. Este mausoléu ainda resiste em seu esplendor, como uma ruína indestrutível, recordando aos peregrinos cristãos da Cidade Eterna o triunfo dos mártires, e a cegueira do perseguidor da Igreja. É fácil contrastar o feliz destino de Plácido, Eleutério, e das demais almas nobres que com eles foram coroadas, com a medonha ruína e morte eterna de seus perseguidores.

Que Deus nos capacite a resistir às paixões tiranas que nos perseguem, a fim de que, se não tivermos o privilégio de derramar nosso sangue por Cristo, possamos ao menos sacrificar nosso amor próprio, e juntarmo-nos a esses mártires, um dia, em louvores ao mesmo Deus a quem amamos e servimos.





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1 O mártir mais ilustre, que ganhou sua coroa desse modo, foi Lourenço, morto em 261, sob o reinado de Valeriano. A grelha sobre a qual ele sofreu, feita de ferro em vez de cobre, ainda encontra-se preservada na Igreja de São Lourenço, em Lucina, Roma.

2 "Omnis populus Romanus cucurrit ad hoc spestaculum certaminis", Bolandistas, 18 de Abril.

3 "Cum sis curiosus amnium, minor quomodo non poluisti ad baec pertingere, quol três pueri Helraei missi in carminum flammae ardentis, cujus altitudo cubitis quadragínta novem elata". - Atos Bolandistas, 18 de abril.

4 “0 prefeito da cidade era especialmente encarregado do Coliseu e dos jogos".

5 "Videns autem imperator quod etiam Corribon vinceret, jussit eum in conspectu omnium decollari". - Atos.

6 "Cum que essel B. Eleutherius in custodia multis diebus cibum non accípiens, coíumba ei cibum portabat adsatietatem". - Atos, par. 13.

7 Na flor da juventude, brilhando como um anjo.

8 "Eadem autum hora ângelus Domíni Suscipiens B. Eleutherius solvit eum etfecit eum sedere super equum". - Atos, par. 13.

9 "Adjuro vos per nomen Christi Domini ut nullum ex bis contigatis sed unaquaeque vestrum ascendat ad locum suum, ad cujus vocem omnesferae cum omni mausuetudine abscesserunt". - Par. 14, &

10 "Ave Caesar morituri te salutant".

11 "Dimissus autem leo cucurrit ad B. Eleutherium et, tanquam paterfilium post multum tempus videns, ita coram omnibus flebat In conspectu ejus, et manus ejus et pedes ejus lingebat". - N" 16.

12 “Haec nos duofratres, Eulogius et Theodulus, scripsimus qui ab eo ordinati sumus et hortationibus ejus adjuti semper cum ipso perseveravimus. et ea quae viderant oculi nostri et audierunt áurea nostrae nota fecimus". - &,

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Do livro: "Os Mártires do Coliseu"
A.J. O'Reilly

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